Brasília

Ipês-brancos florescem em Brasília em meio à reta final da seca

As tradicionais árvores com flores esbranquiçadas surgem no fim da seca, em um espetáculo breve que embeleza a paisagem e prenuncia o tempo chuvoso

 02/09/2026 Cr..dito: Marcelo Ferreira/CB/D.A Press. Brasil. Bras..lia - DF -  Ip.. branco na 211 Norte.
     -  (crédito:  Marcelo Ferreira/CB/D.A Press)
02/09/2026 Cr..dito: Marcelo Ferreira/CB/D.A Press. Brasil. Bras..lia - DF - Ip.. branco na 211 Norte. - (crédito: Marcelo Ferreira/CB/D.A Press)

Nesta época do ano, na transição do auge da seca para o início das chuvas, uma espécie desperta na vegetação do Distrito Federal trazendo esperança para dias mais amenos e florais: os ipês-brancos que florescem para anunciar a chegada da primavera. A árvore, que pode alcançar até 15 metros de altura, começa a preencher a cidade com suas copas de infinitas flores claras.

"A cor branca forte da flor harmoniza com o contraste das cores mais fracas da seca e cria um degradê muito bacana". É assim que Daiane Caroline Gomes, de 32 anos, descreve o que sente ao ver as árvores. A chef de um bar na Asa Norte conta como acredita que os ipês se tornaram parte da cultura, da identidade e da memória afetiva de Brasília. "Eu vejo que aqui ele se destaca muito mais do que em outras cidades. É algo nosso, quase que um cartão-postal da cidade", destaca Daiane.  

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Floração curta

Não à toa, os ipês são tombados como patrimônio ecológico do Distrito Federal. A cada ano, eles transformam a paisagem árida da seca em um espetáculo de cores, encantando moradores e visitantes. Segundo a Companhia Urbanizadora da Nova Capital (Novacap), de 2016 até início de 2025, o Programa de Arborização da companhia plantou 21.951 mudas de ipês-brancos no solo do DF.

A espécie segue a ordem padrão das árvores que florescem no período da estiagem. As folhas secas caem, e as plantas usam as condições climáticas como sinais marcadores para o início da floração. De agosto a outubro, florescem de forma rápida e intensa, com as flores que tendem a durar apenas alguns dias em uma mesma espécie.

Segundo o biólogo Marcelo Kuhlmann, é preciso estar atento para notar as várias mudanças repentinas. "Às vezes, você passa por uma árvore durante todo o ano e, quando volta alguns dias depois, ela está completamente florida. E, em pouco tempo depois, as flores já desapareceram de novo", afirma o especialista. 

A velocidade entre o florescer e o cair das flores é a característica que mais chama a atenção do biólogo, que classifica como "explosão de vida". Ainda segundo ele, uma mesma árvore pode florescer mais de uma vez em um curto período. "Existem registros que apresentam dois ou mais pulsos de floração em pouco tempo", afirma. 

Para Marcelo, a implementação dos ipês-brancos não representa apenas uma tentativa de embelezar a cidade, mas também uma forma de trazer um pouco da paisagem original do Cerrado para o cotidiano dos brasilienses. "Ele tem uma combinação muito especial: é uma espécie nativa, adaptada ao nosso clima, tem um porte adequado para a arborização urbana e apresenta uma floração extremamente ornamental", explica. 

A moradora da 404 Norte Ana Paula Domingues viu, pela primeira vez, um ipê-branco perto de casa. "Não tinha percebido que eles tinham começado a florir. Moro aqui e vi hoje pela primeira vez", conta. Nascida no interior de São Paulo, ela vive em Brasília há 11 anos e explica como, nesses anos, passou a valorizar mais a paisagem do Cerrado. "Acho que criei uma relação mais próxima, de perceber mesmo esse tempo do florescimento, quando brota essa vida e essa exuberância assim das cores", diz.

  •  De agosto á outubro, as flores aparecem e somem em um intervalo de poucos dias
    De agosto á outubro, as flores aparecem e somem em um intervalo de poucos dias Fotos: Marcelo Ferreira/CB/D.A Press
  • Ana Paula Domingues viu, pela primeira vez, um ipê-branco perto de casa
    Ana Paula Domingues viu, pela primeira vez, um ipê-branco perto de casa Marcelo Ferreira/CB/D.A Press
  •  Os ipês brancos têm cheiro suave e adocicado, proveniente da polinização das abelhas
    Os ipês brancos têm cheiro suave e adocicado, proveniente da polinização das abelhas Marcelo Ferreira/CB/D.A Press
  • Daiane Caroline Gomes tira foto de Laune Souza, em frente à árvore
    Daiane Caroline Gomes tira foto de Laune Souza, em frente à árvore Marcelo Ferreira/CB/D.A Press
  • Um ipê-branco na 404 Norte anuncia o fim da seca e a proximidade da primavera
    Um ipê-branco na 404 Norte anuncia o fim da seca e a proximidade da primavera Marcelo Ferreira/CB/D.A Press

 

Cheiro de chuva

Para Maurília Gomes, 72, os ipês-brancos representam as mudanças pelas quais a cidade passa ao longo do ano. A aposentada diz observar a beleza nos pequenos contrastes entre o verde que, ao longo do tempo, dá espaço ao roxo, amarelo, rosa e, enfim, chega ao branco. "A natureza é linda. Muitas vezes, até saio conversando com as folhas e sentindo esse cheiro maravilhoso. Já sinto que está chegando chuva", afirma. 

O doutor em ecologia e professor da Universidade Católica de Brasília (UCB) Stefano Salvo Aires confirma a sensação de Maurília. Em teoria, os brancos, assim como todos os ipês, possuem cheiro. Segundo o docente, isso ocorre devido ao fato de serem plantas melitofilia, polinizadas, principalmente, por abelhas. "Quando a árvore está no período máximo de floração, elas tendem a apresentar um perfume doce, mas muito suave", explica o especialista. 

De forma simbólica, esse perfume pode representar também um chamado da árvore para a chuva. Quando as flores caem, os frutos abrem para dispersar as sementes aladas e leves que são carregadas pelo vento em busca das primeiras gotas de água da estação chuvosa. Ao germinar dos pequenos grãos, o ipê-branco renova sua vida sob a terra com a promessa de que, na próxima estação, as flores voltarão para embelezar Brasília novamente.

*Estagiária sob a supervisão de Patrick Selvatti


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postado em 06/09/2026 00:01 / atualizado em 06/09/2026 08:44
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