Saúde da mulher

Prevenção do câncer em mulheres negras ganha cartilha que reune saúde e axé

Material do INCA reconhece terreiros como espaços de cuidado e informação e propõe nova forma de comunicar a prevenção do câncer a mulheres negras

Por Thamires Pinheiro* — A prevenção do câncer entre mulheres negras passa por desafios que vão além do acesso a exames e consultas médicas. Barreiras históricas, raciais e culturais interferem diretamente na forma como a informação chega ou não a essa população. É a partir desse diagnóstico que o Instituto Nacional de Câncer (INCA) lançou a cartilha Saúde com axé: mulheres negras e prevenção do câncer, construída a partir do diálogo entre o conhecimento científico e saberes tradicionais dos terreiros.

O material, disponível gratuitamente em formato digital, propõe uma mudança no modo como a saúde pública se comunica. Em vez de adotar apenas uma linguagem técnica e distante, a cartilha se ancora em referências culturais, espirituais e comunitárias presentes no candomblé, reconhecendo esses espaços como territórios legítimos de cuidado, escuta e acolhimento.

A publicação aborda a prevenção de diferentes tipos de câncer, com destaque para aqueles que mais afetam mulheres, como o de mama e o de colo do útero. As orientações incluem informações sobre sinais de alerta, importância do diagnóstico precoce e caminhos para acessar o Sistema Único de Saúde (SUS), sempre respeitando a vivência e a realidade social das mulheres negras.

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A proposta parte do reconhecimento de que o racismo estrutural também se manifesta na saúde. Mulheres negras, em média, realizam menos exames preventivos e costumam receber diagnósticos mais tardios, o que muda as chances de tratamento e cura. A falta de informação adequada e o distanciamento entre políticas públicas e comunidades tradicionais agravam esse cenário.

Ao incorporar elementos do candomblé e valorizar o papel dos terreiros, a cartilha rompe com uma lógica histórica de invisibilização desses espaços. Líderes religiosas, por exemplo, exercem papel central na orientação, no cuidado coletivo e na disseminação de informações dentro das comunidades, o que amplia o alcance das ações de prevenção.

Terreiros como rede de cuidado

O material também reforça que os terreiros não são apenas espaços religiosos, mas redes comunitárias que promovem saúde física, emocional e social. Ao reconhecer essa dimensão, o INCA aposta em uma estratégia de prevenção mais próxima da realidade das mulheres negras, fortalecendo vínculos de confiança e combatendo a desinformação.

Além de informar, a cartilha busca estimular o autocuidado e o reconhecimento do próprio corpo, temas que dialogam com a ancestralidade e com a noção de saúde integral presente nas religiões de matriz africana. A abordagem amplia o entendimento de prevenção para além do consultório médico, integrando cultura, identidade e bem-estar.

O material integra um conjunto de iniciativas voltadas à redução das desigualdades raciais no acesso à saúde. Ao aproximar ciência e saberes tradicionais, a cartilha propõe um caminho possível para tornar a prevenção do câncer mais inclusiva, eficaz e socialmente comprometida.

* Estagiária sob supervisão de Roberto Fonseca

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