
Um ataque envolvendo um dos cães do Senado Federal chamou atenção para uma estrutura pouco conhecida que integra a segurança. Na terça-feira (18/9), a médica veterinária Vitoria Valle foi mordida no pescoço por um dos animais enquanto cuidava dele no canil do Senado, em Brasília. Ela ficou estado grave e morreu neste sábado (22/8).
Segundo as informações preliminares da Polícia Civil, ela estava no canil para realizar um atendimento e foi mordida enquanto alimentava o cachorro, um pastor-belga-malinois. Ela foi encontrada por outro funcionário quando já estava ferida e levada às pressas ao hospital.
O animal envolvido no ataque foi retirado das atividades operacionais, passará por exames e permanecerá sob observação. O cachorro pertence ao Serviço de Cinotecnia do Senado Federal, setor responsável pelo treinamento e emprego de cães especializados em atividades da Polícia Legislativa. O Senado atualmente conta com quatro cães adultos, preparados principalmente para operações de detecção e apoio às equipes de segurança.
Vitória Valle de Oliveira Pinha atuava como tratadora de animais no Serviço de Cinotecnia da Casa. Ela foi estagiária de Medicina Veterinária no Senado de 2022 a 2024. Posteriormente, retornou à instituição como profissional terceirizada, na prestação do serviço de cuidado dos animais. O Senado lamentou a morte de Vitória e expressou solidariedade aos familiares.
O que é cinotecnia?
Cinotecnia é um conjunto de técnicas e conhecimentos especializados no estudo, criação, treino, manejo e emprego de cães em atividades específicas. Na área da segurança pública, os animais podem ser preparados para localizar substâncias, pessoas ou objetos por meio do olfato, além de atuar em situações que exigem intervenção e apoio operacional.
No Senado, esse serviço tem entre suas atribuições treinar e comandar os cães para tarefas de patrulha e policiamento, guarda, busca de pessoas e faro de drogas ou explosivos. Também podem empregar o serviço em intervenções em distúrbios civis e operações de busca e apreensão.
Esses cachorros são uma ferramenta complementar ao trabalho dos policiais legislativos. A capacidade olfativa permite buscas e inspeções mais detalhadas e pode ajudar na identificação de materiais escondidos e de difícil localização.
O desempenho dos cães policiais depende do treinamento especializado e de cuidados permanentes. São condicionados a reconhecer determinados odores, responder comandos e atuar em ambientes variados.
Mas mesmo um cão altamente treinado, responsivo e dócil no dia a dia, ele pode atacar devido a gatilhos biológicos, psicológicos ou situações imprevisíveis. A médica veterinária Fernanda Carballo explica que, apesar de ainda não ser possível determinar o que desencadeou o ataque, o fato do cão ser treinado não significa que ele deixa de ser um animal e elimina as respostas naturais de defesa, medo ou estresse. “O treinamento direciona comportamentos para determinadas funções”, acrescenta ela.
Problemas médicos e dores silenciosas podem ser indicativos, e um cão em sofrimento pode interpretar a aproximação como ameaça. Carbalho explica que durante um atendimento veterinário, por exemplo, o profissional precisa manipular o animal, tocar regiões sensíveis, conter movimentos ou realizar procedimentos que o cão não compreende. “Mesmo um animal que normalmente trabalha muito bem pode reagir diante de uma situação específica”, diz.
Como o ataque ocorreu enquanto a veterinária alimentava o animal, o instinto biológico primitivo também pode ter falado mais alto. Se o cão associou a presença da veterinária como uma ameaça à refeição, ele pode ter reagido de forma violenta, independentemente do treinamento.
Outro fato determinante é sua raça. O pastor-belga Malinois tem um forte instinto de caça, mordida e energia. São cães de resposta rápida, e qualquer gesto súbito, reflexo ou ruído interpretado por ele como agressão ou comando, gera a reação de ataque imediata.

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