A ciência vem reforçando a importância do riso para a saúde emocional e cognitiva das crianças. Pesquisadores liderados por Jacqueline Harding, diretora da Tomorrow's Child e especialista em primeira infância da Middlesex University, na Inglaterra, reuniram evidências sobre os efeitos biológicos e neurológicos do humor e as transformaram em um livro chamado O cérebro que adora rir.
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Segundo a equipe que participou do estudo, o riso é um fenômeno neurobiológico complexo e não apenas uma reação espontânea. Estudos apontam que o ato ativa diferentes áreas cerebrais, incluindo regiões motoras e circuitos ligados à memória e à tomada de decisões. A pesquisadora destaca ainda que essa ação surge antes mesmo do desenvolvimento completo da fala, indicando a relevância evolutiva para a comunicação humana.
Impacto
As evidências científicas que deram base ao livro mostram que o humor provoca alterações fisiológicas importantes. Entre elas, a redução dos níveis de cortisol e epinefrina, hormônios associados ao nervosismo, e o aumento da produção de neurotransmissores relacionados ao bem-estar, como dopamina, serotonina e endorfinas. A publicação também sugere impactos positivos sobre o sistema imunológico e a consolidação da memória.
Lidiane Silva, psiquiatra infanto-juvenil no Espírito Santo, frisa que o humor saudável ajuda a reduzir o estresse e favorece a regulação emocional. "Quando pais e educadores utilizam brincadeiras, acolhimento e leveza nas interações, a criança aprende a lidar com frustrações e ansiedade. Isso melhora a resiliência e amplia a capacidade de adaptação diante das dificuldades."
Estudos de neuroimagem indicam que compreender situações engraçadas exige elevado processamento cognitivo. O cérebro precisa interpretar ambiguidades, prever desfechos e resolver conflitos entre ideias distintas, um exercício mental que estimula a neuroplasticidade, consolida conexões neurais e favorece o pensamento criativo.
Vínculos
A líder da pesquisa inglesa também relaciona o riso ao fortalecimento dos vínculos afetivos entre pais e filhos. O trabalho aponta que interações marcadas por brincadeiras, contato visual e atenção compartilhada elevam os níveis de ocitocina e aumentam a chamada sincronia neural, fenômeno associado ao reforço das conexões interpessoais.
De acordo com o trabalho, o desenvolvimento simultâneo do sistema límbico — ligado aos sentimentos e à memória — e das funções executivas do cérebro faz com que experiências emocionais precoces influenciem diretamente a forma como a criança interpreta e reage ao ambiente ao longo da vida.
Nathalia Coelho, psicóloga especialista em infância e adolescência, no Rio de Janeiro, reforça que o riso espontâneo transmite autenticidade, presença e conexão genuína. "Já o humor forçado pode ser percebido pela criança como artificial ou até invalidante em alguns contextos. O mais importante não é fazer o pequeno gargalhar a qualquer custo, mas construir interações verdadeiras, acolhedoras e emocionalmente sensíveis."
A especialista destaca que é muito comum que alguns pais cheguem ao consultório compartilhando dificuldades para brincar com os filhos ou dizendo que não gostam dessas atividades. "Do ponto de vista da psicologia, isso raramente está relacionado à falta de amor, mas é ligado a barreiras emocionais, cansaço, excesso de demandas da rotina ou até desconforto com determinados tipos de diversões. Identificar e compreender essas adversidades é um caminho importante."
Jacqueline Harding conclui que evidências obtidas nas últimas décadas apontam para a necessidade de valorizar o humor como ferramenta de desenvolvimento humano. "Relacionamentos seguros e ambientes de brincadeira sem estresse promovem a aprendizagem. O currículo nunca deve ser priorizado em detrimento desses dois fatores fundamentais."
Palavra de especialista
Em um ambiente saudável, o pequeno vive repetidas experiências de previsibilidade, afeto, brincadeira, rearranjo após o conflito e resposta adulta, e isso favorece os circuitos de linguagem, atenção, regulação emocional e aprendizagem. Esse efeito não é só funcional: há evidências de que o suporte do cuidador na primeira infância prediz maior volume do hipocampo na idade escolar, estrutura ligada à memória e à modulação do estresse. Em um local violento, ainda que a agressão não seja física, mas haja gritos, humilhação e medo recorrente, o cérebro tende a operar com mais frequência em modo de vigilância e ameaça, com custo direto para exploração, curiosidade, sono, entre outros. Isso traz consequências negativas a longo prazo, como propensão a quadros ansiosos e depressivos, além de alterações potencialmente duradouras. Revisões mostram que maus-tratos no começo da vida deixam marcas estruturais mensuráveis que podem persistir. A criança não precisa apenas da ausência de brutalidade, necessita da presença ativa de segurança, vínculo, diversão e reparação sentimental.
Samuel Borges de Oliveira, neurologista infantil e neurofisiologista do Hospital Santa Lúcia (HSL)
