Entrevista

Voto nulo dado a Arruda pode decidir no 1º turno, alerta cientista político

Ao CB.Poder, Lúcio Rennó, cientista político e professor da Universidade de Brasília (UnB), avalia que saída de Arruda da disputa ao Governo do Distrito Federal (GDF) aproxima Celina Leão da vitória neste domingo (4/10)

O CB.Poder — parceria do Correio com a TV Brasília — de ontem recebeu o professor de ciência política da Universidade de Brasília (UnB) Lúcio Rennó. Aos jornalistas Carlos Alexandre de Souza e Sibele Negromonte, o pesquisador comentou a tendência do eleitor brasiliense na reta final pré-votação e os cenários da corrida eleitoral no Distrito Federal.

Quais são as maiores incertezas em relação à eleição no Distrito Federal?

A primeira grande dúvida é se a eleição para o Buriti termina no primeiro turno, com a vitória de Celina Leão (PP), ou se nós teremos um segundo turno entre Celina e Leandro Grass (PT). Nenhum outro cenário me parece ter chance de substituir ou de vencer o Grass nessa disputa pelo segundo turno. A segunda é a disputa pela vaga do Senado. Tudo indica que Michelle Bolsonaro (PL) deve ser eleita. Ela tem uma vantagem considerável em relação às demais candidaturas. Mas a segunda vaga está numa disputa bastante acirrada, que tem a senadora Leila do Vôlei (PDT), a deputada Bia Kicis (PL) e a deputada Érika Kokay (PT), disputando com esse ordenamento.

Para onde foram os votos do Arruda?

O que está ocorrendo com o voto do Arruda (PSD) é que está se distribuindo relativamente igual entre algumas candidaturas, e a saída na última semana vai gerar confusão em uma parcela grande do seu eleitorado. Muita gente vai votar nele, e esses votos serão invalidados. A capacidade de transferência de votos com um eleitorado cada vez mais polarizado é cada vez menor. Leandro Grass vem crescendo, mas eu acho que é por um fenômeno diferente: um voto petista que está chegando no Leandro, agora mais tardiamente.

O fato de Arruda ter saído, que estava em segundo nas pesquisas, muito próximo de Celina, acelerou essa possibilidade de se fechar no primeiro turno?

Já havia alguma indicação. Celina cresceu muito na campanha, a gente precisa reconhecer que o voto dela cresceu muito durante o processo eleitoral. Já se aproximava dessa possibilidade de vitória no primeiro turno. Sem dúvida nenhuma que a saída do Arruda facilita esse processo, independentemente da transferência, principalmente por causa do voto nulo, que vai crescer. O não voto se transforma em voto inválido, portanto, a necessidade de votos válidos para se eleger no primeiro turno cai. Fica mais fácil eleger no primeiro turno. É mais fácil atingir a porcentagem necessária para se ganhar com esse cenário. E a saída do Arruda facilita.

Podemos afirmar que as pessoas avaliam bem o governo atual, e vão continuar com a candidata à reeleição?

Tem, sim. Eu acho que esse é um outro determinante do voto importante no Brasil e em qualquer lugar do mundo. Se as pessoas estão satisfeitas com o governo, e uma parcela grande do eleitorado do Distrito Federal estava, sim, satisfeita com o governo Ibaneis-Celina, isso, sem dúvida, solidificou o apoio nela. Ela herdou o que tinha de bom do governo Ibaneis Rocha (MDB) e conseguiu se esquivar do que tinha de ruim. Então tem, obviamente, ali um lado da campanha dela que foi muito inteligente em como lidar com o problema e evitá-lo. 

E para o Senado, uma polarização clássica...

O que eu acho importante de destacar disso tudo, e fica muito claro nas duas eleições, para o governo e para o Senado, é a força do voto conservador de direita no Distrito Federal. E  Centro-Oeste do Brasil é assim, o Sul do Brasil é assim, o Sudeste um pouco mais indefinido, já no Nordeste é o oposto. Mas, aqui, a gente tem um voto conservador bolsonarista muito forte. E ele se reflete nesse crescimento, que eu acho importante de ser destacado, da Bia Kicis (PL). Ela começa o processo eleitoral com uma intenção de voto muito baixa. E, à medida que as pessoas associam ao bolsonarismo, por meio da Michelle Bolsonaro (PL), ela tem um crescimento vertiginoso e, agora, compete diretamente pela vaga.

*Estagiária sob supervisão de Patrick Selvatti 

 

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