
Um novo estudo, publicado ontem na revista científica Proceedings B, revela que a comunicação vocal das baleias-cachalote apresenta semelhanças surpreendentes com a linguagem de pessoas, apesar da grande distância evolutiva entre as espécies. Os resultados indicam que esses mamíferos marinhos não apenas utilizam um sistema estruturado de sons, como também demonstram padrões comparáveis à fonética e à fonologia humanas.
- O chá poderoso que controla a glicemia e fortalece o fígado
- Dia Mundial Quântico: entenda data lembrada em Doodle do Google
A pesquisa mostra que as baleias-cachalote se comunicam por meio de sequências de cliques curtos, conhecidas como "codas". A análise desses sons revelou a existência de um tipo de "alfabeto" e até mesmo de variações análogas às vogais usadas pelos humanos. Elas podem ser produzidas por alterações na duração dos cliques ou por variações de frequência, como tons ascendentes e descendentes, mecanismos semelhantes aos encontrados em idiomas como mandarim, latim e esloveno.
Segundo o estudo, há paralelos estreitos com a fonética e a fonologia das línguas humanas, sugerindo uma evolução independente. As descobertas fazem parte das pesquisas conduzidas pelo Projeto Ceti (Iniciativa de Tradução de Cetáceos), que investiga grupos de baleias-cachalote na costa da Dominica. A iniciativa busca compreender o que esses animais estão comunicando entre si.
Vidas ricas
Até meados do século 20, não havia confirmação de que baleias-cachalote utilizavam vocalizações estruturadas. Hoje, com o auxílio de tecnologias, cientistas conseguem identificar padrões complexos nesses sons. Para o fundador do projeto, David Gruber, a descoberta traz uma reflexão importante. "Acho que é mais um momento de humildade perceber que não somos a única espécie com vidas ricas, comunicativas, comunitárias e culturais."
Gruber também destacou a profundidade histórica desse sistema de comunicação. "Essas baleias podem estar transmitindo informações de geração em geração há mais de 20 milhões de anos. Os humanos só agora têm as ferramentas certas e o desejo de analisar essas vozes para perceber a complexidade que sempre esteve presente."
O estudo desses animais, no entanto, apresenta desafios logísticos. As baleias-cachalote passam até 50 minutos submersas em busca de alimento, emergindo por curtos períodos. É nesses momentos, próximos à superfície, que ocorrem suas interações sociais mais intensas.
Para os pesquisadores, os sons emitidos podem não parecer nada complexos, a princípio. No entanto, ao eliminar pausas entre os cliques, surgem padrões comparáveis à fala humana. Assim como pessoas modulam as pregas vocais para formar diferentes sons, as baleias manipulam suas vocalizações para transmitir significados distintos.
O linguista Gaper Begu, responsável pelo estudo, frisa que o nível de complexidade observado supera o de outras espécies já analisadas. "Elas têm vidas muito diferentes das nossas, mas há muitos pontos em comum. Têm estruturas sociais complexas, cuidam umas das outras e compartilham comportamentos culturais."
Para os pesquisadores, a expectativa é de que, no futuro, seja possível decifrar completamente esses sinais. Com isso, eles acreditam que será possível estabelecer algum tipo de comunicação entre humanos e esses animais.

Revista do Correio
Flipar
Economia