Não é só o cigarro que envelhece o pulmão. Um estudo conduzido por pesquisadores da Universidade de São Paulo (USP), publicado na revista científica BMC Pulmonary Medicine com apoio da Fapesp, em setembro de 2025, analisou adultos com menos de 40 anos e indica que o próprio funcionamento do organismo pode comprometer o sistema respiratório antes do tempo. Fatores como excesso de peso e inflamações persistentes aparecem como elementos capazes de acelerar o envelhecimento pulmonar, inclusive em pessoas que nunca fumaram.
A pesquisa acompanhou quase 900 participantes ao longo de mais de uma década e identificou uma perda progressiva da função pulmonar associada a processos metabólicos e inflamatórios. O tabagismo continua sendo o fator de maior impacto, mas não é o único caminho para o desgaste dos pulmões.
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O estudo foi coordenado por Elcio Oliveira Vianna, professor da Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto da USP. Segundo o especialista, os pulmões sofrem os efeitos de inflamações que começam em outras partes do corpo. “Processos inflamatórios contínuos, mesmo quando não são intensos, acabam afetando o organismo como um todo. Com o tempo, esse impacto também chega ao tecido pulmonar”, explica.
Nesse cenário, a obesidade surge como um fator de risco silencioso. O acúmulo de tecido adiposo está associado a um estado inflamatório permanente, que interfere no funcionamento do organismo. “O corpo passa a operar em um estado de alerta constante, e isso também impacta a capacidade respiratória de forma gradual”, apontam os cientistas.
O estudo também indica que marcadores inflamatórios no sangue estão diretamente ligados à redução da função respiratória ao longo do tempo. Na prática, isso significa que processos inflamatórios contínuos podem causar danos progressivos ao tecido pulmonar, mesmo sem a presença de doenças respiratórias diagnosticadas.
Os dados ampliam a compreensão sobre o desenvolvimento da doença pulmonar obstrutiva crônica, tradicionalmente associada apenas ao tabagismo. Os pesquisadores observaram sinais iniciais de deterioração pulmonar mesmo em pessoas jovens, o que sugere que a doença pode começar a se formar muito antes do diagnóstico clínico.
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A pesquisa acompanhou participantes da Coorte de Nascimentos de Ribeirão Preto, avaliando a função pulmonar em diferentes fases da vida adulta. Para os autores, os resultados reforçam a ideia de que a saúde respiratória é resultado de múltiplos fatores e não apenas da exposição ao cigarro.
*Estagiária sob supervisão de Ronayre Nunes
