Cientistas descobriram que um exame de imagem pode reduzir pela metade o número de pacientes que precisam fazer biópsia para avaliar a suspeita de câncer de próstata. A pesquisa, liderada por uma equipe multicêntrica da Austrália, apresentou os resultados da terceira fase do estudo PRIMARY2 no Congresso da Associação Europeia de Urologia (EAU), em Londres, segundo os cientistas, a técnica pode ser aplicada de forma segura após resultados inconclusivos de uma ressonância magnética.
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O exame PET/CT (tomografia por emissão de Pósitrons/tomografia computadorizada) com PSMA identifica células agressivas presentes na próstata, que são potencialmente prejudiciais e podem precisar de tratamento. Isso é possível graças a uma molécula que se liga a essas estruturas e as faz brilhar, aparecendo como pontos luminosos na imagem. O estudo afirma que isso também pode ajudar a reduzir o risco de sobrediagnóstico.
De acordo com os cientistas, pacientes com suspeita de câncer de próstata geralmente fazem uma ressonância magnética para procurar áreas anormais na próstata. Se os resultados do teste forem suspeitos ou inconclusivos, uma biópsia é indicada; é feita então uma coleta de pequenas amostras de tecido para análise, buscando células cancerígenas. Apesar de ser um procedimento corriqueiro, é invasivo e pode ser desconfortável e preocupante, além de estar associado a efeitos colaterais.
Risco
Para o estudo, os pesquisadores recrutaram pessoas com maior risco de câncer de próstata, como quem tinha um forte histórico familiar, mas que apresentaram resultados normais na ressonância magnética. Esses pacientes são geralmente submetidos à biópsia da próstata. Eles foram aleatoriamente designados para realizar uma biópsia padrão ou um exame PET/CT com PSMA.
O ensaio descobriu que a tomografia por emissão de pósitrons (PET/CT) com PSMA podia identificar pessoas que não tinham câncer ou cujo tumor era de tão baixo risco e com crescimento tão lento que provavelmente nunca causaria danos. Esses pacientes não precisaram de biópsia. A nova abordagem reduziu pela metade o número de pessoas submetidas ao exame invasivo, sem deixar de detectar nenhum câncer maligno.
A abordagem também beneficiou os pacientes que ainda precisavam de biópsia. Os resultados da tomografia garantiram que o procedimento fosse direcionado às áreas suspeitas identificadas no exame de imagem, a fim de minimizar complicações e aumentar a precisão.
Derya Tilki, membro do Conselho Científico do Congresso da EAU e urologista consultora sênior no Centro de Câncer de Próstata Martini-Klinik, na Alemanha, afirma que "é importante ressaltar que isso (a abordagem) não comprometeu a detecção de doença clinicamente significativa. Esses resultados apoiam a consideração do PET/CT com PSMA na investigação diagnóstica de pacientes adequadamente selecionados. Parabenizo os pesquisadores pelo estudo".
Avanço importantíssimo
Segundo Marcelo Uchôa, coordenador da oncologia do Hospital Anchieta Ceilândia, o PET/CT com PSMA é uma das tecnologias mais importantes que surgiram recentemente no diagnóstico do câncer de próstata. "Ele já tem um papel bem estabelecido para detectar recidiva da doença e para estadiamento em casos mais avançados. Agora, pesquisas avaliam o uso em fases mais precoces do diagnóstico. O mais importante é que esses avanços ajudam a tornar o tratamento cada vez mais personalizado, oferecendo a cada paciente uma abordagem mais adequada."
Para Carlos Watanabe médico uro-oncologista e especialista em cirurgia robótica e câncer de próstata do Hospital Santa Lúcia Sul, em Brasília, o estuda traz bons resultados. "Nos contentes com a possibilidade de conseguir fazer diagnósticos com mais precisão, evitar biópsias desnecessárias em nossos pacientes em casos duvidosos e com alto risco de câncer de próstata. Acho que essa ferramenta pode ser integrada à prática clínica. Só precisamos selecionar bem as pessoas. A biópsia continua sendo necessária, trata-se de um estudo muito específico, mas que traz luz para mais uma possibilidade, mais uma ferramenta que podemos utilizar na nossa prática."
Segundo os pesquisadores, o PRIMARY2 continuará acompanhando os 660 pacientes por mais dois anos. O ensaio clínico de fase 3 foi conduzido em toda a Austrália, liderado pelo Peter MacCallum Cancer Center em Melbourne e pelo St Vincent's Hospital em Sydney. A equipe frisa que a PET/CT com PSMA está se tornando cada vez mais utilizada, principalmente para o diagnóstico de câncer de próstata de alto risco ou recorrente, embora o custo e a disponibilidade ainda limitem seu uso generalizado.
Conforme o oncologista e membro da Sociedade Brasileira de Oncologia Clínica (SBOC) Márcio Almeida, a medicina nuclear tem avançado rapidamente no desenvolvimento de moléculas que se ligam a alvos específicos de diferentes tumores. "Esse conceito, conhecido como imagem molecular ou teranóstico, já está sendo explorado em doenças como tumores neuroendócrinos e alguns tipos de câncer de mama e pulmão. Portanto, é provável que exames semelhantes ao PET com PSMA sejam cada vez mais utilizados para diagnóstico e até para guiar tratamentos personalizados em outros cânceres."
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