Elton Kanomata, psiquiatra do Hospital Israelita Albert Einstein
O que pode ajudar a explicar esse crescimento consistente da automutilação?
Diversos fatores são apontados como responsáveis para o crescimento de casos de automutilação entre jovens. Sob o aspecto da saúde mental e psicológica, podemos elencar o aumento da prevalência de transtornos mentais como depressão e ansiedade; fase de desenvolvimento de habilidades socioemocionais, regulação emocional e tolerância ao estresse e frustração. Do ponto de vista socioambiental, há fatores de risco como culturais e religiosos; eventos traumáticos e estressores, violência, pobreza e desigualdade social; poluição, degradação ambiental e crise climática, que impactam o bem-estar psicológico; a velocidade e quantidade de informações absorvidas, o uso excessivo de telas e mídias sociais, a adultização precoce e o bullying. Do ponto de vista biológico, temos as alterações hormonais e desenvolvimento cerebral e do corpo, que influenciam na formação de identidade pessoal e individualidade.
Quais são os riscos de progressão para suicídio?
A automutilação abrange um amplo espectro de comportamentos em que um indivíduo se prejudica intencionalmente, com ou sem intenção suicida. Quando não há a intenção de morrer, geralmente serve como um mecanismo de enfrentamento para regular emoções negativas e obter alívio emocional. Porém, a distinção entre automutilação não suicida e comportamento suicida é complexa, pois esses fenômenos frequentemente podem se sobrepor, principalmente em situações de crises de ansiedade e estresse.
Os dados indicam um aumento mais acentuado entre as meninas. Existem fatores biológicos ou neuropsiquiátricos que ajudem a explicar essa diferença de gênero?
Sim, fatores hormonais e mudanças do corpo, e a forma como interagem nos sistemas de neurotransmissores podem levar ao aumento na vulnerabilidade para depressão, ansiedade e comportamento impulsivo. Há, também, estudos que indicam que meninas podem apresentar maiores dificuldades no controle de impulsos em momentos de crise, bem como maior reatividade ao estresse, com maior sensibilidade a emoções negativas.
