O calor que atinge Brasília neste meio de ano certamente não está fazendo bem a ninguém, e deve ter afetado a temperatura da crise que atinge a Suprema Corte e resvala nos demais Poderes. Apesar de vivermos em pleno inverno, temperaturas acima dos 30ºC aliadas à umidade quase nula colocam a saúde de qualquer um à prova.
Sim, você leu corretamente: estamos no inverno. Apesar de esse ser um aprendizado básico nos primeiros ciclos escolares, preferi checar novamente e repetidas vezes na página oficial do Instituto Nacional de Meteorologia (Inmet). Apenas daqui a pouco mais de uma semana entraremos na primavera.
Ninguém espera frio congelante em Brasília — apesar de em outras épocas ter havido registro de neve —, mas em algum grau é razoável pensar que a estação corresponderá minimamente ao clima a ela associado. As mudanças climáticas impõem seu ritmo de forma cada vez mais ofensiva.
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Sabemos bem o que acontece diante do calor intenso. O primeiro passo é a irritação. Viramos tiranos autoritários, prontos a fazer valer a nossa vontade custe o que custar. Só aquilo que pensamos parece fazer sentido e quem discorda não passa de uma besta vestida digna do nosso ódio ou do mais completo desprezo.
A segundo passo é a exaustão. Perdemos a esperança na humanidade e, junto, perdemos o chão. Como se flutuássemos pelo vapor que poucos ainda insistem chamar de ar puro. Mas mesmo com todo o esforço para respirar fundo e encher os pulmões, nunca é suficiente e nos sentimos sempre sufocados.
Os ministros do Supremo devem estar enfrentando esses estágios no momento. Como guardiões da Constituição, no entanto, é de se esperar que cumpram o dever que a mesma Carta Magna lhes confere e respeitem os preceitos básicos e o devido processo legal. Junto à legalidade é importante que busquem também a moralidade.
É imoral que trabalhadores exerçam suas funções debaixo do Sol escaldante para receber um salário mínimo enquanto os que deviam garantir os seus direitos e os recursos que podem transformar suas vidas jogam com o poder. Não podemos ser tratados como fantoches. A confiança é uma construção, e os magistrados precisam manter firmes os pilares do edifício.
O calor extremo e a imersão na pauta da eleição e em todo o cenário político do país me forçou a esta reflexão sofrida. Espero que igualmente os atores envolvidos nos temas que dominam as manchetes nos últimos dias, inocentes ou culpados, façam o mesmo exercício.
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