A expectativa era de que essas drogas "mudassem o jogo" no tratamento da doença de Alzheimer. O maior estudo sobre medicamentos que têm como alvo as proteínas beta-amiloide no cérebro constatou, porém, que eles não têm efeito positivo significativo, e ainda aumentam o risco de sangramento e inchaço cerebral. Com dados de 17 ensaios clínicos que incluíram 20.342 pessoas, o artigo publicado na Cochrane Database of Systematic Reviews concluiu que os fármacos são incapazes de prevenir ou retardar a progressão da demência.
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"Infelizmente, as evidências sugerem que esses medicamentos não fazem diferença significativa para os pacientes", afirmou, em nota, o autor principal, Francesco Nonino, neurologista e epidemiologista do Instituto de Ciências Neurológicas IRCCS de Bolonha, na Itália. "Há agora um conjunto convincente de evidências convergindo para a conclusão de que não há efeito clinicamente significativo. Embora os primeiros ensaios clínicos tenham mostrado resultados estatisticamente significativos, é importante distinguir entre isso e a relevância clínica."
Os pacientes de Alzheimer têm acúmulo de uma proteína conhecida como beta-amiloide no cérebro. Essa substância é detectável antes do início dos sintomas, mas seu papel na progressão da doença ainda não está totalmente esclarecido. Nos últimos cinco anos, sob a teoria de que removê-la poderia tratar o declínio cognitivo, foram desenvolvidos alguns fármacos com esse princípio.
Limpeza
Os defensores das drogas que fazem a limpeza da beta-amiloide afirmaram que elas seriam mais eficazes nos estágios iniciais do Alzheimer. Como hoje vários testes conseguem detectar o acúmulo da proteína — incluindo exames de sangue —, o uso dos medicamentos seria capaz de prevenir o avanço da doença, que deve afetar 139 milhões de pessoas em 2050.
Na revisão dos ensaios clínicos, além da ausência de efeitos clinicamente significativos, os autores constataram que os medicamentos anti-amiloides aumentam o risco de inchaço e sangramento no cérebro. Isso foi observado em exames de imagem cerebral sem sintomas aparentes na maioria dos pacientes. Os efeitos a longo prazo permanecem incertos.
Para os autores, futuros ensaios clínicos com foco na remoção da beta-amiloide não devem trazer benefícios. Por isso, eles recomendam que novas pesquisas se concentrem em outros mecanismos, o que já está sendo feito em alguns laboratórios.
Devastadora
"Atendo pacientes com Alzheimer em minha clínica todas as semanas e gostaria de ter um tratamento eficaz para oferecer a eles", comentou o autor senior Edo Richard, professor de neurologia no Centro Médico da Universidade Radboud, nos Países Baixos. "Dada a ausência de correlação entre a remoção do amiloide e o benefício clínico, precisamos explorar outras vias para ajudar a combater essa doença devastadora."
Embora reconheça a limitação dos fármacos testados — que, inclusive, têm a aprovação de agências reguladores de saúde no Brasil, na União Europeia e nos Estados Unidos, Andrew Doig, professor de bioquímica da Universidade de Manchester, nos Reino Unido, acredita que alguns pacientes podem se beneficiar da estratégia de remoção da proteína beta-amiloide.
"Ainda acho prematuro ser tão pessimista", diz Doig, que não participou do estudo. "Direcionar o tratamento a subgrupos de pessoas com predisposição genética à doença de Alzheimer ou que apresentem biomarcadores da doença no sangue ainda pode funcionar, embora não possamos esperar um grande efeito. De qualquer forma, outras estratégias contra a doença de Alzheimer devem ser vigorosamente buscadas."
Cautela
O neurocirurgião funcional Marcelo Valadares, especialista em doenças neurodegenerativas e pesquisador da Universidade de Campinas (Unicamp), ressalta que, apesar de os estudos que justificaram a aprovação de substâncias como o donanemab apontarem redução de 35% do declínio cognitivo em pacientes de grupos específicos, a verdadeira causa do Alzheimer é desconhecida. "É preciso cautela ao tratar o Alzheimer. Ainda não existe uma cura ou um medicamento que impeça completamente o desenvolvimento da doença. O que observamos é que esse tipo de medicamento pode enfraquecer progressão da doença nas fases iniciais. Portanto, em estágios mais avançados do Alzheimer, essa forma de tratamento pode não ser tão eficaz."
Gabriel Azevedo, médico atuante em medicina regenerativa na Clínica Longevitar, em São Paulo, explica que, atualmente, outras linhas de pesquisa, como as que investigam células-tronco, têm obtido bons resultados, embora ainda preliminares. "Os tratamentos atualmente disponíveis têm papel importante no controle de sintomas, mas não conseguem atuar de forma direta sobre os processos que sustentam a neurodegeneração." Uma das linhas de estudo apontadas por Azevedo investiga a capacidade de regeneração dos neurônios afetados pela doença.
"Pesquisas recentes avaliam o uso de células-tronco em protocolos experimentais e controlados, com foco em modular processos inflamatórios e oferecer suporte ao ambiente neuronal", diz o médico da Longevitar. Segundo Azevedo, em modelos animais, além da redução de placas beta-amiloide, a abordagem diminuiu a hiperfosforilação da proteína tau — outro mecanismo fisiológico conhecido da doença. "As células-tronco podem modular a neuroinflamação, liberar fatores neuroprotetores e contribuir para um ambiente mais favorável à reorganização das vias neuronais. Não se trata de substituir neurônios perdidos de forma direta, mas de tentar interferir no terreno biológico que acelera a degeneração", diz.
