MEDICINA DE PRECISÃO

Resposta às canetas emagrecedoras pode está relacionada por genes, segundo estudo

Estudo indica possível relação entre maior eficácia dos medicamentos e incidência mais significativa de efeitos adversos, especialmente sintomas gastrointestinais. Segundo a pesquisa, uma das variáveis para isso seria a genética

Considerados uma revolução no tratamento da obesidade, medicamentos da classe dos agonistas do receptor de GLP-1, como semaglutida e tirzepatida, geralmente resultam em perda de peso significativa, mas, para alguns pacientes, o resultado pode ser limitado. O mesmo ocorre com efeitos colaterais: enquanto muitos toleram náuseas e vômitos, alguns usuários das "canetinhas emagrecedoras" precisam interromper o tratamento pela intensidade desses sintomas. Parte dessa diferença pode ser explicada por fatores genéticos, segundo um artigo publicado na revista Nature

O estudo do Instituto de Pesquisa 23andMe, na Califórnia, analisou dados de 27.885 pessoas que relataram o uso desses medicamentos. Desenvolvidos originalmente para tratar diabetes tipo 2, os agonistas de GLP-1 passaram a ser usados amplamente no controle de peso, porque reduzem o apetite, retardam o esvaziamento gástrico e melhoram a secreção de insulina. No Brasil, os remédios do tipo já representam 4% do mercado farmacêutico, segundo uma pesquisa do Itaú/BBA, e 22% das pessoas que recebem acima de dez salários mínimos já experimentaram alguma das substâncias. 

Apesar da eficácia média expressiva — em torno de 10% de perda de peso corporal em estudos clínicos — a resposta varia muito. Enquanto alguns pacientes perdem mais de 25% do peso, outros praticamente não apresentam mudança ou até ganham gordura. Segundo os autores da pesquisa publicada na Nature, a variabilidade os motivou a investigar o papel da genética. Para eles, saber que variantes podem influenciar o emagrecimento e os efeitos adversos abre caminho para uma abordagem mais personalizada no tratamento da obesidade, baseada no perfil genético de cada paciente.

Gastrointestinais 

A análise identificou uma variante específica no gene GLP1R — que codifica o receptor alvo desses medicamentos — associada a maior perda de peso. Cada cópia dessa versão foi relacionada a uma redução adicional de aproximadamente 0,76 kg.  Além disso, os cientistas encontraram mutações no GLP1R e no GIPR relacionadas a um risco aumentado de efeitos gastrointestinais, especialmente náuseas e vômitos. 

"Ao mostrar que variantes nos genes GLP1R e GIPR, justamente os alvos dessas medicações, estão associadas tanto à eficácia quanto aos efeitos colaterais, como náuseas e vômitos, o estudo traz um ponto extremamente importante", avalia a médica Fernanda Parra, pós-graduada em endocrinologia e metabologia, que atua em São Paulo. "Isso ajuda a explicar algo que a gente já observa na prática: não é falta de esforço do paciente quando ele não responde bem ou quando tem mais efeitos adversos, é uma questão biológica", diz. Segundo Parra, no curto prazo, isso ainda não muda a forma de prescrição, mas ajuda a conduzir o tratamento. "Traz mais individualização, mais ajustes finos e menos julgamento."

Eficácia

Curiosamente, os dados do estudo indicam uma possível relação entre maior eficácia e incidência mais significativa de efeitos adversos. Os pacientes que sofrem mais náusea ou vômito tendem, em média, a perder mais peso — isso já foi sugerido por estudos anteriores e, agora, reforçado pela análise genética.  

"Os agonistas de GLP-1 atuam em diferentes mecanismos do organismo, principalmente no chamado eixo intestino-cérebro, que regula a fome, a saciedade e o comportamento alimentar. Os sintomas gastrointestinais, como náuseas ou vômitos, estão relacionados justamente a essa ação mais intensa sobre esses mecanismos", explica Eliane Dias JK, PhD em endocrinologia e metabologia pela Universidade de São Paulo (USP), onde atua. A sensibilidade maior aos efeitos colaterais pode levar a uma redução maior da ingestão alimentar, justificando a associação encontrada. A médica, porém, ressalta que não é preciso sofrer com vômitos e náuseas para garantir a eficácia do tratamento.

Os pesquisadores também avaliaram fatores não genéticos que influenciam a resposta ao tratamento. Sexo, idade, tipo de medicamento, dose e tempo de uso mostraram impacto significativo. Mulheres, por exemplo, tiveram maior perda de peso média do que homens. Já a idade apresentou efeito inverso: a cada década adicional, a eficácia caiu cerca de 0,5% em termos de redução do índice de massa corporal (IMC). 

Outro fator relevante foi a presença de diabetes tipo 2. Pessoas com a doença tiveram resposta menor ao tratamento, com redução média inferior de quase três pontos percentuais no IMC em comparação a indivíduos sem diabetes. Os autores também observaram diferenças de resposta entre grupos populacionais, com maior eficácia entre indivíduos de ascendência europeia, seguidos por latino-americanos e, por fim, afro-americanos. No entanto, os próprios pesquisadores destacam a necessidade de ampliar a análise porque os dados genéticos foram fornecidos predominantemente por descendentes de europeus. 

Para a endocrinologista Eliane Dias JK, pesquisas como a publicada na Nature indicam que a personalização do tratamento da obesidade deve se intensificar nos próximos anos. "Ao combinar informações sobre fatores clínicos, como excesso de gordura visceral e comorbidades, com dados genéticos, metabólicos e hormonais, pode-se criar um perfil mais detalhado de cada paciente. Com isso, seria possível prever com maior precisão quem tende a responder melhor a determinados medicamentos ou quem pode ter maior risco de efeitos adversos, um modelo que já vem sendo utilizado em outras áreas da medicina, como a oncologia."

 

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Três perguntas para

Carolina Castro Porto Silva Janovsky, médica endocrinologista, professora da pós-graduação em endocrinologia clínica da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp) e membro da Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia (Sbem)

O que explica as variações na resposta ao GLP-1?

Os fatores mais importantes hoje parecem ser bem práticos: qual hormônio foi escolhido, a dose atingida, o tempo em tratamento e a capacidade de manter o uso, porque perder peso com esses remédios depende muito de conseguir subir a dose e permanecer nela. No estudo, tirzepatida, sexo feminino, maior tempo de uso e dose mais alta se associaram a maior perda de peso; idade mais avançada teve efeito negativo pequeno; e diabetes tipo 2 se associou a menor perda média. Parte da variação também pode refletir adesão, persistência e interrupção precoce, e não apenas “biologia pura”. Os efeitos gastrointestinais entram nessa conta. No artigo, náusea e vômitos se correlacionaram com maior perda de peso; ao mesmo tempo, evidência recente mostra que doses mais altas aumentam o risco de náusea, vômito, diarreia e constipação. Em outras palavras: a tolerabilidade molda a resposta real. 

As descobertas podem impactar a prática clínica no curto prazo?

No curto prazo, o impacto é mais de estratificação de risco e aconselhamento do que de mudança imediata de prescrição. Os achados do estudo sobre eficácia e efeitos colaterais podem, no futuro, influenciar a escolha da molécula, a velocidade de titulação e a intensidade do monitoramento. Mas eu seria cautelosa em dizer que isso já mudou a rotina. O próprio estudo mostra que o modelo combinado explicou 25% da variação da eficácia, e os modelos para náusea/vômito tiveram desempenho apenas moderado. 

Quão perto está a medicina de precisão no combate à obesidade?

Estamos mais perto de uma medicina de precisão probabilística do que de uma medicina de precisão “sob medida” capaz de prever com alta confiança, antes do início, quem vai perder muito peso e quem vai passar mal. Já existem modelos com dados clínicos rotineiros que mostram promessa para resposta glicêmica em diabetes tipo 2, mas a utilidade para peso, efeitos adversos e desfechos cardiorrenais ainda é limitada ou pouco explorada. A própria revisão publicada pede validação externa, inclusão de semaglutida/tirzepatida nos algoritmos e dados mais robustos para efeitos colaterais e populações diversas. Então, eu diria assim: a medicina de precisão já começou, mas ainda não chegou ao consultório de forma madura para obesidade. Hoje ela serve mais para refinar probabilidade e monitoramento do que para “adivinhar o destino” de cada paciente. (PO)