
Um exame simples, feito em casa e sem constrangimento ou riscos, pode transformar a forma como o câncer do colo do útero é prevenido. Um estudo realizado na China aponta que a análise do sangue menstrual pode ser uma alternativa eficaz para a detecção do papilomavírus humano (HPV), vírus responsável por todos os casos da doença. A nova abordagem surge em um contexto no qual o principal método de rastreamento, o exame papanicolau, ainda enfrenta barreiras que dificultam o acesso de muitas mulheres à prevenção.
A pesquisa envolveu 3.068 mulheres, entre 20 e 54 anos e com ciclos menstruais regulares, recrutadas entre setembro de 2021 e janeiro de 2025 em comunidades urbanas e rurais da província de Hubei. Segundo os pesquisadores, o método é não invasivo e permite que as próprias participantes realizem a coleta das amostras em casa, utilizando um miniabsorvente composto por uma tira de algodão estéril acoplada a um absorvente higiênico convencional.
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O exame citopatológico, conhecido como papanicolau, consiste na coleta de células da superfície do colo do útero, realizada por um profissional de saúde durante um exame ginecológico. Para isso, é introduzido um espéculo vaginal, que permite a visualização do colo uterino, e, em seguida, utiliza-se uma espátula e uma escova específicas para a retirada do material, que é enviado para análise laboratorial.
Desinformação e medo
Apesar de ser um exame rápido e geralmente indolor, o papanicolau ainda é evitado por muitas mulheres. Para o infectologista Alexandre Cunha, fatores como medo, desinformação, estigma e experiências negativas anteriores contribuem para a baixa adesão ao rastreamento. "Todos os casos de câncer de colo do útero são causados pelo HPV. É impossível desenvolver a doença sem a presença do vírus", afirma o especialista, reforçando a importância da detecção precoce das lesões pré-cancerosas.
O HPV é uma das infecções sexualmente transmissíveis mais comuns no mundo e está diretamente associado ao desenvolvimento do câncer do colo do útero. De acordo com o ginecologista Alexandre Silva, o vírus é um patógeno de DNA pertencente à família Papillomaviridae, que infecta exclusivamente seres humanos. Atualmente, mais de 200 tipos de HPV já foram identificados, dos quais cerca de 40 são capazes de infectar a região anogenital.
Potencial cancerígeno
Nem todos esses tipos, no entanto, estão relacionados ao câncer. A principal diferença entre eles está no potencial oncogênico, ou seja, na capacidade de provocar alterações celulares que podem evoluir para tumores malignos. Os HPVs de baixo risco, como os tipos 6, 11, 42, 43 e 44, estão associados principalmente ao surgimento de verrugas genitais e raramente evoluem para câncer, sendo responsáveis por cerca de 90% desses casos.
Já os HPVs de alto risco, entre eles os tipos 16, 18, 31, 33, 45, 52 e 58, estão relacionados ao desenvolvimento de lesões pré-cancerosas e a diversos tipos de câncer. Os tipos 16 e 18, por exemplo, respondem por aproximadamente 70% dos casos de câncer do colo do útero, além de estarem associados a tumores de vulva, vagina, pênis, ânus e orofaringe.
"A transmissão do vírus ocorre principalmente por meio do contato direto entre pele ou mucosas durante relações sexuais vaginais, anais ou orais, não sendo necessária a troca de fluidos corporais. Embora o uso do preservativo não ofereça proteção total, já que o vírus pode estar presente em áreas não cobertas pela camisinha , sua utilização correta e consistente pode reduzir o risco de transmissão em cerca de 60% a 70%", afirma Silva.
Metodologia e resultados
No estudo, publicado na revista científica The BMJ, cada participante forneceu três tipos de amostras: sangue menstrual, uma amostra cervical coletada por um médico para fins de comparação e uma amostra adicional destinada à análise laboratorial. As participantes também utilizaram um aplicativo do WeChat, chamado Early Test, para consultar os resultados dos exames e receber orientações de profissionais de saúde.
Os resultados demonstraram que o método baseado no sangue menstrual apresentou sensibilidade de 94,7% na detecção de lesões cervicais de alto grau (CIN2 ), desempenho semelhante ao do método tradicional, que alcançou 92,1%. Embora a especificidade do novo teste tenha sido ligeiramente inferior, o valor preditivo negativo foi idêntico em ambos, chegando a 99,9%. Além disso, não foram observadas diferenças significativas nas taxas de encaminhamento para colposcopia.
Apesar das limitações inerentes a um estudo observacional, os autores destacam que os dados indicam um grande potencial para o uso do sangue menstrual como uma alternativa padronizada, acessível e não invasiva, e possivelmente um substituto aos métodos tradicionais de rastreamento do câncer do colo do útero. A estratégia pode representar um avanço importante na ampliação da prevenção da doença, especialmente entre populações com menor acesso aos serviços de saúde.
* Estagiária sob supervisão de Lourenço Flores
Saiba Mais
Procedimento
A colposcopia é um exame ginecológico indicado para a avaliação detalhada do colo do útero, da vagina e, em alguns casos, da vulva, geralmente solicitado quando o exame papanicolau ou o teste de HPV apresentam alterações. O procedimento é realizado com o auxílio de um colposcópio, um equipamento com lentes de aumento e fonte de luz que permite ao médico observar essas regiões de forma ampliada, sem ser introduzido no corpo da paciente.
Maior adesão
"O estudo é importante porque enfrenta um dos maiores desafios na prevenção do câncer do colo do útero: aumentar a adesão ao rastreamento. Muitas mulheres deixam de realizar o exame por medo, desconforto ou dificuldade de acesso, e a possibilidade de testar o HPV a partir do sangue menstrual surge como uma alternativa prática e menos invasiva. Os resultados são promissores, com sensibilidade semelhante à coleta feita por profissionais e um valor preditivo negativo muito alto, indicando boa capacidade de descartar doença relevante. Isso sugere potencial para uso seguro em programas de triagem. Do ponto de vista da saúde pública, a coleta domiciliar pode ampliar significativamente o alcance do rastreamento, sobretudo em áreas com menor infraestrutura, contribuindo para reduzir a incidência e a mortalidade da doença. Ainda assim, é necessário cautela: novos estudos em diferentes populações e análises de implementação serão essenciais. Se confirmados, os achados podem representar um avanço importante rumo a um rastreamento mais acessível e centrado na paciente."
Alexandre Cunha, médico infectologista e coordenador do serviço de infectologia do Hospital Sírio-Libanês em Brasília

Ciência e Saúde
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