
Maria Elisa Costa, arquiteta e filha de Lúcio Costa, morreu nesta terça-feira (25/8), aos 91 anos. Ao longo da carreira, ela atuou na preservação do patrimônio arquitetônico e urbanístico de Brasília e participou de iniciativas importantes para a proteção da capital. Para o arquiteto e urbanista Frederico Flósculo Pinheiro Barreto, Maria Elisa ocupou um lugar singular na história da cidade: ajudou o pai a apresentar o projeto que daria origem ao Plano Piloto e, décadas depois, trabalhou para preservar a concepção original de Brasília.
“Ela foi filha e parteira”, afirma Frederico ao Correio. Segundo ele, Maria Elisa incentivou Lúcio Costa a participar do concurso para o Plano Piloto e, na reta final do prazo, levou a proposta do pai ao então Ministério da Educação, onde os projetos eram recebidos.
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A participação, segundo o arquiteto, colocou Maria Elisa na própria origem de Brasília. Mas sua trajetória na cidade foi muito além daquele episódio.
Além disso, Maria Elisa atuou no Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan) e participou de conselhos do Governo do Distrito Federal. Também trabalhou ao lado do governador José Aparecido de Oliveira durante o processo que levou Brasília ao reconhecimento como Patrimônio Cultural da Humanidade pela Unesco, em 1987.
Para Frederico, ela teve papel fundamental na conquista do título e dedicou a carreira à preservação da cidade. “Ela deixou a marca na preservação de Brasília e lutou como uma leoa até o fim”, afirma.
Atuação na preservação
Em 2002, Maria Elisa presidiu a banca do concurso para revitalização da W3. Frederico integrou a equipe responsável pela proposta vencedora e acompanhou de perto a atuação da arquiteta.
Segundo ele, Maria Elisa conduziu o processo de escolha de forma a privilegiar uma proposta que preservava as características urbanísticas da avenida e do Plano Piloto.
O episódio, para Frederico, representa a postura que ela manteve ao longo da carreira: intervir nos debates sobre o desenvolvimento de Brasília sem abrir mão dos princípios que orientaram sua concepção.
“Ela sempre esteve onde deveria estar na defesa de Brasília”, diz.
Essa atuação também refletia uma preocupação mais ampla com a arquitetura brasileira. Frederico afirma que Maria Elisa compartilhava com o pai a defesa da preservação da memória e do patrimônio do país.
“Ela realmente tinha uma coisa que Lúcio Costa deixou marcada na história do pensamento arquitetônico brasileiro, que é a atenção do Brasil pelo Brasil”, afirma.
Uma trajetória própria
A relação com Lúcio Costa marcou a trajetória de Maria Elisa, mas Frederico destaca diferenças entre a atuação dos dois. Enquanto o arquiteto ganhou projeção principalmente pela elaboração de ideias e projetos, Maria Elisa assumiu uma atuação mais direta na defesa dessas concepções em instituições e órgãos públicos.
Ela viveu em Brasília, participou de debates sobre o desenvolvimento da cidade e construiu uma rede de relações profissionais que, segundo Frederico, ampliou sua capacidade de atuação.
Maria Elisa também trabalhou para preservar a produção intelectual do pai. Ela organizou uma publicação que reuniu escritos de Lúcio Costa e contribuiu para manter acessível a memória de seu pensamento sobre arquitetura e urbanismo.
Para Frederico, esse trabalho ajuda a compreender a dimensão de seu legado: Maria Elisa não apenas acompanhou a trajetória de Lúcio Costa, mas atuou para preservar e defender as ideias que ajudaram a definir Brasília.
Legado para as arquitetas
O arquiteto ouvido pelo Correio também considera a trajetória de Maria Elisa uma referência para novas gerações de arquitetas. Para ele, ela enfrentou os desafios da profissão por meio da atuação técnica e da defesa de suas convicções, sem depender apenas do sobrenome do pai para ocupar espaços de decisão.
“Ela deveria ser tomada pelas arquitetas como uma das referências do futuro, do pensamento, do brilho da arquitetura brasileira”, afirma.
Para o arquiteto, Maria Elisa deixa como legado uma trajetória marcada pela defesa do patrimônio, pela preservação da memória arquitetônica brasileira e pela participação ativa na história de Brasília.

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