
Por Marcelo Abreu — Numa viagem de aplicativo, assim, na volta para casa, num dia comum, sem grandes surpresas, pode estar a possibilidade de refletir, sem perceber, na nossa própria história pessoal. Foi exatamente o que ocorreu comigo. Chamei um carro de aplicativo no meio da semana. Corrida de poucos minutos. Entrei no carro, cumprimentos formais de identificação.
De cara, vejo e ouço algo diferente. O motorista ouvia música clássica, baixinho. Passava das 21h. Ele perguntou se eu preferia que desligasse. "Tem gente que pede pra desligar e faz até cara feia." Respondi que não, absolutamente. Ele comentou, do nada, que aquilo era, para ele, como relaxamento. Tornava as viagens mais calmas, sobretudo nestes tempos tão estranhos e cheios de problemas.
Foi a deixa de que precisava para perguntar. Sou um perguntador inveterado. Se eu sinto que há espaço, prossigo. Indaguei qual a idade dele: "Fiz 72 ontem". Dei-lhe os parabéns. E, a cada resposta, era a chance se seguir conversa. Me disse que trabalha desde adolescente, com o pai, que era comerciante, no interior de Minas. Veio para Brasília aos 19 anos, no começo de tudo. "Era o sonho da Nova Capital, a terra onde jorraria leite e mel, o lugar da fartura", empolgou-se, citando a profecia de Dom Bosco.
Casou-se aos 22 anos. "Muito moço. Hoje, não me casaria tão jovem." Depois, foi ser bancário, sempre de instituição privada. O banco lhe enviou para o Nordeste, para abrir novas agências no interior de Pernambuco e do Ceará, ainda nos anos 1970, onde nasceram dois dos quatro filhos. Viu um Brasil real, sobretudo naqueles anos. "O Nordeste, naqueles anos, era quase outro país." Anos depois, voltou para Brasília, meados dos anos 1980. Chegou a cursar administração de empresas e economia, mas não terminou nenhuma das faculdades. "É um dos meus arrependimentos. Minha vida no banco poderia ter melhorado, crescido mais, mas me acomodei."
Há 10 anos, aposentou-se. Casado pela segunda vez, a mulher trabalha fora. Cansado de ficar em casa sozinho, resolveu também fazer alguma coisa. Virou motorista de aplicativo. "É uma forma de me manter ativo, sem ficar inventado dores e doenças." Começa a trabalhar sempre no início da tarde, exatamente quando saí de Samambaia, para deixar a mulher no trabalho, no Plano Piloto, e seguir com o seu turno no aplicativo. Roda até a noite, quando busca mulher e os dois seguem juntos para casa. É quando conversam sobre o dia no trabalho e os acertos para o dia seguinte.
A música clássica tocava baixinho. E a conversa prosseguia. Num certo momento, ele refletiu, como se passasse a vida num divã: "A gente precisa viver sem arrependimentos, sem a sensação de que podia ter feito alguma coisa e ter desistido no caminho. Assim, depois de uma certa idade, fica cada vez mais difícil consertar o que ficou pendente".
Chegamos à minha casa. Nos despedimos. Disse-lhe que, além da boa música, a conversa havia servido como ensinamento. Ele agradeceu. E me pediu para não me esquecer de avaliar a corrida. Prometi que sim. Assim que saí do carro, marquei as cinco estrelas disponíveis no aplicativo e lhe dei uma gorjeta. Às vezes, ou quase sempre, basta querer ouvir. Na história do outro, pode estar um alerta para as nossas próprias histórias, caminhos e decisões. Seu Adalberto, um homem que carrega histórias ao sabor de música clássica. Boa viagem!
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