SAÚDE MENTAL

Um pedido de socorro silencioso entre os jovens

Estudo indica aumento de autolesão entre jovens nos últimos 24 anos. Segundo especialistas, o fenômeno é multifatorial, mas pode ser intensificado pelas redes sociais, com exposição a comparação e bullying, além de normalização da prática

Um comportamento silencioso, muitas vezes invisível aos olhos da família e da escola, tem avançado de forma consistente entre crianças e adolescentes. Segundo um estudo de revisão internacional publicado na revista Jama Pediatrics, a autolesão — ato intencional de causar dano ao próprio corpo, com ou sem intenção suicida — está aumentando há pelo menos duas décadas.  

O estudo, liderado pela Universidade de Toronto, no Canadá, uniu dados de mais de 234 milhões de jovens em 12 países, e revela um aumento médio anual de 3,5% nos atendimentos de saúde relacionados à autolesão entre 2000 e 2024. Quando analisados relatos feitos pelos próprios jovens, o crescimento também aparece, ainda que um pouco menor: 2,5% ao ano. 

Embora os dados se refiram a nações de alta renda, o fenômeno parece global. No Brasil, um levantamento da Fundação Oswaldo Cruz Bahia (Fiocruz Bahia) revelou que, entre 2011 e 2022, a taxa de automutilação cresceu 29% entre pessoas de 10 a 24 anos. O resultado foi publicado em 2024 na revista The Lancet Regional Health Americas

Enfrentamento

Embora frequentemente confundida com tentativa de suicídio, a autolesão tem características próprias. Ela é, na maioria das vezes, um mecanismo de enfrentamento emocional — uma forma de aliviar sofrimento psíquico intenso. "Observamos um aumento geral do sofrimento psíquico entre crianças e adolescentes, com mais dificuldades em lidar com emoções intensas, com frustrações e inseguranças", relata o psicólogo Miguel Bunge, autor do livro Criação Consciente e sócio-fundador da plataforma Comportalmente. "A automutilação, muitas vezes, surge como estratégia de regulação emocional, uma forma de aliviar temporariamente uma dor interna que o jovem não consegue nomear ou comunicar."

Segundo o estudo publicado na Jama Pediatrics, esse tipo de comportamento é de cinco a 10 vezes mais comum do que as tentativas de suicídio e pode estar associado a uma ampla gama de transtornos mentais, como ansiedade, depressão e abuso de substâncias. Lais Buytendorp, médica pós-graduada em psiquiatria do Hospital Mantevida, em Brasília, lembra que a autolesão é multifatorial e reflete uma combinação de mudanças epidemiológicas, sociais e assistenciais. 

"Observa-se, nas últimas décadas, maior prevalência de transtornos como depressão e ansiedade na adolescência, associada a fatores como instabilidade social, exposição precoce a estressores e impactos recentes da pandemia", diz Buytendorp. "Além disso, contextos familiares adversos, como violência e fragilidade de vínculos, contribuem significativamente."

Sem palavras

Autora do livro Suicídio na Adolescência — Uma abordagem psicanalítica (Juruá Editora), a psicanalista Carolina Nassau Ribeiro destaca a forte relação entre práticas de automutilação, como o cutting (hábito de se cortar) e a dificuldade de explicar a dor psíquica do adolescente. "Há uma dificuldade crescente de colocar o sofrimento em palavras. Os jovens chegam ao consultório dizendo não saber o que sentem. Não é timidez: é uma dificuldade real de narrar a própria dor, documentada também em pesquisas com adolescentes atendidos em serviços públicos", diz. 

A psicanalista faz um alerta: "Há o que podemos chamar de socialização sintomática. O cutting, por exemplo, não é apenas um ato individual: ele circula em grupos, é ensinado entre pares, há uma transmissão sobre como se cortar, como esconder as marcas dos adultos". Para Carolina Nassau Ribeiro, a prática, em alguns casos, tornou-se "uma forma precária e arriscada de conexão entre os jovens". 

Nesse contexto, as redes sociais podem contribuir com o aumento dos casos de autolesão. "O estudo aponta que as redes podem intensificar a comparação social e a exposição a padrões irreais de aparência e sucesso, o que aumenta sentimentos de inadequação e fracasso", destaca Miguel Bunge. 

Vulnerabilidade 

A psicanalista Carolina Nassau Ribeiro reforça o impacto potencialmente negativo dessas plataformas. "As redes sociais não são a única causa do adoecimento, mas potencializam vulnerabilidades que existiam e introduzem novas." Segundo a especialista, os adolescentes chegam ao consultório cada vez mais solitários. "Não pela ausência de conexão, mas pela superficialidade das conexões disponíveis."

Embora meninas e meninos estejam sujeitos à autolesão, o estudo da canadense mostra que o fenômeno não ocorre de maneira homogênea, com aumento significativamente maior nas taxas de autolesão no sexo feminino (3,6%, contra 1,2%). A diferença não é apenas numérica, qualitativa. Segundo os autores, meninas tendem a ser mais vulneráveis a fatores como ansiedade, depressão e pressões sociais — elementos frequentemente associados ao comportamento autolesivo.

A pesquisa da Universidade de Toronto também reforça que o impacto da automutilação interfere na expectativa de vida significativamente. O estudo mostra que, nos 12 países investigados, jovens que autoinfligem lesões vivem entre 11 e 18 anos menos, comparado a pessoas da mesma idade, sem esse hábito. Cerca de 20% dos óbitos no grupo estão associados a suicídio ou causas indeterminadas. 

Os autores enfatizam a urgência de estratégias amplas e coordenadas de enfrentamento, no âmbito das políticas públicas. Entre outras medidas, eles sugerem o fortalecimento do debate sobre saúde mental nas escolas, a ampliação do acesso a atendimento psicológico; programas de prevenção e intervenção precoce, combate ao estigma e monitoramento contínuo dos dados.

PALAVRA DE ESPECIALISTA

Vitrine de comparação assimétrica

Adolescentes estão em fase muito sensível do desenvolvimento cerebral. A construção da percepção do mundo está ligada a tudo que o adolescente vê, ouve, tem de experiência no seu mundo real. A mente entra em contato com a realidade e aprende sobre como sentir, pensar, reagir e responder às demandas da vida.

O uso das redes sociais permite que o adolescente veja, perceba e aprenda novas formas de reagir a suas angústias e se comportar para além daquilo que aprende no eixo familiar. O comportamento do outro visto e percebido nas redes sociais também ensina sobre como sentir e nomear emoções pela simples projeção que o adolescente faz quando identifica semelhanças.

Quando o adolescente consome conteúdos onde ele identifica situações semelhantes com as suas dores e angústias, e vê como resposta a automutilação, e até outros comportamentos como isolamento, silêncio, ideação suicida, o cérebro aprende, ainda que de forma inconsciente, que essa é uma resposta adequada ao meio diante da dor. Isso é muito invisível, mas acontece o tempo todo e contribui de forma poderosa para construção emocional no psiquismo dos adolescentes.

Arquivo pessoal - Cassiana Tardivo, psicóloga

As redes sociais criaram um ambiente psicologicamente hostil para adolescentes e vale entender como esses mecanismos funcionam clinicamente. Sabemos que os humanos tendem a se avaliar em relação aos outros. As redes transformaram isso em uma vitrine permanente de comparação assimétrica — o jovem compara sua vida inteira com os melhores momentos editados da vida alheia.

Para um adolescente ainda construindo identidade e a regulação emocional, essa comparação crônica alimenta vergonha, inadequação e desesperança. A autolesão, clinicamente, funciona muitas vezes como tentativa de regular emoções insuportáveis que a pessoa não consegue nomear nem expressar de outra forma.

E o cyberbullying tem uma característica que o torna mais destrutivo que o bullying presencial: ele não tem fim. O adolescente chega em casa e o bullying continua no celular, à meia noite, no quarto que deveria ser espaço seguro, está lá a ofensa e s vergonha exposta. A humilhação pública e os comentários cruéis somados a uma audiência cada vez mais “sanguinária” produzem uma dor emocional que o jovem frequentemente não sabe processar. A autolesão entra como tentativa de transformar dor emocional em dor física — porque a dor física, paradoxalmente, parece mais controlável e passível de alívio.

O cérebro adolescente é neurologicamente orientado para aprovação social — o córtex pré-frontal está em desenvolvimento, e o sistema de recompensa responde intensamente à validação dos pares. Curtidas e comentários ativam dopamina, criando dependência de validação externa para regular o senso de valor próprio. Quando a validação não vem ou vem rejeição, o colapso emocional pode ser severo. O que vemos no consultório é que a autolesão, para alguns, funciona como regulador emocional imediato diante do desamparo gerado por essa rejeição digital.

Cassiana Tardivo, psicóloga, pedagoga, especialista em neuroaprendizagem e dependência tecnológica e autora do livro: Resgate seu filho das telas (Editora Vida) 

TRÊS PERGUNTAS PARA:

ELTON KANOMATA, psiquiatra do Hospital Israelita Albert Einstein 

O que pode ajudar a explicar esse crescimento consistente da automutilação?

Diversos fatores são apontados como responsáveis para o crescimento de casos de automutilação entre jovens. Sob o aspecto da saúde mental e psicológica, podemos elencar o aumento da prevalência de transtornos mentais como depressão e ansiedade; fase de desenvolvimento de habilidades socioemocionais, regulação emocional e tolerância ao estresse e frustração. Do ponto de vista socioambiental, há fatores de risco como culturais e religiosos; eventos traumáticos e estressores, violência, pobreza e desigualdade social; poluição, degradação ambiental e crise climática, que impactam o bem-estar psicológico; a velocidade e quantidade de informações absorvidas, o uso excessivo de telas e mídias sociais, a adultização precoce e o bullying. Do ponto de vista biológico, temos as alterações hormonais e desenvolvimento cerebral e do corpo, que influenciam na formação de identidade pessoal e individualidade.

Quais são os riscos de progressão para suicídio?

A automutilação abrange um amplo espectro de comportamentos em que um indivíduo se prejudica intencionalmente, com ou sem intenção suicida. Quando não há a intenção de morrer, geralmente serve como um mecanismo de enfrentamento para regular emoções negativas e obter alívio emocional. Porém, a distinção entre automutilação não suicida e comportamento suicida é complexa, pois esses fenômenos frequentemente podem se sobrepor, principalmente em situações de crises de ansiedade e estresse.

Os dados indicam um aumento mais acentuado entre as meninas. Existem fatores biológicos ou neuropsiquiátricos que ajudem a explicar essa diferença de gênero?

Sim, fatores hormonais e mudanças do corpo, e a forma como interagem nos sistemas de neurotransmissores podem levar ao aumento na vulnerabilidade para depressão, ansiedade e comportamento impulsivo. Há, também, estudos que indicam que meninas podem apresentar maiores dificuldades no controle de impulsos em momentos de crise, bem como maior reatividade ao estresse, com maior sensibilidade a emoções negativas.

SINAIS DE ALERTA

O psicólogo Miguel Bunge, especialista em terapia cognitivo-comportamental e saúde mental pelo Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo, elenca sinais de alerta que merecem atenção, especialmente quando combinados: 

* Isolamento social repentino ou afastamento de amigos e atividades antes prazerosas;

* Mudanças bruscas de humor, irritabilidade ou apatia;

* Uso constante de roupas compridas mesmo em dias quentes (para esconder lesões);

* Queda no rendimento escolar ou desinteresse generalizado;

* Comentários frequentes sobre dor emocional, vazio ou sensação de não pertencimento;

* Presença de ferimentos recorrentes ou inexplicados no corpo. 

 

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Vitrine de comparação assimétrica

Adolescentes estão em fase muito sensível do desenvolvimento cerebral. A construção da percepção do mundo está ligada a tudo que o adolescente vê, ouve, tem de experiência no seu mundo real. A mente entra em contato com a realidade e aprende sobre como sentir, pensar, reagir e responder às demandas da vida.

O uso das redes sociais permite que o adolescente veja, perceba e aprenda novas formas de reagir a suas angústias e se comportar para além daquilo que aprende no eixo familiar. O comportamento do outro visto e percebido nas redes sociais também ensina sobre como sentir e nomear emoções pela simples projeção que o adolescente faz quando identifica semelhanças.

Quando o adolescente consome conteúdos onde ele identifica situações semelhantes com as suas dores e angústias, e vê como resposta a automutilação, e até outros comportamentos como isolamento, silêncio, ideação suicida, o cérebro aprende, ainda que de forma inconsciente, que essa é uma resposta adequada ao meio diante da dor. Isso é muito invisível, mas acontece o tempo todo e contribui de forma poderosa para construção emocional no psiquismo dos adolescentes.

As redes sociais criaram um ambiente psicologicamente hostil para adolescentes e vale entender como esses mecanismos funcionam clinicamente. Sabemos que os humanos tendem a se avaliar em relação aos outros. As redes transformaram isso em uma vitrine permanente de comparação assimétrica — o jovem compara sua vida inteira com os melhores momentos editados da vida alheia.

Para um adolescente ainda construindo identidade e a regulação emocional, essa comparação crônica alimenta vergonha, inadequação e desesperança. A autolesão, clinicamente, funciona muitas vezes como tentativa de regular emoções insuportáveis que a pessoa não consegue nomear nem expressar de outra forma.

E o cyberbullying tem uma característica que o torna mais destrutivo que o bullying presencial: ele não tem fim. O adolescente chega em casa e o bullying continua no celular, à meia noite, no quarto que deveria ser espaço seguro, está lá a ofensa e s vergonha exposta. A humilhação pública e os comentários cruéis somados a uma audiência cada vez mais “sanguinária” produzem uma dor emocional que o jovem frequentemente não sabe processar. A autolesão entra como tentativa de transformar dor emocional em dor física — porque a dor física, paradoxalmente, parece mais controlável e passível de alívio.

O cérebro adolescente é neurologicamente orientado para aprovação social — o córtex pré-frontal está em desenvolvimento, e o sistema de recompensa responde intensamente à validação dos pares. Curtidas e comentários ativam dopamina, criando dependência de validação externa para regular o senso de valor próprio. Quando a validação não vem ou vem rejeição, o colapso emocional pode ser severo. O que vemos no consultório é que a autolesão, para alguns, funciona como regulador emocional imediato diante do desamparo gerado por essa rejeição digital.

Cassiana Tardivo, psicóloga, pedagoga, especialista em neuroaprendizagem e dependência tecnológica e autora do livro: Resgate seu filho das telas (Editora Vida) 


Três perguntas para

Elton Kanomata, psiquiatra do Hospital Israelita Albert Einstein 


O que pode ajudar a explicar esse crescimento consistente da automutilação?

Diversos fatores são apontados como responsáveis para o crescimento de casos de automutilação entre jovens. Sob o aspecto da saúde mental e psicológica, podemos elencar o aumento da prevalência de transtornos mentais como depressão e ansiedade; fase de desenvolvimento de habilidades socioemocionais, regulação emocional e tolerância ao estresse e frustração. Do ponto de vista socioambiental, há fatores de risco como culturais e religiosos; eventos traumáticos e estressores, violência, pobreza e desigualdade social; poluição, degradação ambiental e crise climática, que impactam o bem-estar psicológico; a velocidade e quantidade de informações absorvidas, o uso excessivo de telas e mídias sociais, a adultização precoce e o bullying. Do ponto de vista biológico, temos as alterações hormonais e desenvolvimento cerebral e do corpo, que influenciam na formação de identidade pessoal e individualidade.

Quais são os riscos de progressão para suicídio?

A automutilação abrange um amplo espectro de comportamentos em que um indivíduo se prejudica intencionalmente, com ou sem intenção suicida. Quando não há a intenção de morrer, geralmente serve como um mecanismo de enfrentamento para regular emoções negativas e obter alívio emocional. Porém, a distinção entre automutilação não suicida e comportamento suicida é complexa, pois esses fenômenos frequentemente podem se sobrepor, principalmente em situações de crises de ansiedade e estresse.

Os dados indicam um aumento mais acentuado entre as meninas. Existem fatores biológicos ou neuropsiquiátricos que ajudem a explicar essa diferença de gênero?

Sim, fatores hormonais e mudanças do corpo, e a forma como interagem nos sistemas de neurotransmissores podem levar ao aumento na vulnerabilidade para depressão, ansiedade e comportamento impulsivo. Há, também, estudos que indicam que meninas podem apresentar maiores dificuldades no controle de impulsos em momentos de crise, bem como maior reatividade ao estresse, com maior sensibilidade a emoções negativas.



 

Sinais de alerta

O psicólogo Miguel Bunge, especialista em terapia cognitivo-comportamental e saúde mental pelo Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo, elenca sinais de alerta que merecem atenção, especialmente quando combinados: 

* Isolamento social repentino ou afastamento de amigos e atividades antes prazerosas;

* Mudanças bruscas de humor, irritabilidade ou apatia;

* Uso constante de roupas compridas mesmo em dias quentes (para esconder lesões);

* Queda no rendimento escolar ou desinteresse generalizado;

* Comentários frequentes sobre dor emocional, vazio ou sensação de não pertencimento;

* Presença de ferimentos recorrentes ou inexplicados no corpo.