Brincar é essencial para o desenvolvimento infantil, mas o desejo dos adultos de estimular esse crescimento pode mais atrapalhar do que ajudar. Mesmo as ações mais bem intencionadas de pais, responsáveis ou educadores caem nesse risco, porque os mais velhos têm um conceito diferente do das crianças sobre o que pode ser divertido. A conclusão é de uma pesquisa liderada pela Universidade de Aarhus, na Dinamarca, e publicada, ontem, na revista Frontiers in Psychology. Para entender o que de fato os pequenos gostam, os cientistas entrevistaram crianças em idade escolar e descobriram que a melhor alternativa é deixá-los decidir e se organizar com o mínimo de interferência, qual atividade querem fazer.
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"Talvez tenhamos dado os primeiros passos para descrever a magia e o caráter intangível que chamamos de brincadeira de uma maneira completamente nova", afirma Andreas Lieberoth, da Universidade de Aarhus, autor principal do artigo. "Isso pode ajudar educadores e cuidadores a cultivar diferentes tipos de brincadeira, mesmo que elas não sejam 'corretas', 'educativas' ou até mesmo 'agradáveis' de acordo com os padrões adultos."
Para a pesquisa, os cientistas entrevistaram inicialmente 104 crianças sobre brincadeiras. Em seguida, identificaram elementos recorrentes que descreviam o que tornava a brincadeira boa ou ruim, e desenvolveram uma lista de 83 afirmações. Depois, pediram a outras 504 crianças que se lembrassem de uma experiência de brincadeira boa ou ruim e a avaliassem, dizendo se concordavam ou discordavam das diferentes afirmações.
A equipe identificou sete elementos importantes na brincadeira: inclusão social, imaginação, transgressão, acessibilidade, brincadeira livre e estimulante, ter algo para fazer e algo que os cientistas denominaram "sensação de brincar". O último fator foi o maior responsável pela classificação da brincadeira ser boa ou ruim.
Diversão e jogos
Segundo os autores, boas experiências de brincadeira nem sempre eram aquelas que os adultos responsáveis pela supervisão consideram agradáveis. "Em muitos casos, uma boa brincadeira não envolve transgressões. No entanto, em algumas ocasiões, o que realmente torna a brincadeira divertida e especial é a possibilidade de se soltar, provocar uns aos outros e, de modo geral, desafiar as normas da sociedade — ou do parquinho", destaca Lieberoth.
Os cientistas também descobriram que a desarmonia prejudica a brincadeira. Perder o alinhamento social com outras crianças transformava uma boa brincadeira em uma uma situação ruim.
"Alguns dos fatores que descobrimos revelaram a kriptonita antibrincadeira que muitos de nós reconhecemos desde a infância ou em exercícios de trabalho em equipe dolorosamente constrangedores", disse Lieberoth. "A falta de alinhamento está no topo da minha lista pessoal. Já vi muitos adultos bem-intencionados tentando inserir uma criança desajeitada na brincadeira de outra pessoa, basicamente arruinando o alinhamento mútuo. Às vezes, um adulto é necessário para dar suporte, iniciar, inspirar e apoiar, mas em outros casos ele deveria se calar e ir embora."
Conforme a psicóloga Regina Vera Dias Sautchuk, a presença dos adultos é positiva quando oferece segurança, encorajamento e suporte pontual. "No entanto, atrapalham quando tentam assumir o controle da brincadeira, interferir na dinâmica natural ou impor sua própria lógica sobre a atividade. Isso acontece, por exemplo, quando o adulto tenta organizar excessivamente o jogo, corrige o tempo todo ou direciona o que seria a 'forma certa' de brincar. Nesses casos, a espontaneidade é interrompida e a criança deixa de explorar livremente. A criatividade infantil depende justamente da liberdade para experimentar, errar e reinventar regras."
Os pesquisadores salientam que cada criança tem gostos diferentes. Uma brincadeira que agrada a uma pode não deixar outra feliz, especialmente em culturas diferentes. Oferecer mais oportunidades em que elas possam escolher experimentar jogos ou atividades diferentes, pode maximizar a inclusão.
Conforme Adelir Marinho, doutora em educação, pesquisadora da infância e psicopedagoga, as crianças são capazes de construir formas próprias de organização, regras e significados. "Quando não estão expostas a ambientes muito controladores e menos dirigidos, essas habilidades aparecem, ampliando sua capacidade de resolver problemas cotidianos, tomar decisões simples e expressar seus desejos e opiniões. Isso é observado na prática do brincar, quando ela inicia brincadeiras espontaneamente, cria regras e adapta combinados, sustenta a atividade por mais tempo, negocia com outras crianças, ainda que com conflitos, demonstra envolvimento, curiosidade e imaginação e tolera frustrações sem desistir imediatamente."
"A última coisa que queremos é que as pessoas usem este trabalho para criar regras de 'brincadeira correta'", disse Lieberoth. "Isso não existe. Estou convencido de que o mesmo protocolo produziria histórias diferentes, memórias diferentes e concordâncias diferentes em um tempo e lugar diferentes."
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