Melhorar alguns hábitos, mesmo que em micropassos, tem grande impacto na saúde. É o que aponta uma nova pesquisa publicada ontem na revista European Journal of Preventive Cardiology. Segundo o estudo, conduzido por especialistas de Brasil, Austrália e Chile, dormir poucos minutos a mais, acrescentar 50 gramas de vegetais em uma refeição e adicionar alguns minutos no tempo de atividade física, em conjunto, reduzem significativamente as chances de eventos cardiovasculares graves, como derrame, infarto e insuficiência cardíaca.
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Para a pesquisa, os cientistas utilizaram dados de um subestudo do UK Biobank, um grande banco de dados do Reino Unido. O estudo incluiu 502.629 adultos de 40 a 69 anos recrutados entre 2006 e 2010. A quantidade de sono e atividade física foi estimada por meio de dispositivos vestíveis. A dieta foi avaliada utilizando um questionário que permitiu aos pesquisadores calcular um índice de qualidade das refeições. Uma alimentação melhor incluía maior ingestão de vegetais, frutas, peixes, laticínios, grãos integrais e óleos vegetais, e menor consumo de grãos refinados, carnes processadas, carne vermelha não processada e bebidas açucaradas.
Os resultados foram claros: dormir 11 minutos a mais, fazer 4,5 minutos adicionais de atividade física moderada a intensa e adicionar um quarto de xícara de vegetais foram associados a uma redução de 10% no risco de problemas cardiovasculares graves. O exercício físico pode incluir tarefas cotidianas como subir escadas, carregar sacolas de compras ou apenas caminhar em ritmo acelerado.
A pesquisa descobriu ainda que a combinação ideal de comportamentos envolve dormir entre oito e nove horas por noite, realizar mais de 42 minutos de atividade física intensa ou média por dia e ter uma dieta de qualidade moderada. A junção dessas estratégias foi associada a um risco 57% menor de eventos cardiovasculares graves em comparação a pessoas com outros hábitos.
Impacto surpreendente
"Mostramos que combinar pequenas mudanças em algumas áreas de nossas vidas pode ter um impacto positivo surpreendentemente grande em nossa saúde cardiovascular. Esta é uma notícia muito encorajadora, porque fazer algumas pequenas mudanças combinadas é provavelmente mais viável e sustentável para a maioria das pessoas do que tentar grandes mudanças em um único comportamento", destaca Nicholas Koemel, autor principal e pesquisador da Universidade de Sydney, na Austrália, em comunicado.
Ele frisa que pequenas alterações nos hábitos trazem benefícios cardiovasculares e abrem caminho para adoção de hábitos ainda melhores no futuro. "Eu encorajaria as pessoas a não ignorarem a importância de fazer uma ou duas pequenas mudanças em sua rotina diária, por menores que pareçam." Segundo o pesquisador, esse estudo é o primeiro a investigar as combinações mínimas e ideais de sono, atividade física e nutrição necessárias para melhorias significativas no risco de problemas cardiovasculares.
Cardiologista e responsável técnico da Coreclin, em São Paulo, Marcelo Bergamo reforça a ideia das pequenas modificações. "Sabemos que o risco cardiovascular é cumulativo, então pequenas melhorias consistentes no dia a dia podem gerar grandes benefícios ao longo do tempo. Dormir melhor, manter uma rotina mínima de atividade física e se atentar a qualidade da alimentação ajudam a controlar fatores como pressão arterial, glicemia e colesterol. Isso reduz de forma concreta o risco de infarto e AVC, sobretudo quando essas mudanças são mantidas a longo prazo."
"Muitas pessoas acreditam que só grandes mudanças trazem resultados, mas isso não é verdade. Na prevenção cardiovascular, o simples feito de forma contínua costuma ser mais eficaz do que grandes esforços por pouco tempo. Pequenos ajustes na rotina, quando mantidos, podem reduzir significativamente o risco e melhorar a qualidade de vida como um todo", completou o especialista.
"Planejamos usar essas descobertas como base para desenvolver novas ferramentas digitais que auxiliem as pessoas a fazer mudanças positivas em seus estilos de vida e a estabelecer hábitos saudáveis sustentáveis. Isso envolverá trabalhar em estreita colaboração com membros da comunidade para garantir que as ferramentas sejam fáceis de usar e possam abordar as barreiras que todos enfrentamos ao fazer ajustes em nossas rotinas diárias", destacou Emmanuel Stamatakis, autor sênior do estudo e professor de atividade física e saúde populacional na Universidade de Sydney e na Universidade Monash.
Os autores observam que, por se tratar de um estudo observacional, a pesquisa não pode estabelecer uma relação causal definitiva entre os comportamentos observados e o risco cardiovascular. Eles sugerem que ensaios sejam realizados para confirmar as descobertas.
