CORAIS

Corais-de-fogo perdem 100% da cobertura viva em litoral brasileiro

Espécie endêmica do Brasil está criticamente ameaçada após branqueamento total, aponta estudo; outras espécies também estão em alerta

Os corais-de-fogo Millepora braziliensis, espécie que existe exclusivamente no Brasil, sofreram branqueamento de 100% e perderam totalmente a cobertura viva nas colônias monitoradas em Tamandaré, no litoral de Pernambuco. A espécie está classificada como criticamente ameaçada de extinção.

O status de ameaça é reconhecido tanto pelo Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio) quanto pela União Internacional para a Conservação da Natureza (IUCN), que incluem a espécie na categoria de maior risco de desaparecimento.

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Outra espécie endêmica do país, Millepora nitida, também apresentou sinais de branqueamento, com cerca de 40% das colônias afetadas, mas sem perdas significativas de cobertura viva até o momento, segundo os pesquisadores.

Os impactos do aquecimento dos oceanos não se restringem aos corais-de-fogo. Os chamados corais verdadeiros também registraram altos índices de branqueamento. Em Maragogi, em Alagoas, o fenômeno atingiu 96% das colônias monitoradas. Em Porto de Galinhas, em Pernambuco, o percentual chegou a 84%. No mesmo período, 84% dos recifes de corais em todo o mundo foram afetados pelo branqueamento.

De acordo com Miguel Mies, professor do Instituto Oceanográfico da Universidade de São Paulo (IO-USP) e um dos coordenadores do estudo, os dados reforçam a urgência de ações de conservação.

“Os resultados reforçam a necessidade de medidas para proteger os corais, principalmente as populações de M. braziliensis, que enfrentam risco elevado de extinção por conta de ondas de calor provocadas por fenômenos como a fase quente do El Niño-Oscilação Sul, em convergência com o aquecimento global ocasionado pela emissão de gases de efeito estufa”, afirma.

A principal causa do branqueamento é o aumento da temperatura da água do mar, resultado da combinação entre o aquecimento global e o fenômeno El Niño. Segundo os pesquisadores, quando a água se aquece, os corais expulsam as microalgas que vivem em simbiose com eles e são essenciais para sua sobrevivência. Sem essas algas, os corais perdem a coloração, ficam esbranquiçados e podem morrer por falta de energia.

Apesar da importância para o ecossistema marinho, os corais-de-fogo ainda são pouco considerados em programas de monitoramento ambiental. Isso ocorre, em parte, pela dificuldade de acesso às áreas onde vivem e por serem menos abundantes do que os corais verdadeiros. Os pesquisadores, no entanto, destacam que a relevância ecológica dos corais-de-fogo é semelhante à dos demais recifes.

“Diferentemente do branqueamento de 2019, quando não estávamos preparados, o que está ocorrendo agora está sendo bem documentado para subsidiar políticas públicas. Precisamos fortalecer as ações de conservação e aumentar a conscientização sobre a importância de conter as mudanças climáticas”, conclui Mies.

O estudo também avaliou a situação das quatro espécies de corais do gênero Millepora registradas no Brasil. M. braziliensis apresenta situação crítica, com perda total de colônias em algumas áreas. M. nitida sofreu branqueamento parcial, sem perdas expressivas de cobertura. M. laboreli, localizada em regiões de difícil acesso no Maranhão, apresenta lacunas de informação, com relatos de poucas colônias vivas em 2022. Já M. alcicornis, espécie também encontrada no Caribe, é a mais abundante e monitorada, mas ainda gera preocupação entre os pesquisadores.

As tentativas de recuperação dessas espécies enfrentam desafios. Experimentos de restauração em laboratório ainda não apresentaram resultados satisfatórios, em razão dos altos custos e da mortalidade dos corais após a reintrodução em ambientes naturais, especialmente durante novas ondas de calor.

Segundo os pesquisadores, a preservação dos corais depende diretamente da redução das emissões de gases de efeito estufa e do fortalecimento das unidades de conservação, que oferecem maior proteção contra os impactos do branqueamento.

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