ALTERNATIVA

Covid-19: terapia com células-tronco dobra chance de sobrevivência

O efeito é observado em estudo com 40 pacientes de covid-19 assistidos em UTIs devido ao agravamento da doença. Segundo os cientistas, o tratamento experimental age sobre a tempestade de citocinas, uma reação prejudicial do corpo à presença do Sars-CoV-2

Correio Braziliense
postado em 09/06/2021 06:00 / atualizado em 09/06/2021 07:33
A abordagem de infusão única foi testada em voluntários graves: entubados e com pneumonia relacionada à infecção pelo novo coronavírus -  (crédito: Ronny Hartmann/AFP)
A abordagem de infusão única foi testada em voluntários graves: entubados e com pneumonia relacionada à infecção pelo novo coronavírus - (crédito: Ronny Hartmann/AFP)

O uso de células-tronco em indivíduos que enfrentam quadros críticos da covid-19 ganha força como um tratamento promissor. Em um estudo com 40 pacientes intubados devido às complicações da infecção pelo Sars-CoV-2, a terapia experimental ao menos dobrou a chance de sobrevivência, além de não ter gerado efeitos colaterais significativos. Detalhes do trabalho, conduzido na Faculdade de Medicina Universitas Indonésia, foram publicados na edição de ontem da revista científica Stem Cells Translational Medicine.

A equipe usou células-tronco mesenquimais retiradas do cordão umbilical — é possível encontrá-las também na polpa dentária, na medula óssea e no tecido adiposo. Essas estruturas apresentam grande potencial de proliferação e atuam na regeneração de tecidos danificados, podendo se transformar, por exemplo, em ossos, gordura e músculos. Ensaios clínicos anteriores demonstraram que células-tronco do tecido conjuntivo umbilical podem ajudar pacientes de covid-19 com pneumonia a sobreviver e se recuperar mais rapidamente. Esses experimentos, porém, foram conduzidos com estruturas manipuladas geneticamente.

A pesquisa indonésia inova ao não recorrer a essa estratégia. “Ao contrário de outros estudos, nosso ensaio usou células-tronco obtidas por meio de explantes de tecido do cordão umbilical real. Não as manipulamos para excluir a ACE2, uma proteína celular considerada ponto de entrada para o coronavírus (no corpo humano)”, explica, em comunicado, Ismail Hadisoebroto Dilogo, principal autor do artigo.

O ensaio clínico foi conduzido em quatro hospitais da capital do país, Jacarta. Todos os 40 pacientes estavam na unidade de terapia intensiva (UTI), entubados devido à pneumonia atrelada à covid-19. Metade recebeu uma infusão intravenosa contendo as células-tronco mesenquimais. O outro grupo, não. Nem os pesquisadores, nem a equipe médica e nem os pacientes sabiam quais estavam submetidos à terapia experimental.

Os cientistas observaram que a taxa de sobrevivência daqueles que receberam as células-tronco foi 2,5 vezes maior, quando comparada à do grupo de controle. No caso dos pacientes com uma condição de saúde crônica adicional, como diabetes, hipertensão ou doença renal, a taxa foi ainda melhor: 4,5 vezes. O tempo de permanência na UTI e o uso de ventilação mecânica não sofreram mudanças estatisticamente significativas. A infusão também foi considerada segura e bem tolerada, sem complicações com risco de vida ou reações alérgicas agudas durante os sete dias de monitoramento.

Proteínas inflamatórias

A hipótese levantada pelo grupo é de que as células-tronco agem sobre a chamada tempestade de citocinas, uma condição na qual a presença do Sars-CoV-2 faz com que o sistema imunológico da pessoa infectada reaja de forma exagerada e inunde a corrente sanguínea com proteínas inflamatórias. O surgimento de graves dificuldades respiratórias também é relacionado a esse fenômeno.

“A causa exata da tempestade de citocinas ainda é desconhecida, mas nosso estudo indica que a presença das células-tronco do cordão umbilical não manipuladas melhora a sobrevida do paciente ao modular o sistema imunológico em direção a um estado imune anti-inflamatório”, explica Dilogo.

Os autores do artigo lembram que, em casos críticos, as possibilidades de abordagem contra a covid-19 são muito limitadas, o que aumenta a taxa de mortalidade. Dos 40 pacientes do estudo, 26 morreram, o equivalente a 65% da amostra. Desses, 17 eram diabéticos, o que corrobora com “várias metanálises que sustentam que o diabetes mellitus aumenta a taxa de mortalidade em casos de covid-19”. Dos indivíduos recuperados, 10 (71,4%) vieram do grupo que recebeu o tratamento experimental e quatro (28,6%), do grupo de controle.

Abordagem adicional

Segundo Dilogo, embora o estudo tenha se concentrado em um grupo pequeno de participantes, os resultados obtidos devem ser considerados em futuras pesquisas e abordagens. “Pensamos que esse tratamento experimental poderia potencialmente levar a uma terapia adjuvante eficaz para pacientes com covid-19 em terapia intensiva que não respondem ao suporte convencional”, afirma. Editor-chefe da revista Stem Cells Translational Medicine e diretor do Wake Forest Institute for Regenerative Medicine, Anthony Atala concorda. “Esse estudo fornece resultados promissores, que podem informar um potencial tratamento para aumentar as taxas de sobrevivência. Ter terapias potenciais adicionais, como essa, pode ser altamente benéfico para esses pacientes”, enfatiza, em comunicado.

 

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