ASTRONOMIA

Estrela de outra galáxia é encontrada "escondida" na Via Láctea

Objeto SDSS J0715-7334 funciona como uma cápsula do tempo do Universo primordial, formada logo após o Big Bang, quase sem elementos pesados.

Representação gráfica de SDSS J0715-7334, com base no artigo científico publicado na revista Nature Astronomy -  (crédito: Whisk/Google AI)
Representação gráfica de SDSS J0715-7334, com base no artigo científico publicado na revista Nature Astronomy - (crédito: Whisk/Google AI)

Uma equipe de estudantes de graduação da Universidade de Chicago, nos Estados Unidos, identificou uma das estrelas mais antigas já observadas. O astro, chamado SDSS J0715-7334, tem características raras que o transformam em uma espécie de “fóssil cósmico”. A descoberta, publicada na semana passada na revista Nature Astronomy, foi feita durante uma disciplina prática de astrofísica e oferece novas pistas sobre como eram as primeiras fases do universo.

A estrela foi apelidada de "imigrante ancestral" porque não se formou na Via Láctea. Análises indicam que ela nasceu na Grande Nuvem de Magalhães, uma galáxia vizinha, e migrou para a nossa bilhões de anos atrás. Essa combinação de idade extrema e origem extragaláctica torna o objeto especialmente relevante para a ciência.

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SDSS J0715-7334 pertence a uma classe de estrelas extremamente antigas, formadas logo após o surgimento do universo. Esses astros são compostos quase exclusivamente por hidrogênio e hélio, os elementos mais simples da natureza.

Na astronomia, todos os elementos mais pesados são chamados de “metais”. A quantidade desses elementos em uma estrela é conhecida como “metalicidade”. Quanto menor esse valor, mais antiga tende a ser a estrela.

No caso dessa descoberta, a metalicidade é a menor já registrada. A estrela tem apenas 0,005% da quantidade de metais encontrada no Sol. Isso indica que ela se formou antes da maioria das explosões de supernovas, que são responsáveis por produzir elementos mais pesados.

Principais descobertas do estudo

Os dados revelaram características incomuns que destacam a estrela entre outras já observadas:

  • A composição química é extremamente pobre em metais, mais de duas vezes inferior à do recorde anterior.
  • A ausência quase total de carbono chamou a atenção dos pesquisadores. Segundo o professor Alex Ji, isso pode indicar um processo raro de formação ligado à dispersão inicial de poeira cósmica, observado apenas uma vez antes.
  • A trajetória orbital mostrou que a estrela não nasceu na Via Láctea. Ela veio da Grande Nuvem de Magalhães e foi capturada pela gravidade da nossa galáxia.

Para os cientistas, essas características fazem da estrela uma “cápsula do tempo”, capaz de preservar informações sobre as condições do universo logo após sua formação.

Como os cientistas fizeram as observações

A descoberta começou com a análise de dados do Sloan Digital Sky Survey, um grande projeto internacional que coleta informações sobre milhões de objetos no céu.

Durante o curso, os estudantes examinaram milhares de estrelas e selecionaram 77 candidatas para observações mais detalhadas. Em seguida, viajaram ao Observatório Las Campanas, no Chile, onde utilizaram o instrumento MIKE, acoplado aos telescópios Magellan.

A estrela foi identificada logo na primeira noite de observação. Inicialmente, o plano era observar cada alvo por cerca de 10 minutos. No entanto, diante da relevância do objeto, os estudantes dedicaram três horas contínuas à análise.

Além disso, dados da missão espacial Gaia foram usados para calcular a distância e reconstruir o movimento da estrela ao longo de bilhões de anos.

A descoberta amplia o entendimento sobre a formação das primeiras estrelas e galáxias. Como esses objetos surgiram antes da maioria das supernovas, eles preservam características do universo primordial.

Segundo Alex Ji, um dos autores do estudo, a estrela oferece uma visão inédita dessas condições iniciais. Ela ajuda a testar modelos teóricos sobre como os primeiros elementos se distribuíram no cosmos.

Outro ponto relevante é o papel de grandes bancos de dados astronômicos. Projetos como o SDSS permitem que estudantes participem diretamente de descobertas científicas importantes.

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postado em 05/04/2026 16:09
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