Mudanças climáticas

Calor extremo: 2024 pode ser o ano mais quente da história

Relatório da Administração Nacional Oceânica Atmosférica (Nooa) dos Estados Unidos indica que os recordes foram batidos em 2023 e a passagem do fenômeno El Niño deve contribuir para elevar ainda mais as temperaturas em 2024

Planeta sofre com as alterações climáticas que elevam as temperaturas colocando todos em alerta  -  (crédito: Ed Alves/CB)
Planeta sofre com as alterações climáticas que elevam as temperaturas colocando todos em alerta  - (crédito: Ed Alves/CB)
postado em 13/01/2024 06:00

Os próximos 12 meses serão de calor intenso, com 33% de chance de ultrapassar 2023 como ano mais quente, e 99% de probabilidade de figurar entre os cinco com temperaturas mais elevadas já registradas. Divulgado ontem em uma coletiva de imprensa on-line, o novo relatório da Administração Nacional Oceânica Atmosférica (Nooa) dos Estados Unidos também confirmou que a cobertura de gelo marinho da Antártida caiu para um nível recorde, com os termômetros atingindo marcas históricas na superfície do planeta e nos oceanos no ano passado.

O órgão da ONU confirmou que 2023 foi o ano mais quente da Terra.  "Continuaremos a ver recordes quebrados e eventos extremos crescerem até que as emissões cheguem a zero", diz Sarah Kapnick, cientista-chefe da Noaa. "Depois de ver a análise climática de 2023, tenho que dizer que as descobertas são surpreendentes" afirma. Segundo Kapnick, 2023 não foi apenas "o ano mais quente no registro climático de 174 anos da Administração Nacional Oceânica Atmosférica, mas de toda a história.

"Um planeta em aquecimento significa que precisamos estar preparados para os impactos das alterações climáticas que acontecem aqui e agora, como eventos climáticos extremos que se tornam mais frequentes e graves", acrescentou Kapnik.

Perspectivas

Além de as emissões humanas de gases de efeito estufa continuarem altas, o fenômeno El Niño deve continuar, o que justificará um 2024 com altas temperaturas. "Embora os eventos do El Niño ocorram naturalmente e venham e vão de um ano para o outro, as alterações climáticas a longo prazo estão a aumentar, e isso é inequívoco devido às atividades humanas", destacou, em um comunicado, a secretária-geral da Organização Meteorológica Mundial (OMM), Celeste Saulo. 

"As alterações climáticas são o maior desafio que a humanidade enfrenta. Está afetando a todos nós, especialmente os mais vulneráveis", afirmou Celeste Saulo. "Não podemos nos dar ao luxo de esperar mais. Já estamos tomando medidas, mas temos de fazer mais e rapidamente."

América do Sul

O relatório da Noaa, divulgado na mesma semana em que o Copernicus, serviço meteorológico europeu, confirmou 2023 como o ano mais quente da história, mostra que a temperatura média da superfície terrestre e oceânica do planeta foi 1,18ºC acima do século 20 — a maior desde 1850, quando o órgão iniciou os registros. Além disso, esteve 1,35ºC mais elevada que o período pré-industrial (1850 a 1900).

Também desde o começo do monitoramento da Nooa, os últimos 10 anos bateram recordes de calor sucessivos. Na América do Sul, o relatório destaca que a temperatura, em 2023, ficou 1,73ºC maior que 1900, quando os registros regionais começaram a ser realizados. Isso significa que, desde 1910, os termômetros nessa parte do continente americano elevaram a uma taxa média de 0,15ºC por década.

O relatório também mostra que 2023 foi o 47º ano consecutivo com temperaturas acima da média na América do Sul. Nove dos 10 anos mais quentes ocorreram desde 2012. O calor na região durante sete meses — maio e julho a dezembro — bateu todos os recordes históricos. Agosto foi o mais extremo: termômetros 2,43ºC além do registrado anteriormente.

Antártida

O continente gelado foi mais atingido por ondas de calor do que nunca, diz o documento da Nooa, com a temperatura anual 0,15ºC maior que a média, e oscilações mensais drásticas nos termômetros. Uma das consequências, segundo o órgão norte-americano, é que um iceberg maior que a capital de São Paulo se separou da plataforma de gelo Brunt em janeiro de 2023, no segundo maior desmoronamento da área nos últimos dois anos.

"O que vimos em 2023 foi extraordinário", diz Gavin Schmidt, diretor do Instituto Goddard de Estudos Espaciais da Agência Espacial Norte-Americana, que compõe a Nooa."Estamos tendo muita dificuldade em explicar por que 2023 foi tão quente. O que ocorreu no ano passado foi sem precedentes. É uma preocupação. Estou muito menos otimista quanto à minha capacidade de explicar o que está acontecendo."

Palavra do especialista

“O extraordinário calor global de 2023 tornou possível sinalizar que seria o ano mais quente já registado muito antes de terminar. Este nível de aquecimento está em linha com as projeções climáticas. Esperamos que o forte El Niño no Pacífico tenha impacto na temperatura global até 2024. Por esta razão, prevemos que 2024 seja outro ano recorde, com a possibilidade de ultrapassar temporariamente os 1,5 °C. É importante reconhecer que uma ultrapassagem temporária não significará uma violação do Acordo de Paris. Mas a nossa previsão destaca a rapidez com que estamos a nos aproximar disso e, portanto, devemos esperar mais efeitos climáticos regionais sem precedentes.”

Nick Dunstone, cientista climático do serviço meteorológico da Inglaterra, o Met Office

 


palavra de especialista

“O extraordinário calor global de 2023 tornou possível sinalizar que seria o ano mais quente já registado muito antes de terminar. Este nível de aquecimento está em linha com as projeções climáticas. Esperamos que o forte El Niño no Pacífico tenha impacto na temperatura global até 2024. Por esta razão, prevemos que 2024 seja outro ano recorde, com a possibilidade de ultrapassar temporariamente os 1,5 °C. É importante reconhecer que uma ultrapassagem temporária não significará uma violação do Acordo de Paris. Mas a nossa previsão destaca a rapidez com que estamos a nos aproximar disso e, portanto, devemos esperar mais efeitos climáticos regionais sem precedentes.”

Nick Dunstone, cientista climático do serviço meteorológico da Inglaterra, o Met Office

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