SAÚDE MENTAL

Luto prolongado: porque alguns cérebros não conseguem seguir em frente

Estudo aponta ligações entre redes neurais de recompensa, emoção e memória na persistência da dor, destacando um transtorno que afeta cerca de 5% a 10% das pessoas enlutadas

Estudo aponta ligações entre redes neurais de recompensa, emoção e memória na persistência da dor, destacando um transtorno que afeta cerca de 5% a 10% das pessoas enlutadas e pode necessitar de tratamento especializado
 -  (crédito: Reprodução/Freepik)
Estudo aponta ligações entre redes neurais de recompensa, emoção e memória na persistência da dor, destacando um transtorno que afeta cerca de 5% a 10% das pessoas enlutadas e pode necessitar de tratamento especializado - (crédito: Reprodução/Freepik)

O luto, aquela dor intensa e profunda que nasce da perda de alguém querido, é uma experiência universal, mas nem sempre segue o caminho de “cura natural” que muitas culturas e tradições imaginam. Enquanto a maioria das pessoas gradualmente consegue incorporar a ausência, há uma parcela significativa da população cuja dor persiste, incapacitante, por meses ou até anos. 

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Pesquisadores que estudam o fenômeno estão começando a desvendar por que alguns cérebros parecem “ficar presos” nessa dor, mesmo quando o enlutado sabe intelectualmente que a perda ocorreu.

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Segundo uma pesquisa publicada nesta semana na revista Trends in Neurosciences, cientistas analisaram o que se sabe até agora sobre a neurobiologia do chamado Transtorno de Luto Prolongado (Prolonged Grief Disorder, PGD), uma condição formalmente reconhecida como diagnóstico psiquiátrico desde 2018 e agora incluída em manuais como o DSM-5-TR e a CID-11.

“O transtorno do luto prolongado é uma espécie de ‘novato’ nos diagnósticos psiquiátricos”, afirma Richard Bryant, autor principal do trabalho e pesquisador especializado em traumas da Universidade de New South Wales, na Austrália.

A experiência de PGD não é apenas tristeza intensa. Trata-se de um padrão persistente de sofrimento que ultrapassa os seis meses após a perda e interfere significativamente na capacidade de funcionar no trabalho, nos relacionamentos e nas atividades diárias. Os sintomas podem incluir saudade arrebatadora, incapacidade de aceitar a morte, sentimento de que a vida perdeu significado, exaustão emocional, isolamento social e até pensamentos suicidas.

“Não é que seja um tipo diferente de luto”, diz Bryant. “É apenas que a pessoa está presa ao luto.”

Estudos epidemiológicos indicam que aproximadamente 1 em cada 20 pessoas enlutadas pode desenvolver PGD. Essa proporção, embora minoritária, representa milhões de indivíduos ao redor do mundo que sofrem de forma crônica após uma perda significativa.

O cérebro em luto

O que diferencia um luto que suaviza com o tempo de um que se torna prolongado está ligado, segundo a pesquisa, a mudanças nas redes neurais associadas ao sistema de recompensa e ao processamento emocional. 

Elementos fundamentais desse sistema, como o núcleo accumbens (envolvido no desejo e motivação), o córtex orbitofrontal (que avalia valores e expectativas) e o sistema límbico (centro das emoções), podem se comportar de maneira atípica em pessoas com PGD.

Esse conjunto de regiões normalmente exerce papel no que nos faz buscar prazer, aprender com experiências positivas e “seguir em frente”. Porém, quando a perda ativa esses circuitos de maneira persistente, como se o cérebro continuasse ansiando pelo retorno do ente perdido. A pessoa pode experimentar um estado semelhante a um “circuito de recompensa travado”, que reforça a fixação na ausência em vez de permitir a reorganização emocional.

Uma questão importante para médicos e familiares é distinguir PGD de outras condições tais como depressão maior ou ansiedade generalizada, que também podem acompanhar o luto. 

Embora os sintomas possam se sobrepor, PGD é desencadeado especificamente pela perda e caracteriza-se por ruminação persistente sobre o falecido e uma resposta emocional voltada para essa memória, enquanto na depressão, a tristeza e a anedonia (perda de interesse em atividades) tendem a ser mais amplas e não necessariamente centradas em um objeto ou pessoa específica.

O papel da plasticidade neural

Do ponto de vista biológico, o cérebro é plástico. Ou seja, ele é capaz de reorganizar suas redes ao longo da vida em resposta a experiências e aprendizagens. No entanto, essa capacidade não é imediata nem uniforme. A persistência da dor em alguns indivíduos pode refletir uma dificuldade maior de neuroplasticidade nos circuitos que regulam emoção e recompensa, combinada com fatores psicológicos, sociais e contextuais.

Além disso, fatores como a intensidade do vínculo com a pessoa perdida, circunstâncias traumáticas da morte, suporte social insuficiente e história prévia de transtornos mentais podem aumentar as chances de que o cérebro “não consiga concluir o processo de luto”.

Implicações para tratamento

Segundo os pesquisadores, o reconhecimento de PGD como um transtorno distinto abriu caminho para abordagens terapêuticas mais específicas, incluindo terapias psicológicas focadas em ajudar o enlutado a reestruturar suas memórias, emoções e expectativas. 

Algumas pesquisas exploratórias também estão investigando se intervenções que modulam o sistema de recompensa (por exemplo, certas formas de terapia comportamental ou farmacológica) podem ser eficazes.

Nesse contexto, o avanço das neurociências oferece não apenas explicações sobre os mecanismos cerebrais envolvidos, mas também uma perspectiva de esperança: compreender por que e como o cérebro pode ficar “preso” no luto é o primeiro passo para fornecer intervenções que ajudem pessoas que carregam essa dor por tempo prolongado.

Em síntese, a ciência mostra que, embora o luto seja uma resposta humana natural, em uma parcela significativa das pessoas ele pode se cristalizar em um transtorno com bases neurobiológicas distintas. Identificar e tratar esse quadro com sensibilidade e embasamento clínico é essencial para proporcionar alívio e recuperação.

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postado em 19/02/2026 12:46
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