Prevenção

Obesidade: mudança de estilo de vida funciona melhor que medicamentos

Fornecer ferramentas pensando na integralidade da saúde dos pacientes com sobrepeso deve ser principal estratégia para combater doenças associadas à obesidade, diz médico

Jéssica Gotlib
postado em 08/10/2020 18:58 / atualizado em 08/10/2020 18:59
"Mudança do estilo de vida, com atividade física, com alimentação, inclusive com padrão psicológico" tem que estar em evidência, diz Luciano Lourenço - (crédito: Marcelo Ferreira/CB/D.A Press)

O clínico geral e coordenador do pronto-socorro do Hospital Santa Lúcia, Luciano Lourenço, foi o entrevistado do programa CB.Saúde — parceria do Correio com a TV Brasília — desta quinta-feira (8/10) sobre os impactos da obesidade associada à infecção pelo novo coronavírus. Mas o médico também explicou que, para além da pandemia, o sobrepeso deve ser contornado para que pacientes não tenham outros quadros de saúde agravados.

"A obesidade predispõe a muitas doenças. Nós temos, com a obesidade, o que a gente chama de síndrome metabólica, o organismo inteiro sofre. A gente tem que pensar que um paciente que mantém uma carga corpórea aumentada pelo acúmulo de gordura, que geralmente está associado com o estilo de vida muito ruim, com alimentação muito inflamatória, de difícil digestibilidade, o sedentarismo, essas pessoas acabam tendo uma pré-disposição importante”, explica o médico.

Na pandemia ou fora dela, é importante que o sistema de saúde ofereça alternativas para que as pessoas com sobrepeso ou sedentárias adquiram um estilo de vida mais saudável, avalia Lourenço. "A gente precisa hoje criar ferramentas para que essas pessoas que estão sedentárias, se alimentando muito mal, com um estilo de vida muito ruim... E lembrar que essas mudanças do estilo de vida têm um impacto positivo no controle dessas doenças e na obesidade do que qualquer medicamento. E os medicamentos que são usados sem a mudança do estilo de vida, têm inclusive uma dificuldade muito grande de ajudar esse paciente. Eles começam a ter doses muito aumentadas para conseguir controlar", ressalta.

Perigo silencioso

Sem isso, são muitas as condições que surgem silenciosas e podem se tornar crônicas. “Para o diabetes, que é uma doença em que você tem uma falência da capacidade do organismo de conduzir a glicose que entra na sua corrente sanguínea proveniente da alimentação. Para a própria hipertensão, nesses pacientes que têm uma massa corpórea maior, o coração sofre muito porque precisa bombear esse sangue para o todo esse sistema e consequentemente fica sobrecarregado. A gente tem que pensar nos vasos que, quando tem placas pregadas aí nesses vasos provenientes da obesidade, eles têm dificuldade de fazer a regulação. E aí surge a hipertensão”, exemplifica.

Quando esses quadros se apresentam, Lourenço ressalta que fica ainda mais difícil a mudança de vida. “A gente começa a ter uma cadeia, as doenças relacionadas ao padrão articular, começa a ter inflamações relacionadas às articulações que aumentam ainda mais o sedentarismo. Ele (o paciente) já não consegue fazer atividade física, não porque ele não quer, mas porque ele já não tem condição. Dói o joelho, dói a coluna, dói o ombro, então é uma cadeia de eventos”, detalha.

Todos esses quadros precisam ser tratados, tanto com medicamentos quanto com mudanças no estilo de vida. “Para que esse indivíduo que está com sobrepeso, que está com obesidade, e ainda não apresentou alguma doença, que são silenciosas, esse é o grande problema. A pessoa se torna hipertensa sem sentir nada. Quando ele tem algum sintoma do diabetes, ele já está diabético. Então, essa prevenção é muito importante”, afirma.

E isso deve ser feito de maneira coletiva pelo sistema de saúde, porque é um quadro difícil de o paciente mudar sozinho. “Então, medicamentoso ou não medicamentoso, a mudança do estilo de vida, com atividade física, com alimentação, inclusive com padrão psicológico, mental, ter aquelas atividades que te fazem bem... Isso tem que estar em evidência”, conclui.

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