COMBATE AO HIV

Comprimido único contra HIV pode facilitar tratamento à doença

Métodos atuais de controle da infecção pelo vírus que causa a aids exigem regimes de medicamentos que chegam a 11 pílulas diárias

Um comprimido oral diário que associa os antirretrovirais bictegravir e lenacapavir (BIC/LEN) mostrou-se tão eficaz quanto os tratamentos convencionais contra o HIV que exigem múltiplos comprimidos ao longo do dia. Segundo estudo internacional de fase 3, liderado por pesquisadores da Queen Mary University of London e publicado na revista The Lancet, o esquema experimental pode facilitar a rotina dos pacientes sem comprometer a segurança ou o controle da infecção.

De acordo com a professora de medicina da Queen Mary University of London Chloe Orkin, uma das autoras do trabalho, "o BIC/LEN combina os componentes ativos do bictegravir, um inibidor da integrase recomendado pelas diretrizes globais e com alta barreira à resistência, e do lenacapavir, o primeiro inibidor de capsídeo da sua classe, desenvolvido para interromper a replicação do HIV em múltiplos estágios críticos". O regime é administrado uma vez ao dia, reduzindo a chamada "carga de comprimidos" enfrentada por pessoas com tratamentos prolongados. 

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O ensaio clínico incluiu mais de 550 adultos em 15 países, todos com carga viral indetectável, mas usando regimes complexos, com dois a 11 comprimidos diários; cerca de 40% precisavam tomar remédios mais de uma vez ao dia. A idade média foi de 60 anos, variando entre 22 e 84 anos, e muitos participantes tinham outras condições de saúde, como doenças cardíacas ou renais, além de histórico de resistência a tratamentos anteriores.

Após a mudança para o comprimido único, quase 96% dos voluntários mantiveram níveis de HIV abaixo de 50 cópias/mL durante 48 semanas, sem surgimento de novas mutações. Entre aqueles que continuaram nos esquemas tradicionais, a supressão viral variou entre 94% e 96%. A contagem de células CD4 fundamentais para o sistema imunológico permaneceu estável em ambos os grupos.

Benefícios e riscos 

Além de manter a eficácia, o estudo identificou vantagens complementares, como menor aumento do colesterol e maior facilidade de adesão diária ao tratamento. "Há uma necessidade significativa de opções mais simples para pessoas que dependem de múltiplos comprimidos, horários complicados e interações medicamentosas, o que dificulta a adesão a longo prazo", ressalta Chloe Orkin.

O infectologista Daniel Paffili Prestes explica que o HIV ataca principalmente os linfócitos T CD4 , células essenciais à defesa do organismo. "Sem tratamento, a infecção pode evoluir para aids, etapa em que o sistema imunológico fica vulnerável a infecções graves, como tuberculose, pneumonias e candidíase esofágica. Na fase inicial, sintomas como febre, dor de garganta, ínguas e mal-estar podem ser confundidos com uma virose comum. Na fase crônica, a queda dos níveis de CD4 ocorre silenciosamente", detalha o especialista.

Segundo ele, a terapia antirretroviral, fornecida gratuitamente pelo SUS no Brasil, bloqueia a multiplicação do vírus. Esquemas iniciais costumam combinar tenofovir, lamivudina e dolutegravir. "O tratamento deve ser iniciado o quanto antes e permite que a pessoa vivendo com HIV tenha expectativa de vida semelhante à da população geral. Quando a carga viral se torna indetectável, o vírus não é transmitido sexualmente, conceito conhecido como Indetectável = Intransmissível", reforça Prestes.

O especialista observa que o lenacapavir é eficaz mesmo contra vírus multirresistentes, sendo indicado para pacientes que acumulam mutações ao longo do tempo. "Ainda assim, a resposta depende do perfil individual, tornando indispensável a realização de teste genotípico. Nem todos os pacientes multirresistentes respondem adequadamente a esquemas com apenas dois fármacos", acrescenta.

Perigo na irregularidade

Como qualquer antirretroviral, existe risco de resistência, especialmente em casos de baixa adesão ou mutações prévias. O lenacapavir tem meia-vida prolongada, mas pausas irregulares podem favorecer a seleção de vírus resistentes. "Os efeitos adversos mais frequentes incluem cefaleia, náuseas e insônia pelo bictegravir e diarreia leve ou reações no local da aplicação pelo lenacapavir. Pacientes com outras doenças, sobretudo idosos, devem ser acompanhados quanto à função renal e possíveis interações medicamentosas", afirma Prestes. 

O estudo destaca que a simplificação do regime é especialmente relevante para adultos mais velhos, pessoas com histórico de resistência ou que necessitam controlar outras condições de saúde. Ensaios adicionais estão em andamento para avaliar a segurança e eficácia a longo prazo do BIC/LEN. "Se aprovado, o comprimido único poderá reduzir a quantidade de remédios diários e facilitar a rotina de milhares de pessoas que vivem com HIV", conclui Chloe Orkin.

* Estagiária sob a supervisão de Lourenço Flores

 

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Pílula única no Brasil

Segundo o infectologista Daniel Paffili Prestes, no Brasil, já existem tratamentos para HIV em dose fixa única diária, disponíveis tanto pelo SUS quanto por meio de prescrição na rede privada. São esquemas modernos, eficazes e alinhados às diretrizes nacionais, pensados para facilitar a rotina de quem vive com o vírus, mas não com os mesmos medicamentos usados no estudo liderado pela universidade britânica. Ele explica que, entre as opções mais utilizadas estão combinações em um único comprimido por dia, como o Biktarvy, que reúne três antirretrovirais em uma só medicação, e o Dovato, composto por dois antirretrovirais em dose diária única. Esses esquemas fazem parte da prática clínica atual e são amplamente adotados no país.

De acordo com o médico, a preferência por esses tratamentos se deve a alguns fatores importantes. Eles oferecem excelente controle da carga viral, contam com alta barreira genética à resistência, favorecem a adesão por exigirem apenas um comprimido ao dia e, de modo geral, são bem tolerados pela maioria dos pacientes. "Já a combinação específica que uniria bictegravir e lenacapavir em um único comprimido ainda não está disponível no Brasil. Essa estratégia segue em fase de estudos, e o lenacapavir, até o momento, não integra um regime oral diário em dose fixa aprovado para uso comercial no país", afirma Prestes. 

Não é só um ganho técnico

Tomar vários comprimidos ao longo do dia não é apenas uma rotina farmacológica. Para muitas pessoas que vivem com HIV, isso funciona como um lembrete constante da própria sorologia como forma de sofrimento. Cada dose reativa sentimentos que acompanham o diagnóstico, como medo, estigma, culpa e receio de ser descoberto. Em muitos casos, o tratamento passa a ocupar a centralidade na vida cotidiana, com o HIV sempre em primeiro plano. Quando o estudo demonstra que é possível manter a supressão virológica com um regime simplificado, isso não é apenas um dado técnico. A vida com o HIV é colocada em perspectiva: o comprimido único diário significa menos momentos de exposição, menos preocupação com horários múltiplos e menos tensão psicológica em contextos sociais. Essa simplificação reduz a sobrecarga emocional associada ao tratamento e favorece uma sensação maior de autonomia e normalidade. Sobre adesão, é fundamental entender que as maiores dificuldades não são apenas técnicas. Elas são, sobretudo, emocionais e sociais. O estigma continua sendo um fator determinante. Muitas pessoas vivem com medo de que alguém veja o medicamento, descubra sua sorologia e exponha sua condição de saúde. Isso leva a esconder comprimidos, atrasar doses e, em alguns casos, abandonar o tratamento. Além disso, quadros de depressão, ansiedade e uso problemático de substâncias impactam diretamente a regularidade da adesão. Quando um estudo como esse propõe simplificar o regime terapêutico, ele não está apenas facilitando a logística do tratamento. Ele reduz barreiras subjetivas e sociais reais que interferem na vida dessas pessoas. E isso, do ponto de vista da saúde mental, é extremamente relevante.

Guilherme Lima, psicólogo clínico com atuação voltada para a saúde mental de pessoas que vivem com HIV/Aids e da população LGBTQIAPN