SUPLEMENTAÇÃO EFICAZ

Suplementos melhoram (de verdade) a performance, mas é preciso cautela

Revisão aponta quais são as substâncias que ajudam, como suplementos, a alavancar o desempenho e a recuperação muscular de atletas de elite. Mas os autores alertam: prescrições são individuais e dependem de diversos fatores

Suco de cereja, de beterraba e de picles, probióticos, cúrcuma, vitamina C, ácidos graxos ômega-3 e colágeno são alguns dos aliados de ciclistas profissionais, com o aval da ciência, segundo um amplo artigo de revisão da Universidade de Flinders, na Austrália. Os autores — incluindo uma atleta olímpica que estuda medicina na instituição — analisaram minuciosamente suplementos alimentares que prometem melhoria no desempenho e destacaram, com base em evidências, quais os que realmente ajudam a reduzir a fadiga e dar suporte aos sistemas energéticos do organismo. 

Publicado no Journal of the International Society of Sports Nutrition, o artigo mostra que as substâncias mais promissoras para os atletas são da categoria dos ergogênicos, que atuam aumentando a força e a recuperação muscular, como cafeína, carboidratos (como os encontrados em géis esportivos), creatina mono-hidratada, nitratos alimentares (obtidos, por exemplo, em sucos de vegetais escuros e de raízes), bicarbonato de sódio e bebidas com eletrólitos. "Esses compostos influenciam como os músculos produzem e utilizam energia, o que é crucial para atletas de alto rendimento", afirma Andrew Rowland, professor de farmacologia clínica e líder do estudo. 

Rowland explica que, durante o exercício, o corpo regenera energia continuamente por meio de mecanismos que suportam diversos tipos de esforços — de explosões curtas e intensas a atividades de resistência mais longas. "Descobrimos que as evidências mais fortes para esses suplementos de desempenho estavam no suporte aos sistemas energéticos do corpo, melhorando o uso de combustível, aumentando a capacidade de tamponamento, incrementando a disponibilidade de energia, além de retardar a fadiga", afirma.

Recuperação 

Além dos suplementos que melhoram diretamente o desempenho, a pesquisa também encontrou respaldo científico para compostos voltados para a recuperação, que podem ajudar na saúde óssea, na integridade do tecido conjuntivo, no controle da inflamação, no estado de micronutrientes, na reparação muscular e na função intestinal. Howard ressalta, porém, que o estudo é voltado para atletas de elite, que passam por acompanhamento de profissionais de saúde, e lembra a necessidade, mesmo para os esportistas, de prescrições personalizadas.

"A relação entre nutrição, treinamento e otimização do desempenho em ciclistas de elite depende de estratégias de suplementação individualizadas, adaptadas às demandas de treinamento e aos objetivos competitivos, seja para melhorar a recuperação, fortalecer a imunidade ou promover a adaptação fisiológica a longo prazo", afirma. "Antes de suplementar, é preciso avaliar a real necessidade. Também tem de considerar histórico de saúde e possíveis interações", concorda o nutricionista Thyago Nishino, especialista em nutrição esportiva. O profissional lembra que a qualidade do suplemento, a dosagem e o momento de utilizá-lo são pontos críticos, que influenciam os resultados. "Sem esses cuidados, mesmo bons suplementos podem falhar."

Andrew Rowland diz que, além das características físicas e etárias de cada atleta, a individualização dos programas de suplementação devem ser adaptadas para o contexto do ciclista, como nível de treinamento e condições ambientais, como calor e altitude. Ele ressalta também a importância de realizar testes fisiológicos sobre alguns parâmetros, como concentração de sódio no suor, estado de micronutrientes, limiar de lactato (um marcador da transição do esforço aeróbico para o anaeróbico), e VO2máx, que indica a aptidão cardiovascular e a resistência aeróbica. "Otimizar a suplementação exige alinhar as necessidades metabólicas individuais com compostos específicos que apoiam as principais vias envolvidas na produção de energia, recuperação e resiliência."

No artigo, os autores lembram que o prescritor de suplementos para esportistas precisam considerar, além dos princípios de saúde e segurança, possíveis violações às regras de antidoping. "Atletas que utilizam suplementos devem permanecer vigilantes, seguindo o princípio da responsabilidade objetiva da Agência Mundial Antidoping (Wada), que atribui ao competidor total responsabilidade por todas as substâncias presentes em seu organismo", escreveram.

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Três perguntas para Lucila Santinon

Lucila Santinon Nutricionista especializada em suplementação nutricional da Vitaflor

O estudo mostra que suplementos ergogênicos podem melhorar o desempenho no ciclismo. Quando esses suplementos são realmente necessários?

Os recursos ergogênicos são muito importantes quando falamos de modalidades de alta intensidade e longa duração, como ciclismo e triátlon, principalmente em fases de treinos mais exigentes ou em períodos de competição. A beta-alanina, por exemplo, atua como precursora da carnosina no músculo e ajuda no tamponamento da acidose muscular, retardando a fadiga e favorecendo a performance em esforços intensos. Já a cafeína é um dos recursos com melhor respaldo científico, porque além do efeito estimulante, também reduz a percepção de esforço e melhora o foco durante a prova. Mas é importante entender que desempenho não depende só do que gera efeito imediato. Em esportes de endurance, o desgaste muscular é constante, então a recuperação também precisa ser tratada como parte da estratégia. Nem sempre o atleta precisa de todos os ergogênicos ao mesmo tempo, mas dificilmente ele sustenta performance sem uma boa base de recuperação.

Uma alimentação bem estruturada poderia substituir parte da suplementação?

A alimentação bem estruturada sempre será a base. Sem isso, a suplementação perde muito do sentido. Mas quando falamos de atletas de endurance e alta performance, muitas vezes apenas a alimentação não consegue atender toda a demanda de forma precisa, principalmente em fases de maior volume de treino ou recuperação mais curta entre sessões. A suplementação entra como um complemento estratégico. O whey protein é um bom exemplo disso, porque oferece proteína de alto valor biológico, com boa digestibilidade e rápida absorção, o que facilita muito principalmente no pós-treino. Muitas vezes, o atleta precisa aproveitar essa janela de recuperação e nem sempre consegue fazer isso apenas com a alimentação convencional. Então não é sobre substituir refeições, mas sobre complementar de forma inteligente e individualizada.

Quais são os principais cuidados que um paciente deve ter antes de iniciar qualquer suplementação?

O principal é não começar a suplementação apenas por indicação de internet ou porque alguém indicou na academia. É preciso avaliar rotina de treinos, alimentação, histórico clínico e possíveis interações com medicamentos, porque alguns compostos podem interferir diretamente na absorção ou até potencializar efeitos adversos. Outro ponto muito importante é a procedência do e a segurança do produto.