O aprendizado de um novo idioma pode ser mais um item do arsenal da longevidade. Segundo um estudo realizado em 27 países europeus, onde é comum falar mais de uma língua, a prática retarda em 46% o risco de envelhecimento precoce, comparado a pessoas monolíngues. Publicado na revista Nature Aging, o artigo inclui dados de 86 mil indivíduos entre 51 e 90 anos.
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A pesquisa, liderada pelo neurocientista argentino Agustín Ibáñez, usou um modelo de "relógio biocomportamental", desenvolvido pelos autores, que estima a diferença entre a idade cronológica e a biológica com base em fatores positivos (educação, cognição, atividade física e bem-estar) e adversos (doenças cardíacas, hipertensão, perda auditiva e diabetes). Esta última categoria também inclui ser do sexo feminino devido a componentes biológicos, principalmente hormonais, que contribuem para o envelhecimento.
De forma geral, pessoas que falavam ao menos uma língua adicional tinham risco 46% menor de envelhecer precocemente. Por outro lado, entre os monolíngues, o processo foi 2,1 vezes mais acelerado. O efeito benéfico cresceu de maneira proporcional: quanto mais idiomas o participante dominava, mais forte era a proteção.
Efeito cumulativo
Segundo Ibáñez, pesquisador do Trinity College Dublin, na Irlanda, esses resultados foram confirmados mesmo quando controlados fatores socioeconômicos, ambientais e políticos. "Há um efeito cumulativo: cada novo idioma funciona como um treino adicional para o cérebro, fortalecendo redes neurais relacionadas à atenção, memória e controle executivo", explica.
Ele também lembra que, embora estudos anteriores tenham encontrado uma associação entre o multilinguismo e a saúde cognitiva, no atual, a saúde como um todo foi considerada. "É um forte sinal de que a atividade mental no dia a dia, como usar múltiplas linguagens, pode influenciar o ritmo biológico do envelhecimento", diz.
"Encontramos uma associação entre falar vários idiomas e melhor funcionalidade física e social", reforça Lucia Amoruso, coautora do estudo e pesquisadora do Centro Basco de Cognição, Cérebro e Linguagem, na Espanha. "Isso sugere que o aprendizado e o uso de mais de uma língua podem ter efeitos sistêmicos, refletindo-se em uma saúde globalmente melhor."
As análises longitudinais — acompanhando os participantes ao longo do tempo — reforçaram a proteção. Bilíngues tinham 30% menor risco de envelhecimento acelerado nos anos seguintes, mesmo quando consideradas variáveis como qualidade do ar, desigualdade de gênero e renda per capita.
O estudo reforça a teoria da reserva cognitiva, segundo a qual experiências que desafiam o cérebro — como aprender novos idiomas — ajudam a construir redes neurais mais eficientes e resistentes à degeneração. "Falar várias línguas exige constante alternância entre sistemas linguísticos, o que estimula áreas cerebrais responsáveis por funções executivas. Essa prática contínua pode atrasar o declínio cognitivo relacionado à idade", disse, em nota, Adolfo García, um dos líderes do estudo e diretor do Instituto Global de Saúde Cerebral na Irlanda. Ele acrescenta que o efeito observado é "comparável ao de fatores reconhecidamente protetores, como a prática regular de atividade física ou a educação formal prolongada".
Os autores, porém, ressaltam que o impacto positivo depende do contexto. "O multilinguismo pode ser protetor, mas também pode se tornar fonte de estresse quando está associado à migração forçada ou à desigualdade estrutural", observa Ibáñez. "Em situações de vulnerabilidade, os benefícios cognitivos podem ser neutralizados pelos riscos psicossociais."
Saúde pública
Para ele, a descoberta tem implicações em políticas públicas. "Incentivar o aprendizado de línguas deve ser visto não apenas como um investimento educacional, mas como uma estratégia de saúde pública. Promover o bilinguismo pode reduzir desigualdades e retardar o impacto social e econômico do envelhecimento populacional", conclui Ibáñez.
O educador Marcelo Tavares, diretor-geral do Colégio Sigma, concorda que os benefícios do bilinguismo ultrapassam a sala de aula. "O uso constante de duas línguas funciona como um treino cognitivo de alta intensidade. Exercitar o cérebro por meio de hábitos intelectuais — leitura, escrita, filmes, debates, novas habilidades — diminui o risco de declínio cognitivo", acredita. "Nesse sentido, aprender uma segunda língua não é apenas um ganho imediato, é um investimento de longo prazo na saúde mental, cerebral e social, três aspectos determinantes para uma velhice saudável."
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