ONCOLOGIA

Suplementação errada pode afetar tratamento de câncer

Estudo indica que suplementos usados para ajudar a controlar duros efeitos da quimioterapia podem mais prejudicar que ajudar. Pesquisa revela como células cancerígenas chegam a sequestrar e usar esse "combustível" como alimento

Muitos pacientes com câncer tomam suplementos derivados da vitamina B3, como mononucleotídeo de nicotinamida (NMN), ribosídeo de nicotinamida (NR) e nicotinamida (NAM) para ajudar a controlar os efeitos colaterais da quimioterapia. No entanto, um novo estudo, liderado por pesquisadores da Case Western Reserve University, nos Estados Unidos, e publicado hoje (1º/4) na revista Cancer Letters, descobriu que essas substâncias podem fazer mais mal do que bem, ajudando as células cancerígenas a sobreviver e resistir ao tratamento.

Os cientistas investigaram como os suplementos comuns de precursores de NAD+ — uma molécula essencial para o funcionamento e sobrevivência de todas as células do corpo — afetam o câncer de pâncreas, um dos tumores mais letais, com uma taxa de sobrevida de cinco anos de apenas 13%, segundo a Sociedade Americana do Câncer. Segundo os cientistas, ingerir essas substâncias inunda o corpo com combustível.

Em pessoas saudáveis, esse tipo de suplemento pode até oferecer benefícios reais. No entanto, as células cancerígenas sequestram esse mesmo combustível para alimentar seus sistemas de energia, reparar danos ao DNA causados pela quimioterapia e evitar a morte causada pelo tratamento, permitindo que os tumores sobrevivam a doses que deveriam ser letais para eles, descobriram os pesquisadores.

Tanto em experimentos de laboratório quanto em modelos com camundongos, os suplementos, sobretudo o NMN, protegeram as células da doença de três medicamentos quimioterápicos padrão. A substância prejudicou o tratamento de três maneiras críticas: deu energia às células afetadas, reduziu o estresse oxidativo nos tumores, e minimizou os danos ao DNA cancerígeno.

“Nossos resultados destacam um papel potencialmente preocupante dos suplementos que aumentam os níveis de NAD+ no contexto de um câncer ativo, especialmente quando usados em conjunto com a quimioterapia”, disse o líder do estudo, Jordan Winter, professor da Escola de Medicina da Case Western Reserve. “Nossa descoberta é um alerta para a comunidade médica”, completa.

Sem generalizar

Para o nutricionista Thyago Nishino o eestudo reforça um ponto importante. “Suplementação não deve ser feita de forma generalizada. Cada organismo tem necessidades específicas, e, principalmente em situações de doença, qualquer intervenção nutricional precisa ser acompanhada por um profissional de saúde.

Conforme os autores, o estudo não sugere que esses suplementos sejam perigosos para pessoas saudáveis. Mas para pacientes com câncer ativo, sobretudo para aqueles que fazem quimioterapia, os riscos são sérios e exigem atenção imediata.

“Esta pesquisa é um lembrete crucial de que 'natural' nem sempre significa seguro, especialmente na complexa biologia do tratamento do câncer”, frisa Winter. Os pesquisadores defendem a realização de exames de rotina para verificar o uso de suplementos em todos os pacientes com tumores e mais pesquisas clínicas sobre a interação entre suplementos de NAD+ e terapias contra a doença.

Marcelo Uchôa, coordenador de oncologia do Hospital Anchieta Ceilândia, frisa que nessa área da medicina pequenos detalhes podem interferir diretamente na eficácia do tratamento. “ Alguns suplementos derivados da vitamina B3 vêm sendo amplamente utilizados com a promessa de aumentar energia e retardar o envelhecimento. No entanto, muitas vezes, aquilo que parece ajudar pode, na prática, atrapalhar, sobretudo para quem trata algum tumor.”

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