O número de adultos brasileiros com obesidade cresceu 118% entre 2006 e 2024, segundo dados da pesquisa Vigitel 2025, divulgados pelo Ministério da Saúde. No mesmo período, também houve aumento de 135% nos casos de diabetes, 47% de excesso de peso, e um aumento de 31% nos casos de hipertensão arterial. Todas essas doenças crônicas avançam de forma associada, elevando significativamente o risco de complicações graves e de mortalidade precoce. Diante desse cenário, a Associação Brasileira para o Estudo da Obesidade e Síndrome Metabólica (Abeso) lançou a Diretriz Brasileira de Tratamento Farmacológico da Obesidade 2026, um documento que redefine a abordagem clínica da doença e coloca os medicamentos no centro do debate. Não como último recurso, mas como parte indispensável de um tratamento moderno, seguro e baseado em evidências.
De acordo com o médico nutrólogo Sandro Ferraz, do Instituto Evollution em São Paulo, o lançamento da nova diretriz representa muito mais do que uma atualização técnica. Significa uma virada de paradigma urgente e necessária. "A medicina ainda carrega uma dívida histórica com o paciente obeso. Durante décadas, o sistema de saúde tratou essa condição como um problema de comportamento e disciplina. A orientação sempre foi comer menos e se exercitar mais e essa narrativa não apenas falhou como adoeceu pessoas. Portanto, essa nova diretriz vem dizer, com dados e rigor científico, que isso precisa mudar", afirma o especialista.
Doença crônica
A diretriz parte de uma premissa fundamental de que a obesidade é uma doença crônica, multifatorial e recidivante, não apenas um marcador antropométrico. Sua fisiopatologia envolve disfunção neuroendócrina da regulação do peso, adiposidade ectópica e inflamação metabólica, o que explica sua associação com doença cardiovascular, doença hepática esteatótica associada à disfunção metabólica (MASLD), apneia do sono, osteoartrite e outras comorbidades.
Ferraz destaca que o uso de medicamentos deixou de ser um complemento opcional e passou a ser reconhecido como uma estratégia terapêutica de primeira linha para perfis clínicos específicos. "O que a diretriz faz é devolver ao médico e ao paciente a possibilidade de tratar a obesidade com a mesma seriedade com que se trata a hipertensão ou o diabetes”, explica. Segundo as recomendações da Abeso, o tratamento farmacológico é indicado para indivíduos com IMC igual ou superior a 30 kg/m², ou a partir de 27 kg/m² na presença de comorbidades associadas.
Conceitos
A diretriz introduz conceitos que vão além do IMC absoluto. Um deles é o Peso Máximo Atingido na Vida (PMAV), que sugere avaliar a resposta ao tratamento com base no peso máximo que o paciente já teve, e não apenas no peso inicial da consulta. Além disso, a nova edição altera o paradigma central de perda de peso para controle de complicações.
Na prática, isso significa que a meta não é mais o número na balança, mas a saúde do paciente como um todo. O tratamento farmacológico busca reduzir o risco cardiometabólico, melhorar a qualidade de vida e, quando possível, induzir a remissão de comorbidades associadas à obesidade. Entre os medicamentos com maior eficácia, tirzepatida e semaglutida se destacam, com benefícios adicionais na redução de glicemia e pressão arterial.
O documento também orienta quando indicar farmacoterapia, quais metas terapêuticas perseguir e como escolher medicamentos em cenários clínicos específicos, incluindo risco cardiovascular, insuficiência cardíaca com fração de ejeção preservada, pré-diabetes, doença hepática esteatótica, osteoartrite, apneia obstrutiva do sono e risco de sarcopenia. "Isso é medicina de precisão aplicada à obesidade. Cada paciente tem um perfil, uma história, comorbidades diferentes. A diretriz nos dá ferramentas para personalizar o tratamento de forma responsável, com critério e evidência. Estamos saindo do genérico 'emagreça' e entrando na era do 'vamos tratar sua doença'", pontua Ferraz.
Futuro
Apesar dos avanços para combater a obesidade, as projeções para o futuro são igualmente preocupantes: estima-se que até 2030, o número de homens com obesidade no Brasil possa aumentar em 33,4%, enquanto entre as mulheres o crescimento pode atingir 46,2%. Diante desse cenário, Ferraz ressalta que o sistema de saúde não pode mais esperar.
"A diretriz Abeso 2026 é um marco. Mas ela só vai mudar vidas se sair do papel e chegar ao consultório, à UBS, à atenção primária. Precisamos de médicos capacitados para prescrever com segurança, de políticas públicas que garantam acesso aos medicamentos e, acima de tudo, de uma mudança cultural em entender que a obesidade não é fraqueza. É doença. E toda doença merece tratamento digno", conclui o especialista.
