
O orgasmo, geralmente associado apenas ao prazer sexual, pode vir acompanhado de reações físicas e emocionais inesperadas para algumas mulheres. É o que mostra uma pesquisa recente da Universidade Northwestern, dos Estados Unidos, sobre os chamados fenômenos peri-orgásmicos, manifestações incomuns que ocorrem antes, durante ou logo após o clímax sexual e que não fazem parte da resposta orgásmica considerada “padrão”.
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O estudo, realizado a partir de um questionário online anônimo, ouviu mulheres maiores de 18 anos que relataram vivenciar esse tipo de fenômeno. Ao todo, 3.800 mulheres assistiram a um vídeo explicativo publicado nas redes sociais, e 86 delas afirmaram já ter passado por experiências peri-orgásmicas, respondendo à pesquisa.
Entre as participantes, 61% relataram sintomas físicos associados ao orgasmo. As queixas mais frequentes foram dor de cabeça (33%), fraqueza muscular (24%), dor ou formigamento nos pés (19%) e sensações no rosto, como coceira ou dormência (6%). Também surgiram relatos menos comuns, como espirros, bocejos, dor de ouvido e até sangramento nasal.
Já os sintomas emocionais apareceram em 88% das respostas. O choro foi o mais citado (63%), seguido por tristeza ou vontade de chorar mesmo em experiências sexuais positivas (43%), risos incontroláveis (43%) e, em menor número, alucinações (4%). Mais da metade das mulheres afirmou vivenciar mais de um sintoma e 21% relataram a combinação de reações físicas e emocionais.
Embora a maioria das participantes (69%) tenha informado que os fenômenos acontecem apenas ocasionalmente, 17% disseram que essas reações ocorrem de forma consistente durante o orgasmo. Em relação ao contexto, os sintomas foram mais frequentes durante a relação sexual com o parceiro ou parceira (51%), seguidos por masturbação (9%) e uso de vibrador (14%).
Para a psicóloga e sexóloga Alessandra Araújo, da Clínica Via Vitae, isso desmonta a ideia de que o orgasmo se resume aos órgãos genitais. “Esses fenômenos são fascinantes porque revelam o quanto o orgasmo é um evento do corpo inteiro. Ele envolve sistemas fisiológicos, neurológicos e emocionais ao mesmo tempo”, explica.
Segundo a especialista, os fenômenos peri-orgásmicos englobam todas as manifestações que acontecem na “vizinhança” do clímax sexual. “Eles variam muito de pessoa para pessoa e podem mudar conforme o momento da vida, o estado emocional ou até o parceiro”, afirma.
No aspecto fisiológico, o orgasmo provoca aumento da frequência cardíaca e respiratória, contrações musculares involuntárias e elevação da pressão arterial. Já no campo neurológico, ocorre uma desativação temporária do córtex pré-frontal, área ligada ao julgamento e ao controle, o que pode gerar sensação de perda de controle ou de “mente vazia”. Emocionalmente, há uma liberação intensa de hormônios como dopamina e ocitocina, responsáveis pelo prazer, vínculo e sensação de entrega.
Reações como tremores, sons involuntários, suor repentino, visão turva e até choro ou riso após o orgasmo são consideradas normais, de acordo com Alessandra. “O chamado ‘cri-orgasmo’, quando a pessoa chora ou ri, é uma válvula de escape do cérebro para lidar com uma sobrecarga sensorial muito intensa”, explica.
Por outro lado, a sexóloga alerta que alguns sinais merecem atenção, como dores intensas e persistentes, desmaios prolongados, náuseas severas ou sentimentos de pânico e tristeza profunda após a relação sexual. Nesses casos, a orientação é buscar ajuda médica ou psicológica.
A pesquisa também reforça que fatores hormonais e emocionais influenciam diretamente os fenômenos peri-orgásmicos. O ciclo menstrual, a gravidez e a menopausa podem alterar a intensidade e a forma como essas reações se manifestam.
Durante a ovulação, por exemplo, o aumento do estrogênio tende a intensificar as sensações. Já na menopausa, apesar de uma resposta física mais lenta, muitas mulheres relatam orgasmos mais emocionais e mentais.
O vínculo afetivo também desempenha um papel importante. “Em ambientes de confiança e segurança emocional, o corpo reduz os níveis de estresse e se permite uma entrega maior. Isso potencializa a liberação de ocitocina e pode tornar os fenômenos peri-orgásmicos mais profundos”, destaca Alessandra.

Ciência e Saúde
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