Ao alcançar uma distância de 406.771 km do planeta no primeiro sobrevoo da Lua em quase 54 anos, às 20h02 (horário de Brasília) de ontem, os quatro astronautas da missão Artemis II tornaram-se os primeiros seres humanos a se afastar tanto da Terra. Horas antes, às 14h57, a equipe já havia quebrado o recorde anterior, chegando a 406.778km — 6,6 mil a mais do que a Apollo 13, em 1970. "Conforme ultrapassamos a maior distância que humanos já viajaram do planeta Terra, o fazemos honrando os esforços extraordinários de nossos predecessores na exploração humana do espaço. Continuaremos em nossa viagem indo ainda mais longe no espaço antes que a Mãe Terra trate de nos puxar de volta para tudo que amamos. Mas nós, de forma mais importante, escolhemos este momento para desafiar esta geração e a próxima a assegurar que esse recorde não seja duradouro", disse o canadense Jeremy Hansen, por rádio, assim que o marco foi ultrapassado. Além dele, a equipe é composta pelos norte-americanos Christina Koch, Reid Wiseman e Victor Glover.
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A Artemis II decolou na quarta-feira passada para uma missão de 10 dias no espaço, com objetivo de testar sistemas para o espaço profundo, incluindo os de suporte à vida e controle térmico, em um ambiente extremamente hostil. Após o sobrevoo lunar que permitiu obter imagens inéditas da Lua, os astronautas começaram o retorno à Terra. Eles são esperados de volta na noite de sexta-feira (10/4), quando devem pousar no Oceano Pacífico, no litoral de San Diego.
A distância recorde do planeta deve-se à trajetória de retorno livre, na forma de um oito alongado, diferentemente da chegada, quando a Orion orbitou a Lua. A escolha do caminho teve duas vantagens: evitar grandes queimas de combustível devido à ajuda da gravidade lunar e visualizar paisagens jamais vistas a olho nu por um ser humano — o lado oculto do satélite já havia sido fotografado por sondas e orbitado por Michael Collins na Apollo 11, em 1969, mas nunca no campo de visão do atual sobrevoo, nem com resolução de imagens como as de agora (muito superiores). "Artemis II é o primeiro passo para um mapeamento renovado do espaço lunar", define Samantha Parry Kenyon, professora no Departamento de Engenharia Aeroespacial e Oceânica da Virginia Tech College of Engineering, nos Estados Unidos.
Ontem, em entrevista ao vivo do espaço, Christina Koch, a primeira mulher em uma missão tripulada à Lua, afirmou que os astronautas da Artemis II viram o satélite em perspectivas inéditas. "No domingo à noite, tivemos nossa primeira visão do lado oculto, e foi absolutamente espetacular." A tripulação foi treinada para fazer observações topográficas, para elaborar um mapa dos acidentes geográficos dessa que é a face mais antiga do satélite, ajudando a apontar possíveis zonas de pouso para as próximas missões.
Batismo
No sobrevoo, os ocupantes da Orion chegaram a batizar duas crateras: Integrity e Carrol. A primeira refere-se ao apelido da nave espacial. A segunda é uma homenagem à mulher do comandante Reid Wiseman, que morreu de câncer. Com a voz embargada, Jeremy Hansen justificou a escolha: "É um ponto brilhante na Lua. E gostaríamos que se chamasse Carroll". Do centro de controle da missão, em Houston, a astronauta e engenheira Jenni Gibbon respondeu: "Crateras Integrity e Carrol, recebido forte e claro. Obrigado". Em seguida, os astronautas se abraçaram e, em Terra, foi feito um minuto de silêncio.
Além das informações técnicas, Koch, Wiseman e Glover têm de anotar, nos diários de bordo, sensações físicas e emocionais ao longo da viagem. Todas as observações são importantes para o grande objetivo de todo o programa Artemis: estabelecer uma base lunar, onde serão realizados experimentos científicos e que servirá de "pit-stop" para uma futura viagem tripulada a Marte.
Ao desembarcar na Terra em 10 de abril, os astronautas abrem caminho para a parte três de Artemis, esperada para 2028: um pouso lunar, quase seis décadas após a primeira viagem do homem ao satélite.
