Dormir alguns minutos depois do almoço costuma ser um hábito saudável e, em muitas culturas, quase obrigatório. Quando, contudo, os cochilos ao longo do dia se tornam longos, frequentes ou começam logo pela manhã, esse pode ser um alerta silencioso do organismo, especialmente em pessoas mais velhas. A constatação é de um estudo publicado na revista Jama, que acompanhou 1.338 adultos acima de 56 anos, com idade média de 81 anos, por quase duas décadas.
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Embora estudos anteriores tenham encontrado associações semelhantes, os autores destacam que, geralmente, os dados eram relatados pelos pacientes. Agora, porém, os participantes foram convidados a usar dispositivos vestíveis, como relógios inteligentes, para medir objetivamente os períodos de sono durante o dia. Ao relacionar as informações a registros de saúde e mortalidade ao longo de 19 anos, os cientistas descobriram que cada hora adicional de cochilo esteve ligada a um aumento de 13% na mortalidade por todas as causas. A frequência também pesou: cada dormidinha extra por dia elevou o risco em 7%.
"Nosso estudo é um dos primeiros a mostrar uma associação entre padrões de cochilo medidos objetivamente e mortalidade, e sugere que há um imenso valor clínico em monitorar esses padrões para detectar problemas de saúde precocemente", disse, em nota, Chenlu Gao, pesquisador de anestesiologia do Mass General Brigham, em Boston, e principal autor da pesquisa. Os autores alertam que o horário do cochilo foi o que mais chamou a atenção. Adultos que caíam no sono pela manhã — entre as 9h e o início da tarde — tiveram risco de morte 30% maior, em comparação com os que dormiam pós-almoço, a famosa sesta. Esse padrão pode refletir alterações mais profundas no organismo.
Temperatura
Andrea Bacelar, neurologista, neurofisiologista e especialista em medicina do sono da Academia Brasileira do Sono (ABS), explica que, entre as 13h30 e as 15h30, há um período de sonolência natural. "Fisiologicamente, ocorre uma queda de temperatura corporal nesse intervalo, variando entre os indivíduos. Muitas pessoas atribuem ao almoço, mas, hoje, sabemos que é por conta da queda da temperatura do corpo. O problema, aponta, é quando o descanso pós-prandial ultrapassa 30 minutos, sinalizando hipersonolência", diz.
"Não é que o sono seja prejudicial, mas o cochilo prolongado significa que meu sono da noite não é reparador", esclarece Bacelar. "Ou então está acontecendo privação do sono: ou seja, quantidade menor do que eu preciso ou qualidade ruim. Isso indica que a pessoa está fora de seu ritmo biológico." Essa alteração, ressalta a especialista, pode sugerir comorbidades.
Segundo os autores da pesquisa, distúrbios como apneia obstrutiva costumam estar por trás do cochilo prolongado e em horas impróprias. Nesses casos, o indivíduo não consegue manter um sono reparador durante a noite, o que leva à sonolência diurna. "O paciente pode achar que está apenas cansado, mas, na verdade, há uma fragmentação importante do sono noturno", explica Chenlu Gao.
Fadiga
Além disso, doenças crônicas — incluindo condições cardiovasculares, metabólicas e neurodegenerativas — também podem provocar fadiga persistente e aumentar a necessidade de cochilos ao longo do dia. O estudo, inclusive, ajustou os resultados para fatores como hipertensão, diabetes, índice de massa corporal e uso de medicamentos, e ainda assim encontrou associação entre dormir no período diurno e mortalidade.
Outro ponto destacado no artigo publicado na Jama é que o cochilo pode estar relacionado a inflamações no organismo. Pesquisas anteriores demonstraram que pessoas que costumam adormecer durante o dia têm níveis mais elevados de marcadores inflamatórios, o que pode contribuir para o desenvolvimento de doenças cardiológicas, porque alterações no ciclo circadiano, o "relógio biológico", impactam o sistema cardiovascular.
Quando há desregulação do ciclo, um conjunto de fatores acaba favorecendo o ambiente propício ao desenvolvimento de doenças cardiovasculares, incluindo maior ativação do sistema nervoso simpático (relacionado ao estresse) e prejuízo da função dos vasos sanguíneos. "Quando se dorme pouco ou mal, o organismo permanece em estado de alerta, e isso pode favorecer a elevação da pressão ao longo do tempo", explica a cardiologista Erika Campana, presidente do Departamento de Hipertensão Arterial da Sociedade Brasileira de Cardiologia (SBC).
Os autores do estudo publicado na Jama acreditam que o monitoramento do cochilo, especialmente em idosos, deve se tornar uma rotina clínica, para investigação de comorbidades. Eles acreditam que, com a popularização de relógios inteligentes e outros dispositivos vestíveis, será possível fazer esse acompanhamento em larga escala. "Essas tecnologias podem ajudar a identificar mudanças sutis no comportamento ao longo do tempo, permitindo intervenções mais precoces", destacam, no artigo.
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