PLANTAS

Estudo alerta sobre impactos da mudança climática na soja

Pesquisa da USP revela que as mudanças climáticas ameaçam a qualidade da soja brasileira, principal item de exportação do país

Uma pesquisa divulgada pela revista científica Food Research International, conduzida por pesquisadores da Universidade de São Paulo (USP), acendeu um alerta sobre o futuro da soja, o principal produto na exportação brasileira. O estudo revela que embora o gás carbônico (CO2) impulsione a quantidade de grãos, a composição química e nutricional da leguminosa também é afetada. 

O Brasil responde por 39% da produção global de soja, sendo assim o maior produtor mundial. No entanto, as mudanças climáticas impõem desafios sem precedente. O estudo testou o impacto isolado e combinado de três fatores, sendo o CO2 elevado, calor excessivo e a falta de água.

O resultados mostram que o o CO2 funciona como um fertilizante potente, capaz de aumentar a produção de grãos em até 142% quando analisado sozinho. O problema surge quando os outros "vilões" entram em cena: o calor extremo pode reduzir a colheita em 91%, enquanto a seca causa perdas de cerca de 60%.

“Efeito triplo” e a perda de qualidade da soja   

O estudo também enfatiza uma novidade, que é o chamado “efeito triplo” (combinação de CO2 alto, calor e seca) realizada através de modelos avançados de inteligência artificial. As projeções indicam que, nesse cenário futuro, a produção poderia até crescer 50% (graças ao efeito compensatório do CO2), mas a um custo alto para a qualidade.

"O CO2 elevado pode mitigar parcialmente as perdas de rendimento causadas pela temperatura e seca, mas isso ocorre às custas da qualidade nutricional", alerta a equipe do estudo.

Entre as principais mudanças detectadas nas projeções estão:

  • Queda na proteína e no amido: Redução de 6% na proteína e 20% no amido, nutrientes essenciais para a indústria de alimentos e ração animal.

  • Mudança nas Ggorduras: Alterações no perfil de ácidos graxos, com redução do ácido linoleico, o que pode impactar a fabricação de produtos como o tofu e o óleo de cozinha.

  • Aumento de açúcares e aminoácidos: Um salto de 175% nos aminoácidos e 35% nos açúcares solúveis, uma resposta da planta para tentar sobreviver ao estresse ambiental.

Inteligência Artificial no campo

Para chegar a essas conclusões, a equipe utilizou algoritmos de aprendizado de máquina, como o XGBoost. A tecnologia permitiu algo surpreendente, como prever a qualidade e a quantidade da colheita final, aos 125 dias, analisando apenas o estado da planta quando ela ainda é jovem, aos 60 dias de vida.

Essa capacidade de previsão antecipada é vista como uma ferramenta vital para o desenvolvimento de novas variedades de soja que sejam mais resistentes e mantenham o valor nutricional mesmo sob condições climáticas adversas.

Desafios para a segurança alimentar

A descoberta reforça que não basta garantir o volume da safra, é preciso assegurar que o alimento continue sendo nutritivo. Como o Brasil lidera o mercado global, essas mudanças na soja podem ter reflexos na economia e na segurança alimentar de diversos países que dependem da proteína brasileira.

O estudo conclui que a integração entre a fisiologia das plantas e o uso de modelos preditivos é o caminho para orientar programas de melhoramento genético e estratégias agrícolas que preparem o setor para os desafios do final do século 21.

*Estagiária sob supervisão de Aline Gouveia

 

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