Pela primeira vez, um teste realizado diretamente na superfície de Marte identificou dezenas de moléculas orgânicas complexas preservadas em rochas com cerca de 3,5 bilhões de anos. Os resultados, publicados na revista Nature Communications, indicam que o Planeta Vermelho pode ter mantido, por bilhões de anos, compostos essenciais à química da vida.
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A análise foi conduzida pelo rover Curiosity, que explora a cratera Gale desde 2012. Utilizando o instrumento Sample Analysis at Mars (SAM), os pesquisadores conseguiram detectar 20 moléculas orgânicas em amostras de arenitos ricos em argila da região chamada Glen Torridon. Essas substâncias incluem compostos aromáticos, estruturas cíclicas e moléculas contendo enxofre, oxigênio e nitrogênio — elementos fundamentais para processos biológicos na Terra.
Segundo o estudo, essas moléculas foram liberadas por meio de um experimento inovador que utilizou hidróxido de tetrametilamônio (TMAH), uma substância capaz de quebrar estruturas orgânicas complexas e revelar seus componentes. A técnica, chamada termocemólise, permitiu identificar compostos que permaneciam presos em estruturas macromoleculares nas rochas marcianas.
Meteoritos
Entre as moléculas confirmadas estão o naftaleno, o benzotiofeno e o metil benzoato — compostos também encontrados em meteoritos ricos em carbono. A presença dessas substâncias sugere que parte da matéria orgânica pode ter origem externa, trazida por impactos de asteroides, mas também não descarta processos químicos internos do planeta.
O teste permitiu a detecção de compostos com nitrogênio em estruturas conhecidas como heterociclos — fundamentais para a formação de moléculas biológicas como DNA e RNA. Embora ainda não seja possível confirmar a origem biológica dessas substâncias, a presença amplia o leque de possibilidades sobre a química pré-biótica no planeta, alegam os autores do artigo.
"Acreditamos que estamos diante de matéria orgânica preservada em Marte por 3,5 bilhões de anos", disse, em nota, Amy Williams, professora de ciências geológicas da Universidade da Flórida e cientista das missões dos robôs exploradores Curiosity e Perseverance em Marte. A pesquisadora ajudou a desenvolver o experimento. "É muito útil ter evidências de que matéria orgânica antiga está preservada, porque essa é uma forma de avaliar a habitabilidade de um ambiente. E se quisermos buscar evidências de vida na forma de carbono orgânico preservado, isso demonstra que é possível."
Apesar do entusiasmo, especialistas são cautelosos. A presença de moléculas orgânicas, sozinha, não é evidência de vida. Compostos semelhantes podem ser formados por processos puramente químicos, sem qualquer participação biológica. "O estudo não implica que evidências de vida em Marte foram encontradas, nem evidências de vidas passadas, nem de bioassinaturas ou biomarcadores. Nada biológico. Isso deve ser muito claro. Todas as moléculas observadas são de origem abiótica. Isso não nos garante nada sobre uma possível vida passada em Marte", observa o astrobiólogo César Salván, da Universidade de Alcalá, na Espanha.
Segundo o cientista, que não participou do estudo, o que o teste demonstra é que alguns materiais marcianos podem preservar moléculas orgânicas ou material carbonáceo. "Esse material pode se originar do próprio planeta, de formações mais recentes ou de meteoritos; isso não pode ser determinado", explica. Para Salván, a principal contribuição do estudo é a metodologia usada. "Os pesquisadores demonstraram que o experimento pode extrair uma fração orgânica e reforçaram a ideia de que as antigas rochas marcianas preservam orgânicos aromáticos e contendo enxofre. Isso é positivo e relevante para futuras explorações."
