Mesmo mais de uma década após a retirada de pólipos considerados precursores do câncer colorretal, a microbiota intestinal e a fecal podem continuar exibindo marcas biológicas associadas à doença, segundo um estudo publicado na revista Cell Host & Microbiome. A pesquisa, da Harvard T.H. Chan School of Public Health, em Boston, reforça a importância da composição dos micro-organismos do intestino no desenvolvimento desse tipo de tumor, o segundo mais letal no mundo.
- Goiaba pode ser uma aliada para combater a anemia
- Nasa revela seus planos para construir base lunar permanente até 2032
Também chamados de pólipos, os adenomas são lesões precursoras do câncer colorretal, cuja prevalência está aumentando em todo o mundo, especialmente entre jovens adultos. Em geral, as lesões levam muitos anos para evoluir até um tumor maligno, razão pela qual a colonoscopia com retirada das massas é considerada uma estratégia eficaz de prevenção. Porém, mesmo após a remoção, pacientes continuam com risco maior de desenvolver a doença no futuro. Até agora, não se sabia exatamente o porquê.
No estudo, os pesquisadores analisaram amostras de fezes de 354 mulheres que haviam retirado adenomas intestinais cerca de 12 anos antes da coleta, comparando-as com voluntárias sem histórico de pólipos. Em uma subamostra, também foram avaliados metabólitos fecais — moléculas produzidas pelo organismo e pelas bactérias do intestino.
Bactérias
Entre as bactérias identificadas nas amostras, algumas haviam sido associadas anteriormente à inflamação intestinal e ao câncer. Espécies como Ruminococcus gnavus, Ruminococcus torques e Flavonifractor plautii estavam aumentadas tanto em pessoas com histórico de adenoma quanto em pacientes com câncer colorretal. Por outro lado, a quantidade de micro-organismos considerados benéficos, como Faecalibacterium prausnitzii, mostrou-se reduzida nesses dois grupos.
Segundo os autores, uma das descobertas mais relevantes foi a persistência das alterações mesmo muitos anos depois da retirada dos pólipos. Isso sugere que o adenoma pode não ser apenas um evento isolado, mas parte de um ambiente intestinal cronicamente alterado. Para os pesquisadores, o microbioma poderia funcionar tanto como marcador de risco quanto como participante ativo no processo de desenvolvimento tumoral.
O estudo também identificou mudanças importantes no metaboloma — conjunto de pequenas moléculas, os metabólitos — fecal. Entre elas, houve aumento de esfingolipídio, relacionado à inflamação celular, e de ácidos biliares secundários, compostos produzidos pela ação das bactérias intestinais. Alguns desses subprodutos do metabolismo haviam sido associados previamente à progressão tumoral.
Metabólitos
Nas amostras de pessoas que retiraram pólipos há anos e dos pacientes com câncer colorretal, substâncias potencialmente protetoras estavam reduzidas no metaboloma. Foi o caso da beta-criptoxantina, um carotenoide encontrado em frutas e vegetais, conhecido por propriedades antioxidantes. Os pesquisadores também observaram menor índice de certos ácidos graxos associados à atividade anti-inflamatória.
Segundo os autores, os resultados reforçam a hipótese de que a microbiota intestinal participa ativamente da sequência adenoma-carcinoma — o processo biológico que transforma pólipos benignos em câncer. "Nosso estudo foi o primeiro a abordar se as alterações microbianas e metabólicas intestinais ainda são detectáveis muitos anos após a remoção de um adenoma", comentou, em nota, o autor correspondente Mingyang Song, professor associado de epidemiologia clínica e nutrição.
"A resposta é sim — sugerindo que a remoção de um adenoma não restaura o intestino a um estado de baixo risco e que, portanto, o microbioma intestinal pode ser um importante fator biológico que contribui para o risco persistente de câncer colorretal", acrescentou Song.
Hábitos
A descoberta também fortalece a associação entre hábitos saudáveis e risco de câncer colorretal, pois a pesquisa mostrou que alimentação equilibrada, controle do peso corporal e atividade física não apenas reduzem inflamações sistêmicas, mas remodelam a comunidade de bactérias intestinais associadas ao risco tumoral.
"O aumento do câncer colorretal em adultos jovens é um fenômeno que tem sido observado globalmente e ainda não é completamente explicado, mas sabemos que é multifatorial", afirma Thais Passarini, oncologista da Oncoclínicas. "Alterações na flora intestinal, influenciadas por dieta inadequada e uso frequente de antibióticos, podem contribuir para inflamação crônica e desenvolvimento do câncer", assinala. "Dietas ricas em alimentos ultraprocessados, carnes vermelhas e embutidos, açúcar, combinadas com baixa ingestão de fibras, além de sedentarismo, obesidade, tabagismo e consumo de álcool, desempenham papel importante", aponta.
Embora o estudo não prove relação de causa e efeito, os autores acreditam que o trabalho abre caminho para novas estratégias de prevenção, como exames de fezes capazes de mapear bactérias e metabólitos intestinais. "É uma ideia muito atraente, e a ciência já mostrou que ela é possível em laboratório. Mas transformar isso em um exame que qualquer pessoa faça no posto de saúde ou no consultório ainda vai levar alguns anos", observa Landwehrner Lucena, cirurgião-geral e coloproctologista do Hospital Anchieta, em Brasília. "Embora muito promissora, essa área ainda precisa de validação robusta. Na prática clínica, não estamos próximos de substituir métodos consolidados, como FIT (Teste Imunoquímico Fecal) ou colonoscopia", concorda Myrna Maria Martins, médica proctologista do Projeto AMEi, de prevenção e diagnóstico precoce do estado do Piauí.
Três perguntas para Danilo Munhóz, coloproctologista da clínica Primazo, em Brasília
Até que ponto é possível afirmar que a microbiota participa diretamente do desenvolvimento do câncer colorretal, e não apenas acompanha a doença?
Hoje já sabemos que a microbiota intestinal não é apenas uma espectadora no câncer colorretal. Estudos consistentes mostram que algumas bactérias específicas, como a Fusobacterium nucleatum e determinadas cepas de Escherichia coli, produzem toxinas, estimulam inflamação crônica e podem causar dano direto ao DNA das células do intestino. Esse ambiente inflamatório persistente favorece alterações celulares que, ao longo do tempo, podem contribuir para o surgimento do tumor. Em laboratório e em modelos animais, essa relação de causa tem ficado cada vez mais clara, e em humanos encontramos essas bactérias em maior quantidade dentro do próprio tecido tumoral, o que reforça a hipótese de participação ativa no processo. Por outro lado, é importante explicar que o câncer é uma doença multifatorial. Genética, alimentação, sedentarismo, obesidade e outros fatores continuam sendo determinantes importantes. A microbiota parece atuar como peça de um cenário mais amplo, potencializando riscos em pessoas suscetíveis.
Na prática clínica, a composição da microbiota intestinal pode servir como biomarcador para diagnóstico precoce?
A ideia de usar a composição da microbiota como biomarcador é extremamente promissora. Pesquisas recentes indicam que certos perfis bacterianos podem diferenciar pessoas saudáveis daquelas com pólipos avançados ou câncer inicial, o que abre espaço para testes menos invasivos no futuro. Em teoria, uma análise das fezes poderia identificar padrões associados ao risco aumentado, funcionando como ferramenta complementar ao rastreamento tradicional, como pesquisa de sangue oculto e colonoscopia. Isso é especialmente interessante para ampliar o diagnóstico precoce, o principal fator de cura no câncer colorretal. No entanto, na prática clínica ainda não estamos prontos para substituir os métodos já consolidados. A microbiota varia muito de pessoa para pessoa, sofre influência da dieta, de medicamentos como antibióticos e até do estresse. Ainda faltam padronização, validação em larga escala e definição de pontos de corte claros para que esses testes sejam seguros e confiáveis. Por enquanto, a colonoscopia continua sendo o padrão ouro, e qualquer nova ferramenta deve somar, não substituir, até que haja evidência robusta suficiente.
O aumento de casos de câncer colorretal em adultos jovens pode estar associado à microbiota?
O aumento de casos de câncer colorretal em adultos jovens tem preocupado a comunidade médica mundial. Uma das hipóteses investigadas envolve alterações precoces na microbiota intestinal, possivelmente iniciadas ainda na infância. Fatores como dieta rica em ultraprocessados, baixo consumo de fibras, uso frequente de antibióticos nos primeiros anos de vida e maior exposição a substâncias inflamatórias podem modificar de forma duradoura o ecossistema intestinal. Esse desequilíbrio, mantido ao longo de décadas, pode criar um ambiente mais propício ao desenvolvimento de inflamação crônica e alterações celulares. Ainda não há uma causa única definida, mas a ciência aponta que o estilo de vida moderno tem impacto profundo sobre o microbioma. (PO)
Palavra de especialista
Chances de cura
O intestino humano abriga trilhões de bactérias. Quando esse ambiente está saudável e equilibrado, elas protegem as células da parede intestinal. Mas quando o equilíbrio se rompe — por conta da alimentação, do uso de remédios ou de outros fatores — algumas bactérias nocivas ganham espaço e passam a agir de formas que podem abrir caminho para o câncer. Durante muito tempo, os pesquisadores tinham dúvida se certas bactérias apareciam no intestino por causa do tumor ou se ajudavam a criá-lo. Hoje, as evidências apontam cada vez mais para a segunda opção: algumas bactérias realmente contribuem para o desenvolvimento do câncer. É importante dizer que o câncer de intestino tem várias causas: genética, alimentação, sedentarismo, histórico familiar. As bactérias são mais um fator nessa equação. Mas já não dá para tratá-las como meras coadjuvantes. O que a ciência está nos dizendo é que prevenir o câncer de intestino não começa aos 45 anos, quando o médico manda fazer a colonoscopia. Começa na infância — na mesa do jantar, no uso responsável de medicamentos, nos hábitos que construímos desde cedo. E há uma mensagem prática urgente: se você tem menos de 45 anos, mas tem histórico familiar de câncer de intestino, ou apresenta qualquer sinal de alerta — sangue nas fezes, dor abdominal frequente, mudança no ritmo intestinal, perda de peso sem explicação —, não espere a "idade certa". Procure um especialista agora. Descoberta cedo, a doença tem grandes chances de cura.
Landwehrner Lucena, cirurgião-geral e coloproctologista do Hospital Anchieta
