EPIDEMIA DE OBESIDADE

Estudo mundial mostra impacto da desigualdade social na obesidade

Imenso estudo mundial constata que a obesidade entrou em uma nova fase no planeta, com significativas diferenças socioeconômicas. Em países ricos, o problema começou a desacelerar, mas, em nações de rendas média ou baixa, segue em alta

 Homem se alimenta em Arequipa, no Peru: na América Latina, obesidade está associada ao baixo acesso a opções saudáveis -  (crédito:  Ernesto Rosas/Pexels/Divulgação )
Homem se alimenta em Arequipa, no Peru: na América Latina, obesidade está associada ao baixo acesso a opções saudáveis - (crédito: Ernesto Rosas/Pexels/Divulgação )

Em um dos maiores estudos já realizados sobre obesidade no mundo, pesquisadores da coligação internacional Colaboração de Fatores de Risco de Doenças Crônicas Não Transmissíveis (NCD-RisC) constataram que a epidemia global da doença entrou em uma nova fase, com expressivo recorte socioeconômico. Publicado na revista Nature com base em 4.050 levantamentos populacionais realizados entre 1980 e 2024, o artigo mostra que o avanço do problema começou a estabilizar e desacelerar em países ricos. Na maioria das nações de renda média ou baixa, porém, permanece em trajetória ascendente tanto entre adultos quanto entre crianças e jovens. 

Na América Latina, o Brasil é apontado pelo artigo como exemplo de país que, embora já tenha atingido um pico elevado de obesidade — entre adultos, a prevalência ultrapassa 30% —, não dá sinais de estabilização. Ao contrário, ano a ano observam-se taxas cada vez maiores. No período avaliado, a maior variação foi observada entre mulheres adultas: em 1980, 9,3% delas estavam com índice de massa corporal (IMC) acima de 30, percentual que passou para 34,9% em 2024, um aumento de 25,6 pontos percentuais . 

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Com dados totais de 232 milhões de pessoas em 200 países e territórios, o estudo não mediu apenas a prevalência da obesidade, mas a velocidade da doença (aumento anual em pontos percentuais). O resultado revela um mundo dividido. Em vários países da Europa Ocidental, como França, Dinamarca, Espanha e Itália, o crescimento da doença desacelerou desde os anos 1990 entre crianças e adolescentes e, mais tarde, também entre adultos. Em alguns casos, os pesquisadores encontraram sinais discretos de queda nos índices. 

Platô

Nos Estados Unidos, a obesidade alcançou um platô entre crianças e adolescentes, embora os níveis da doença no país ainda estejam entre os mais altos do mundo. A Itália também alcançou estabilidade e pode ter começado a observar um decréscimo em todos os grupos etários com uma prevalência de 14% e 15% (mulheres e homens, respectivamente). No Japão, os registros são baixos: em 45 anos de acompanhamento, por exemplo, a obesidade entre mulheres se manteve em 4%.

Já em países como Brasil, Chile, México, Arábia Saudita e diversas nações africanas e asiáticas, o movimento segue no sentido oposto: a obesidade continua aumentando rapidamente e sem sinais claros de estabilização. A tendência é para todas as faixas etárias, com velocidade acelerada entre crianças e adolescentes. Em 2024, 17% das brasileiras e 18,1% dos brasileiros com menos de 18 anos tinham IMC acima de 30. O crescimento, em relação a 1980, foi de 15,2 e 16,7 pontos percentuais, respectivamente. 

"Chamar esse fenômeno globalmente de 'epidemia' acaba mascarando diferenças importantes e simplificando excessivamente um processo complexo e dinâmico", afirma Alicia Matijasevich, professora da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (FMUSP) e coautora do artigo da Nature. Para os pesquisadores, a desigualdade evidenciada pelos dados pode refletir transformações econômicas e sociais rápidas que não foram acompanhadas por políticas públicas robustas para combater os efeitos negativos das mudanças sobre a alimentação e o estilo de vida. 

O estudo aponta vários fatores envolvidos no avanço da obesidade: urbanização, aumento do consumo de alimentos ultraprocessados, mecanização do trabalho, sedentarismo, desigualdade social e dificuldade de acesso a alimentos saudáveis. Os pesquisadores destacam que o problema vai além das escolhas individuais e depende fortemente do ambiente social e econômico. "No Brasil, questões como renda e acesso a alimentos saudáveis afetam fortemente as populações menos favorecidas, com impacto preocupante em relação a crianças e adolescentes", avalia o cirurgião bariátrico Carlos Schiavon, cofundador da ONG Obesidade Brasil. 

"Dupla carga"

Segundo o artigo publicado na revista Nature, em países de renda média prevalece a chamada "dupla carga" da nutrição. Enquanto parte da população continua convivendo com insegurança alimentar e carências nutricionais, outra enfrenta excesso de peso e doenças relacionadas à obesidade. "Muitos países em desenvolvimento concentraram seus esforços em combater a desnutrição, e houve pouca resposta regulatória ao avanço do marketing de produtos pouco saudáveis, como bebidas açucaradas", observa Alicia Matijasevich. "O sistema alimentar continua favorecendo produtos baratos, altamente processados e densamente calóricos", disse, em uma entrevista coletiva on-line, Majid Ezzati, professor da Escola de Saúde Pública do Imperial College London, que conduziu a análise. 

Os autores do artigo também discutem o impacto potencial dos novos medicamentos contra obesidade, especialmente os agonistas de GLP-1, como semaglutida e tirzepatida. Embora, por enquanto, não seja possível avaliar se essas medicações têm relação com a desaceleração da doença nos países ricos, os pesquisadores reconhecem que são ferramentas importantes, embora temam que o acesso desigual amplie ainda mais as disparidades observadas. "Nessa fase, provavelmente é muito cedo para dizer se os medicamentos GLP-1 tiveram um impacto direto em populações inteiras, embora sejam benéficos para os pacientes que os utilizam. O foco deve ser torná-los mais acessíveis a todos que precisam deles em todo o mundo", comentou Ezzati.

Quatro perguntas para

Carlos Schiavon, cirurgião bariátrico e cofundador da ONG Obesidade Brasil 

O que explica a diferença de trajetória da obesidade entre países ricos e em desenvolvimento detectada no estudo?

Como a obesidade tem origem multifatorial, a resposta a essa questão é complexa. Podemos, contudo, elencar algumas possíveis causas: o acesso à alimentação saudável e a ambientes propícios para a prática de exercício físico é melhor em populações (ou países) com maior poder aquisitivo; também é possível que, em países desenvolvidos com altos índices de obesidade, como os Estados Unidos, a parte da população com propensão genética para desenvolver obesidade já se estabilizou, o que pode significar que a outra parte não desenvolverá obesidade; o estresse crônico e a falta de sono adequado, que possivelmente afetam populações menos favorecidas, contribuem também para maiores índices de obesidade.

Os autores apontam que, em vários países, a obesidade infantil segue aumentando mesmo quando os índices entre adultos começam a desacelerar. Quais as consequências dessa tendência para o sistema de saúde?

Crianças com obesidade apresentam uma probabilidade significativamente maior de se tornarem adultos com obesidade. Além da condição em si, o tempo prolongado de exposição aos fatores de risco eleva as chances de desenvolverem doenças cardiovasculares na vida adulta, quando comparadas a crianças com peso adequado. Isso, com certeza, impactará negativamente o sistema de saúde no futuro. O artigo sugere que fatores sociais, econômicos e culturais influenciam fortemente a obesidade, incluindo renda, acesso a alimentos saudáveis e desigualdade social. 

Quais medidas estruturais o Brasil ainda precisa adotar para enfrentar o problema de forma mais efetiva?

A famosa pergunta de 1 milhão (ou bilhão!) de dólares. Se eu tivesse que escolher uma medida, com certeza seria investir fortemente na alimentação infantil saudável nas escolas em tempo integral. E, se possível, ofereceria a mesma alimentação saudável para os adultos das regiões menos favorecidas. O chamado imposto do pecado é uma boa iniciativa se, concomitantemente, essas populações tenham acesso à alimentação saudável com preços acessíveis. 

O estudo menciona que medicamentos para perda de peso, como os agonistas de GLP-1, podem influenciar as tendências futuras da obesidade. No contexto brasileiro, como equilibrar inovação terapêutica e acesso da população ao tratamento?

Oferecer acesso a estas medicações a toda população que necessita provavelmente é inviável pelos altos custos envolvidos, mas algo que já deveria ter sido feito e estamos atrasados é a oferta dessas medicações a populações selecionadas de maior risco, como, por exemplo, pacientes com diabetes e obesidade ou obesidade e risco cardiovascular aumentado. Provavelmente, essa medida reduziria custos a médio e longo prazos. Além disso, deveríamos oferecer opções terapêuticas mais baratas com potencial para mitigar o quadro de obesidade na população. Tudo isso passa por outro grande desafio, que é treinamento e educação dos profissionais de saúde que estão na ponta, nas Unidades Básicas de Saúde (UBS) pelo Brasil. (PO)

Cenário latino

• Brasil: O aumento da obesidade acelerou em ambos os sexos e faixas etárias, com prevalência de 17% e 18% para meninas e meninos e 35% e 27% para mulheres e homens.

• México: O aumento continuou de forma constante para mulheres e homens, com prevalência de 43% e 34%.

• Colômbia: O aumento acelerou para meninas (prevalência de 13%) e meninos (10%) e continuou de forma constante para mulheres e homens, com prevalência de 32% e 19%.

• Argentina: O aumento da obesidade acelerou para meninas e meninos (ambos com prevalência de 22%) e continuou de forma constante para mulheres e homens, com prevalência de 39% e 37%. 

• Peru: O aumento da obesidade acelerou em ambos os sexos e faixas etárias, com prevalência de 15% e 19% para meninas e meninos e 34% e 26% para mulheres e homens.

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postado em 14/05/2026 05:02
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