O poeta e jornalista Luis Turiba morreu em Salvador nesta quarta-feira (26), aos 76 anos. Nascido em Pernambuco no ano de 1950, o escritor mudou-se para Brasília em 1978, cidade que mais tarde lhe concedeu o título de Cidadão Brasiliense em reconhecimento aos seus serviços prestados à cultura local. Ele deixa cinco filhos e seis netos.
Turiba morreu em casa em decorrência de complicações de saúde, incluindo um quadro pulmonar grave decorrente de sequelas da covid longa e insuficiência cardíaca, condição que já o havia levado a realizar uma cirurgia de ponte de safena aos 53 anos. O velório de Turiba será na quinta-feira (27/8), a partir de 14h, em Salvador. A cremação será às 16h30, no Cemitério Jardim da Saudade.
Batizado Luiz Artur Toribio, começou a carreira de repórter aos 23 anos no Rio de Janeiro, passando por O Globo e pela editora Bloch/Manchete, antes de seguir para a sucursal da Gazeta Mercantil na capital federal. Ao longo de sua trajetória no jornalismo, cobriu grandes marcos nacionais, como as obras da Transamazônica e o garimpo de Serra Pelada, além de acompanhar integralmente a campanha presidencial de Tancredo Neves e suas viagens internacionais, ocasião em que entrevistou o escritor argentino Jorge Luis Borges.
Em Brasília, Turiba conquistou duas vezes o Prêmio Esso de Jornalismo: a primeira no Jornal de Brasília, relatando o encontro de seu então estagiário Renato Manfredini (Renato Russo) com o ministro Delfim Netto; e a segunda pelo Correio Braziliense, em cobertura coletiva sobre a regularização de áreas públicas.
Em 1985, o jornalista integrou a assessoria de imprensa do recém-criado Ministério da Cultura e voltou a atuar na pasta entre 2002 e 2005 como assessor de comunicação na gestão do então ministro Gilberto Gil, período em que ajudou na concepção dos Pontos de Cultura e realizou documentários como Gil na ONU e A Capoeira no Mundo.
Sua trajetória literária começou oficialmente em 1977, com a publicação do livreto de poesias Kiprokó. Mais tarde, em 1998, sua produção artística ganhou notoriedade ao conquistar o Prêmio Candango de Literatura, concedido pelo Governo do Distrito Federal, pelo lançamento do livro-CD Cadê.
Para Turiba, escrever poesia era exercício de concisão, habilidade que ele adquiriu graças aos 32 anos de jornalismo. "Por se jornalista, meus poemas têm visão muito jornalística, de cena, de objetividade, de refletir um cotidiano. Quase que cinematográficos", define em entrevista ao Correio em 2018. Ele já atuou na cobertura de política, de cultura e até de guerra.
Depois de viver 30 anos em Brasília, voltou a morar no Rio de Janeiro em 2010, quando se aposentou do jornalismo. Publicou três livros de poesias pela editora carioca 7 Letras: “Quetais”, em 2014; “Poeira Cósmica”, em 2020, e o “Desacontecimentos”, em 2022.
Anistia
Em decisão unânime em 21 de agosto de 2024, a Comissão de Anistia do Ministério dos Direitos Humanos e da Cidadania (MDH) concedeu anistia política e oficializou o pedido de desculpas a Turiba.
Em entrevista ao Correio, Turiba contou que decisão da comissão é memorável. "Eu me emocionei bastante com a técnica do governo de pedir desculpas por tudo o que o Estado fez com você, com a sua geração, reconhecendo que houve abusos e que a sociedade brasileira já reconheceu há muito tempo", pontuou.
Espírito livre
Jornalista e ex-mulher do escritor, Lucia Leão relembrou a trajetória pessoal e política ao lado dele e destacou a personalidade única de Turiba. “Ele era uma pessoa irreverente, extremamente criativa, uma pessoa de esquerda toda a vida. Eu conheci ele fazendo movimento estudantil”, afirmou. Lucia contou que os dois se conheceram ainda jovens, quando Turiba estava em São Paulo, após deixar o Rio de Janeiro por ser procurado pela polícia. “Nós éramos estudantes, o Turiba estava fugido, na verdade, em São Paulo, fugido da polícia. Eu atuava no grêmio estudantil da minha escola, ele apareceu e começamos a namorar. Fomos presos juntos, depois nos casamos”, relatou.
Lucia conta que os dois tiveram três filhos — Thiago, Julia Morena e João Luiz — e cinco netos, além de uma trajetória marcada por projetos em conjunto. Ela destacou a importância da revista Bric a Brac, criada em Brasília por Turiba e um grupo de colaboradores. “Eu era editora dos livros dele, trabalhamos, fizemos juntos. Bric a Brac era o grande projeto poético dele. Um grande projeto mesmo, porque ele tinha mais orgulho, mais identidade. Era uma revista que foi feita aqui em Brasília, com um grupo pequeno de pessoas, mas que envolveu poetas e intelectuais do Brasil todo”, disse.
A jornalista Fernanda Lambach foi a segunda esposa de Turiba. Ao Correio, ela lamentou a perda do poeta e relembrou a convivência e a parceria profissional que compartilharam. Os dois foram casados por seis anos, união que gerou duas filhas e a neta Madalena, que conheceu o avô no início do ano. Fernanda lembrou a diferença de 22 anos de idade entre eles e a trajetória que construíram desde que se conheceram na redação do Correio Braziliense, onde trabalharam juntos em diversas reportagens, incluindo um caderno especial sobre o aniversário de Brasília.
"Ele só me deixa alegria, ele me fazia rir. Acordei dizendo essa frase: ele era um espírito livre e tenho certeza de que está voando feliz", declarou Fernanda. Ela destacou ainda a dedicação intensa do companheiro aos projetos culturais e o reconhecimento que recebia por onde passava: "O Turiba, quando tinha que trabalhar em um caderno de poesia, vivia o projeto com empolgação completa do começo ao fim".
Fernanda também enfatizou o impacto pessoal e profissional do relacionamento em sua formação como repórter: "O Turiba me ensinou a ter paixão pelo novo, pela notícia, por tudo o que tinha valor social. Ele me estimulava em qualquer maluquice minha, me incentivava a fazer as matérias mais diferentes possíveis. Era extremamente criativo e me estimulou a ser livre. Éramos do signo de Peixes, então eram dois criativos juntos", relembrou.
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