
Uma pesquisa publicada na revista científica JAMA Psychiatry indica que a dieta cetogênica pode ajudar a reduzir sintomas de depressão, especialmente em casos resistentes ao tratamento. A análise, que reuniu dados de 50 estudos com mais de 41 mil participantes, aponta leve melhora nos quadros depressivos, mas não encontrou resultados em relação à ansiedade.
A dieta cetogênica é caracterizada pela ingestão muito baixa de carboidratos, menos de 50 gramas por dia ou menos de 26% do total de calorias, e maior consumo de gorduras. O objetivo é levar o corpo a um estado chamado cetose, no qual a gordura passa a ser usada como principal fonte de energia.
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Segundo os pesquisadores, dez ensaios clínicos randomizados — grupos de tratamento — analisados mostraram redução significativa na gravidade dos sintomas de depressão quando comparados a dietas de controle. Os efeitos foram mais evidentes em estudos que monitoraram a cetose, incluíram participantes não obesos que adotaram restrições mais rigorosas de carboidratos.
Já em relação à ansiedade, os resultados não foram conclusivos. Nove estudos controlados não encontraram diferença estatisticamente significativa. Embora pesquisas quase-experimentais tenham sugerido melhora, esse tipo de estudo costuma apresentar resultados menos precisos do que os ensaios clínicos controlados.
A pesquisadora Min Gao, da Universidade de Oxford e uma das principais autoras do estudo, afirma que a dieta pode atuar como complemento no tratamento, mas não substitui medicamentos ou psicoterapia. “Não é uma cura, mas pode oferecer um pequeno benefício adicional para alguns pacientes quando usada junto ao tratamento padrão”, explica.
Em um dos estudos analisados, com 88 participantes, houve redução na pontuação do Questionário de Saúde do Paciente (PHQ), instrumento utilizado para avaliar a gravidade da depressão. Ainda assim, os pesquisadores destacam que seguir a dieta de forma mais rigorosa não significou, necessariamente, maior melhora nos sintomas.
Outro ponto observado foi a dificuldade de manter o plano alimentar ao longo do tempo. A intervenção durou apenas seis semanas, período comum em pesquisas sobre dieta, mas insuficiente para avaliar efeitos prolongados. Muitos participantes relataram dificuldade para seguir o regime sem acompanhamento intensivo.
Embora os resultados sejam promissores, os cientistas afirmam que ainda não é possível identificar qual mecanismo da dieta estaria ligado à melhora dos sintomas. Entre as hipóteses estão mudanças na forma como o cérebro utiliza energia, redução da inflamação e alterações na produção de neurotransmissores.
Hoje, a dieta cetogênica já é indicada em algumas situações, como controle do diabetes tipo 2, obesidade, epilepsia e determinados distúrbios neurológicos. Agora, surge como possível aliada também em quadros de depressão resistente, quando os sintomas persistem mesmo após o uso de pelo menos dois antidepressivos diferentes.
Para o nutricionista Omar de Faria, a alimentação pode ajudar na estabilização da chamada “neurobioquímica” do paciente, mas deve ser adotada com cautela. Segundo ele, o plano cetogênico prevê cerca de 75% das calorias vindas de gorduras, 15% a 20% de proteínas e apenas 5% de carboidratos, priorizando alimentos integrais e com baixo índice glicêmico.
“O plano alimentar não trata a depressão sozinho. Ele funciona como coadjuvante e pode potencializar o tratamento medicamentoso e psicoterapêutico. Consumir alimentos de carboidratos integrais de verdade pode ajudar no processo de desinflamação, como batata, cará, mandioca, abóbora, além de boas fontes de proteína que não tem excesso de gorduras saturadas e insaturadas, como abacate, pasta de amendoim, azeite, ovo”, afirma.
O especialista ressalta que nem todos os pacientes estão preparados para uma restrição tão intensa de carboidratos, especialmente aqueles com quadros mais graves de ansiedade e depressão. Por isso, qualquer mudança alimentar deve ser feita com acompanhamento profissional. "Um plano alimentar com alto teor de gordura e proteínas poderiam equilibrar melhor a reprodução e utilização dos neurotransmissores pelo sistema nervoso, mas o paciente tem que estar estabilizado, principalmente em relação ao seu humor para conseguir suportar tamanha restrição de carboidrato."
Ele também destaca a importância de reduzir alimentos ultraprocessados, ricos em açúcar e gordura saturada, que podem contribuir para processos inflamatórios e piora do humor, além de desestabilizar o paciente e causar um atraso na terapia medicamentosa. Por outro lado, alimentos ricos em triptofano, como banana, kiwi e chocolate com alto teor de cacau, podem auxiliar na produção de serotonina e melatonina, substâncias relacionadas ao bem-estar e ao sono.
“Todo paciente que apresenta transtornos e desordens relacionados ao comportamento do sistema nervoso e da neurobioquímica, pilar principal é a regulação do sono.”

Ciência e Saúde
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