Ler, passear por um museu, assistir a um concerto ou se dedicar a algum tipo de artesanato pode ter um impacto tão benéfico para a longevidade quanto se exercitar. Um estudo da Universidade College London, na Inglaterra, publicado ontem na revista Innovation in Aging, sugere que o engajamento em atividades artísticas e culturais ajuda a desacelerar o envelhecimento biológico, com efeitos comparáveis aos das atividades físicas.
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A pesquisa analisou dados de 3.556 adultos participantes do UK Household Longitudinal Study, um amplo levantamento populacional britânico, e investigou a relação entre lazer, atividade física e os chamados "relógios epigenéticos" — ferramentas moleculares capazes de estimar a velocidade do envelhecimento biológico a partir de alterações químicas no DNA, que, porém, não modificam a sequência genética.
Os autores descobriram que tanto atividades físicas quanto o engajamento frequente em artes e práticas culturais estavam associados a um ritmo mais lento de envelhecimento celular. Entre as atividades avaliadas estavam cantar, dançar, pintar, fotografar, fazer artesanato, visitar museus, bibliotecas, galerias de arte, monumentos históricos e participar de eventos culturais.
Mensurável
Segundo os autores, o artigo mostra, pela primeira vez em escala populacional, que o envolvimento cultural pode ter impacto mensurável na biologia do envelhecimento. Até agora, boa parte das pesquisas sobre longevidade saudável se concentrava em fatores já conhecidos, como alimentação mediterrânea, abandono do cigarro, controle do peso e exercícios físicos. "Para mim, esse é o achado mais importante do estudo", avalia o psiquiatra e psicogeriatra Gustavo Omena, de Alagoas. "A gente já está muito acostumado a ouvir do médico: 'Precisa se exercitar, precisa cuidar da alimentação'. Mas a mensagem que esse estudo traz é que ir a um show, aprender a tocar um instrumento, frequentar uma exposição de arte tem um impacto biológico comparável ao da atividade física em marcadores importantes do envelhecimento."
Omena destaca que a Organização Mundial da Saúde (OMS) reconhece, desde 2019, a importância da arte para a saúde. "O que falta é essa informação chegar ao consultório e às políticas de saúde. A arte não é luxo, não é entretenimento supérfluo, ela é, literalmente, um comportamento que protege o organismo", diz o especialista.
Testes
Os cientistas analisaram diferentes gerações de relógios epigenéticos — testes que analisam alterações no DNA relacionadas à idade (metilação do DNA). Essa abordagem é capaz de estimar se o organismo está biologicamente mais velho ou mais jovem do que a idade cronológica do indivíduo.
Os resultados sugerem que pessoas que participavam de atividades artísticas semanalmente apresentavam uma idade biológica até 1,02 ano menor em um dos relógios analisados, chamado PhenoAge, em comparação com indivíduos que se envolviam nessas práticas apenas uma ou duas vezes por ano. Além disso, os chamados relógios de terceira geração, que medem a velocidade do envelhecimento, indicaram um ritmo mais lento de deterioração biológica entre os participantes culturalmente ativos.
Os benefícios apareceram de forma consistente não apenas para a frequência das atividades, mas também para a diversidade dela: quanto maior o número de experiências culturais diferentes vividas pela pessoa, maior a associação com desaceleração do envelhecimento biológico. O mesmo padrão foi encontrado na atividade física, quando os participantes foram avaliados pelos relógios epigenéticos.
Relação
O estudo é observacional, ou seja, não estabelece uma relação de causa e efeito, apenas uma relação. Os cientistas destacam, porém, que usaram métodos estatísticos robustos para controlar fatores que também influenciam o envelhecimento biológico, como renda, escolaridade, estado civil, área de moradia, tabagismo, índice de massa corporal e doenças preexistentes.
Segundo os autores do artigo, o impacto positivo das artes pode estar relacionado a diversos mecanismos biológicos e psicológicos. Um dos principais é a redução do estresse crônico, reconhecido como acelerador do envelhecimento celular. Há anos, estudos mostram que experiências artísticas reduzem níveis de cortisol, melhoram o humor e modulam respostas inflamatórias do organismo.
Além disso, trabalhos experimentais anteriores já haviam demonstrado que ouvir música pode alterar a expressão gênica ligada à neuroplasticidade, à secreção de dopamina e à redução de citocinas inflamatórias. "Nosso estudo se soma a um crescente conjunto de evidências sobre o impacto das artes na saúde, com atividades artísticas demonstrando reduzir o estresse, diminuir a inflamação e melhorar o risco de doenças cardiovasculares, assim como o exercício físico já se sabe fazer", comentou, em nota, Feifei Bu, pesquisadora do Instituto de Epidemiologia e Saúde da UCL e autora sênior do estudo.
Idade
Outro ponto destacado pelos pesquisadores é que os efeitos positivos foram mais fortes em adultos acima dos 40 anos. No artigo, eles citam estudos recentes indicando que o envelhecimento biológico acelera de maneira importante justamente a partir da meia-idade, o que pode tornar intervenções de estilo de vida particularmente relevantes nesse período.
"Nessa fase, fatores como inflamação crônica, perda de resiliência fisiológica e estresse acumulado tornam-se mais evidentes, o que pode aumentar a sensibilidade dos relógios epigenéticos às exposições ambientais e comportamentais, facilitando detectar associações estatísticas", esclarece Beatriz Pereira Vilela, especializada em nutrologia e medicina do estilo de vida e integrante da plataforma INKI de consultas. "Mas isso não significa que exista uma idade 'certa' para começar. Quanto mais cedo uma pessoa desenvolve atividades que estimulam o corpo, a mente e a vida social, maior tende a ser sua reserva de saúde no futuro", ensina.
Beatriz Pereira Vilela acredita que o estudo traz um direcionamento importante para políticas públicas de saúde. "Atividades artísticas e culturais melhoram a saúde mental, aumentam a cognição, favorecem o engajamento comunitário e favorecem a redução do estresse fisiológico. Isso fortalece a ideia de que políticas de promoção de saúde devem incluir também acesso à cultura, convivência social e estímulo cognitivo", diz. "O que ainda não podemos fazer é transformar esses resultados em prescrições exatas, como 'tantas horas de arte por semana rejuvenescem o organismo'. A ciência ainda está avançando nessa direção."
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