Um sinal identificado no coração da Via Láctea tem grandes chances de indicar a existência de um pulsar raríssimo orbitando próximo ao buraco negro supermassivo Sagitário A*. Caso seja confirmado, o achado permitirá testes inéditos da Teoria da Relatividade Geral, de Albert Einstein, e ajudar na busca por uma teoria que una a relatividade à mecânica quântica.
O objeto é um pulsar de milissegundo, um tipo essencial de estrela de nêutrons que gira em altíssima velocidade. Nesse caso, o sinal detectado se repete a cada 8,19 milissegundos, o que significa que ele completa centenas de rotações por segundo. Pulsos tão regulares funcionam como relógios cósmicos, superados em precisão apenas por alguns relógios atômicos criados na Terra.
Siga o canal do Correio no WhatsApp e receba as principais notícias do dia no seu celular
O sinal que indica a localização, segundo os cientistas, parece vir de uma região muito próxima a Sagitário A*, o buraco negro supermassivo no centro da nossa galáxia, que tem cerca de 4,3 milhões de vezes a massa do Sol. A gravidade ali é tão intensa que distorce o espaço-tempo. Um pulsar orbitando esse ambiente extremo poderia revelar, com enorme precisão, como a gravidade funciona sob condições limites.
"Qualquer influência extrema em um pulsar, como a atração gravitacional de um objeto massivo, introduz pequenas alterações na chegada dos pulsos, que podem ser medidas e modeladas. Quando esses pulsos passam perto de um objeto muito massivo, eles também podem sofrer desvios e atrasos, exatamente como prevê a Teoria da Relatividade Geral", explicou o astrofísico Slvavko Bogdanov, da Universidade Columbia, em comunicado.
As observações fazem parte do Breakthrough Listen Galactic Center Survey, um dos levantamentos mais profundos já realizados na região central da Via Láctea. O projeto integra o programa internacional Breakthrough Listen, que busca sinais de vida extraterrestre por meio de ondas de rádio.
- Leia também: Calor causa branqueamento severo de corais
Sinal
Para tentar enxergar através do gás e da poeira que encobrem o centro galáctico, os pesquisadores usaram o Telescópio Green Bank, um dos maiores radiotelescópios do mundo, operando em frequências altas. Entre 2021 e 2023, mais de 20 horas de dados foram coletadas e analisadas. Ao todo, surgiram mais de 5 mil sinais candidatos.
A maioria foi descartada como interferência humana, como sinais de satélites ou equipamentos eletrônicos. Apelidado de BLPSR, o candidato apresentou características compatíveis com um pulsar de milissegundo. Testes estatísticos indicaram que a chance de o sinal ser apenas ruído aleatório era de uma em um milhão.
No entanto, o sinal não foi detectado novamente em observações feitas meses depois. Sem repetição confirmada, o objeto ainda não pode ser considerado uma descoberta oficial.
Segundo os pesquisadores, o pulsar pode estar em um sistema binário, orbitando outra estrela, o que faria seu sinal variar ou até ser temporariamente bloqueado por nuvens de gás. Também é possível que o próprio pulsar tenha parado de emitir sinais por um período, algo que alguns desses objetos fazem naturalmente.
A dificuldade em encontrar pulsars próximos ao centro galáctico é tão grande que existe até um nome para o mistério: o “problema do pulsar ausente”. Os cientistas acreditam que milhares desses objetos devam existir na região, mas quase nenhum foi confirmado até agora perto do buraco negro central.
“Estamos ansiosos para ver o que as observações de acompanhamento poderão revelar. Se confirmado, esse pulsar poderá nos ajudar a entender melhor tanto a nossa galáxia quanto a Relatividade Geral como um todo”, afirmou Karen I. Perez, autora principal do estudo e pesquisadora formada pela Universidade Columbia.
