
Duas baleias-jubarte surpreenderam pesquisadores ao realizarem uma travessia considerada inédita entre a Austrália e o Brasil. O deslocamento, registrado em um estudo publicado na revista científica Royal Society Open Science, é hoje uma das maiores distâncias já observadas para a espécie.
Os animais foram identificados em áreas de reprodução completamente diferentes, separadas por mais de 14 mil quilômetros através do Oceano Antártico. A descoberta chamou atenção da comunidade científica por revelar uma conexão rara entre populações de baleias que normalmente seguem rotas migratórias distintas.
Uma das jubartes foi fotografada pela primeira vez em Queensland, no litoral australiano, em 2007. Anos depois, em 2019, o mesmo animal apareceu próximo ao litoral de São Paulo. A distância entre os dois pontos passa dos 14 mil quilômetros.
Já a segunda baleia foi registrada na Bahia em 2003 e voltou a ser vista apenas muitos anos depois, desta vez perto da costa australiana de Hervey Bay. Nesse caso, a distância estimada ultrapassa 15 mil quilômetros.
Os pesquisadores conseguiram identificar os animais graças ao formato único das caudas das baleias, que funcionam como uma espécie de impressão digital. A comparação foi feita com milhares de fotografias reunidas ao longo dos anos por cientistas e observadores voluntários.
Apesar da dimensão da jornada, os cientistas acreditam que o percurso real pode ter sido ainda maior. Isso porque o estudo considera apenas os pontos onde as baleias foram fotografadas, sem conseguir rastrear todo o caminho feito pelos animais durante a migração.
As baleias-jubarte costumam passar os meses mais frios em regiões tropicais, como o Brasil e a Austrália, onde se reproduzem. Já durante períodos mais quentes, migram para áreas geladas próximas à Antártica em busca de alimento, principalmente krill e pequenos peixes.
Segundo os pesquisadores do Instituto Baleia Jubarte e da plataforma Happywhale, autores do estudo, a hipótese mais provável é que essas baleias tenham se encontrado em áreas de alimentação compartilhadas no Oceano Antártico.
O fenômeno é considerado extremamente raro. Entre milhares de baleias monitoradas pelos pesquisadores, apenas uma parcela mínima apresentou esse tipo de deslocamento entre oceanos tão distantes.
Os cientistas também investigam se as mudanças climáticas podem estar influenciando o comportamento migratório das jubartes. O aquecimento dos oceanos e as alterações no gelo marinho da Antártica podem afetar a distribuição de alimentos e modificar rotas naturais usadas há décadas pelos animais.
Além do impacto científico, o estudo destacou a importância da chamada ciência cidadã. Muitas das imagens usadas na pesquisa foram feitas por turistas, fotógrafos e observadores de baleias ao redor do mundo.
Para os pesquisadores, cada registro ajuda a montar um quebra-cabeça sobre os hábitos desses gigantes marinhos e pode revelar movimentos ainda desconhecidos pelos cientistas.
*Estagiária sob supervisão de Mariana Niederauer

Ciência e Saúde
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