
A ideia de que algumas plantas “atraem” escorpiões é comum em muitas casas brasileiras. Em listas na internet e conversas populares, espécies como bromélias, samambaias e heras costumam aparecer como vilãs do jardim. Mas a relação não é tão simples quanto parece.
Segundo o biólogo e doutor em Botânica Marcelo Kuhlmann, escorpiões não têm uma ligação direta com determinadas plantas. Esses animais são predadores e não se alimentam de vegetais.
“O escorpião não está interessado na planta em si. Ele pode usar a planta como abrigo ou como local de caça, principalmente porque muitas plantas atraem insetos, que são o alimento dele”, explica.
Na prática, o que ocorre é que certas estruturas vegetais criam condições ideais para que o animal se esconda durante o dia.
Ambientes úmidos e escuros são ideais
Escorpiões costumam procurar locais protegidos da luz, com umidade e presença de presas. Algumas plantas acabam favorecendo exatamente esse tipo de ambiente.
Espécies com folhagem densa e próxima do solo, como samambaias e heras, podem criar microclimas mais úmidos e sombreados, condições que funcionam como esconderijo natural para esses aracnídeos.
O mesmo acontece com plantas que acumulam água ou detritos entre as folhas. As bromélias, por exemplo, possuem uma estrutura em forma de roseta que pode armazenar água e pequenos resíduos orgânicos. Esse ambiente favorece a presença de insetos como mosquitos e baratas, que acabam atraindo escorpiões em busca de alimento.
Segundo especialistas, alguns escorpiões já foram observados utilizando bromélias tanto como abrigo quanto como área de caça.
Palmeiras e folhas acumuladas
Outro caso comum ocorre com palmeiras ornamentais. A base das folhas secas, que muitas vezes permanece presa ao tronco, pode formar frestas e cavidades que funcionam como esconderijos.
Além disso, frutos caídos ou matéria orgânica acumulada no solo podem atrair insetos. Como os escorpiões se alimentam principalmente de baratas, grilos e outros pequenos invertebrados, a presença dessas presas torna o ambiente ainda mais favorável.
O mesmo vale para áreas com grama muito alta ou grande quantidade de folhas secas no chão. Esse tipo de vegetação cria proteção contra predadores e abriga insetos que fazem parte da dieta do escorpião.
O mito das plantas que afastam escorpiões
Se algumas plantas podem facilitar abrigo, a ideia de que outras funcionariam como repelentes naturais também é bastante popularizada.
Espécies aromáticas como alecrim, lavanda, arruda e capim-limão costumam ser citadas como barreiras contra escorpiões. No entanto, a ciência ainda não comprovou que qualquer planta seja capaz de afastar esses animais diretamente.
O biólogo Marcelo aponta que o cheiro dessas plantas pode reduzir a presença de alguns insetos, o que diminui a oferta de alimento para escorpiões. Mesmo assim, não existe evidência científica de que elas funcionem como repelentes diretos.
O que realmente faz diferença no quintal
A presença de escorpiões está muito mais relacionada ao ambiente do que ao tipo de planta cultivada, afirma o biólogo.
Locais com entulho, acúmulo de folhas secas, excesso de umidade ou grande quantidade de insetos se tornam naturalmente mais atrativos para esses animais.
Por isso, as principais medidas de prevenção envolvem cuidados simples no quintal. Manter o espaço limpo, podar plantas muito densas, retirar folhas acumuladas e evitar que vasos ou vegetação encostem em muros e paredes ajudam a reduzir esconderijos.
Outro ponto importante é controlar insetos, especialmente baratas, que são uma das principais fontes de alimento dos escorpiões.
Em outras palavras, o risco não está necessariamente no jardim, mas nas condições que ele pode criar.
*Estagiária sob supervisão de Aline Gouveia

Ciência e Saúde
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