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Naturalista autodidata identificou 18 espécies amazônicas

Curiosidade incansável, rigor científico e amor genuíno pela natureza marcam a vida de João Batista Fernandes, 82 anos, biografado em Onde andei valeu a pena

João Batista criou um banco de germoplasma com 217 espécies vegetais -  (crédito:  Divulgação MRN)
João Batista criou um banco de germoplasma com 217 espécies vegetais - (crédito: Divulgação MRN)

A Amazônia é o maior bioma tropical do mundo e, além de uma vasta flora e fauna, abriga conhecimento de todas as formas. Para o naturalista autodidata João Batista Fernandes, 82 anos, a mata é um local de aprendizado constante. Ao longo de mais de quatro décadas de pesquisa de campo, ele identificou 18 novas plantas, contribuiu para a classificação de ao menos 100 espécies locais e se consolidou como um dos principais especialistas em epífitas — plantas que crescem sobre outras sem retirar nutrientes — do país.

Sem formação acadêmica formal na área, João Batista construiu seu conhecimento a partir da observação direta da floresta. A trajetória é retratada no livro Onde andei valeu a pena, organizado pelo engenheiro florestal e professor Laércio da Silva Soares Barbeiro, do Instituto Federal do Paraná. A obra, lançada na semana passada em Brasília, reúne relatos de expedições e de contribuições para a ciência e para o Programa de Resgate, Salvamento, Multiplicação e Reintrodução da Flora, conduzido pela Mineração Rio do Norte (MRN).

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O despertar para a pesquisa ocorreu na década de 1970, quando João Batista iniciou as primeiras coletas, com orientação de cientistas do Museu Paraense Emílio Goeldi. A experiência começou durante uma viagem a Conceição do Araguaia, no Pará, ao encontrar uma orquídea chamada Cattleya nobilior. “Coletei a planta e vasculhei nos livros até identificar que era uma orquídea típica do Cerrado, com perfume marcante. A partir dali, a carreira burocrática no museu passou a não fazer mais sentido”, relembra.

O episódio marcou a transição na carreira. Anos depois, em reconhecimento à influência que o botânico Paulo Cavalcante, do museu, teve em sua carreira, o autodidata homenageou o pesquisador ao nomear uma das espécies que ajudou a descobrir: Coryanthes cavalcantei. Desde então, o naturalista percorreu longas trilhas em meio a região amazônica, incluindo áreas de difícil acesso, como a Serra do Surucucu, em Roraima, onde realizou 200 coletas em uma única expedição. Parte deste material deu origem a registros inéditos para a flora brasileira.

O trabalho rendeu ao pesquisador uma entrevista na publicação científica da Coordenação das Associações Orquidófilas do Brasil, entidade dedicada ao estudo do cultivo e preservação de orquídeas no país. “João sempre trouxe perspectivas valiosas, fruto de sua vasta experiência de campo e de seu olhar aguçado de naturalista. Ele representa o melhor da tradição dos naturalistas: curiosidade incansável, rigor científico e o amor genuíno pela natureza”, afirma Ima Célia Guimarães Vieira, ecóloga pesquisadora do Museu Emílio Goeldi, que também foi homenageada com uma das suas descobertas — a Sobralia imavieirae.

Como reconhecimento da contribuição para a ciência, Batista foi homenageado por outros naturalistas, que fizeram referência ao seu nome em nomenclaturas científicas de 11 novas plantas, a maioria orquídeas e bromélias. “As publicações Orquídeas Nativas da Amazônia Brasileira (1998) e Orquídeas Nativas da Amazônia Brasileira II (2004) foram a base do Orquidário do Parque Senador Jefferson Péres, em Manaus. João Batista é o melhor especialista em Orquidaceae e epífitas do país”, elogia o pesquisador do Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (Inpa), Luiz de Souza Coelho.

Biodiversidade

O autodidata também integrou a equipe responsável pela coleta de epífitas na região do Xingu, posteriormente introduzidas no Jardim Botânico de Brasília, contribuindo para o conhecimento e a gestão da biodiversidade também no Cerrado. O conhecimento acumulado em campo também foi incorporado a projetos de recuperação ambiental. Desde 2008, João Batista lidera o Programa de Resgate, Salvamento e Multiplicação da Flora da Mineração Rio do Norte (MRN), realizado há 25 anos.

A partir dessa atuação, ele ampliou o trabalho com estudos fenológicos, que analisam os ciclos de vida das plantas e interações com o ambiente. “Passei a acompanhar o desenvolvimento completo das espécies, da germinação à floração, e suas relações com polinizadores”, destaca o pesquisador.  Além disso, foi responsável pela criação de um banco de germoplasma com 217 espécies vegetais, um acervo vivo que sustenta ações de pesquisa, conservação e restauração ecológica.

Você pode baixar o livro clicando aqui.

 

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postado em 08/04/2026 15:57
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