
Um dos estudos mais aguardados, nesta sexta-feira (29/5), na abertura da edição 2026 do Congresso Anual da Sociedade Norte-Americana de Oncologia Clínica (Asco), em Chicago, nos Estados Unidos, revelou resultados considerados animadores para pacientes com câncer de pulmão de não pequenas células (CPCNP) ALK-positivo avançado. O subtipo molecular da doença é caracterizado por uma alteração genética. O ensaio de fase 3 Crown, liderado pela Pfizer, mostrou que o medicamento oral lorlatinibe teve resultados superiores à terapia com crizotinibe, que, durante muito tempo, foi o padrão para esse tipo de tumor. Após sete anos, mais de 50% das pessoas tratadas com a droga continuam saudáveis.
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O câncer de pulmão é a principal causa de morte por tumor no mundo. No Brasil, segundo o Instituto Nacional de Câncer (Inca), há cerca de 32 mil novos casos por ano, sendo que o CPCNP representa entre 75% e 80% dos casos. Globalmente, a prevalência da mutação ALK em pacientes do tumor de células não pequenas varia de 3% a 5%.
A pesquisa, também publicada na revista Annals of Oncology, incluiu 296 pacientes sem tratamento prévio, distribuídos aleatoriamente para receber lorlatinibe ou crizotinibe. Após um acompanhamento superior a seis anos, ainda não foi possível calcular a sobrevida livre de progressão (SLP) no grupo experimental, pois grande parte dos voluntários continuam vivos, sem a doença. Já o braço controle registrou mediana de apenas 9,1 meses de SLP. Nesse período, 55% dos participantes que utilizaram o medicamento mais moderno permaneceram saudáveis, contra somente 3% entre aqueles que receberam a terapia clássica.
Mudança
"Os resultados de sete anos do estudo Crown são notáveis não apenas pela durabilidade da resposta tumoral, mas também pelo que representam: uma mudança fundamental no que médicos e pacientes podem razoavelmente esperar do tratamento para câncer de pulmão de não pequenas células em estágio avançado", disse Tony Shu-Kam Mok, professor da Fundação Médica Li Shu Fan, chefe do Departamento de Oncologia Clínica da Universidade Chinesa de Hong Kong e principal autor do estudo.
Os dados chamaram atenção especialmente pela durabilidade do benefício clínico. Entre os pacientes que chegaram aos primeiros 24 meses sem piora da doença, a probabilidade de continuar livres de avanço no sétimo ano chegou a 79%. Outro ponto de destaque foi a proteção intracraniana. Nenhum novo episódio de progressão cerebral ocorreu após 30 meses de uso do lorlatinibe. O estudo também demonstrou redução marcante do risco de acometimento do sistema nervoso central, aspecto considerado essencial em tumores ALK-positivos, conhecidos pela elevada incidência de metástases neurais.
Apesar dos efeitos adversos mais frequentes no braço experimental, os pesquisadores classificaram o perfil de segurança como manejável. Eventos graves — pneumonia, dispneia e insuficiência respiratória — apareceram em 77% dos participantes tratados com lorlatinibe e em 57% daqueles que receberam crizotinibe. Ainda assim, a taxa de interrupção definitiva do tratamento relacionada à toxicidade permaneceu baixa. Quase metade dos pacientes que iniciaram lorlatinibe seguia em tratamento no momento da análise, reforçando a durabilidade da resposta observada ao longo do acompanhamento.
Cenário positivo
Conforme Rodrigo Bovolin, coordenador do Serviço de Oncologia Clínica do Hospital Sírio-Libanês, em Brasília, terapias dirigidas tendem a funcionar melhor do que um tratamento inespecífico, como a quimioterapia tradicional. "Quando identificamos o alvo certo e usamos o medicamento correto, a resposta costuma ser mais profunda e, sobretudo, mais duradoura."
Para Bolovin, o mais notável é a duração do efeito. "Estamos falando de um controle que saiu da faixa de meses e passou para a faixa de anos. O estudo Crown ilustra bem isso: após sete anos de acompanhamento, mais da metade dos pacientes seguia sem progressão da doença, algo impensável no cenário do câncer de pulmão avançado há pouco tempo."
"Por trás de qualquer estudo clínico, há uma pessoa que segue vivendo sua vida, criando seus filhos, construindo sua carreira, acumulando memórias, sem que o câncer avance", destacou Kenneth Culver, diretor de Pesquisa e Assuntos Clínicos da organização não governamental ALK Positive. "Esses resultados de sete anos trazem evidências convincentes de que o controle da doença a longo prazo é possível, e reconhecemos a dedicação da Pfizer em avançar com tratamentos que estão mudando o que significa viver com câncer de pulmão ALK-positivo".
Disponibilidade
No Brasil, o lorlatinibe, comercializado sob o nome Lorbrena, foi aprovado pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) em 2020, inicialmente para pacientes que não respondiam bem a outras terapias utilizadas para o câncer de pulmão de não pequenas células ALK-positivo avançado. O registro para o tratamento de primeira linha foi obtido no ano seguinte. Em 2022, o remédio foi incorporado ao rol de cobertura obrigatória dos planos de saúde.
Para o coordenador da Oncologia do Hospital Anchieta Taguatinga, Caio Neveso, o seguimento de sete anos do Crown consolida o lorlatinibe como o padrão de tratamento de primeira linha para pacientes com a condição. "O estudo demonstra que uma parcela significativa das pessoas com doença ALK-positiva avançada pode alcançar controle prolongado por muitos anos, aproximando-se de um cenário que antes parecia inalcançável para tumores metastáticos. Os dados apresentados representam um dos mais duradouros benefícios já observados com terapia-alvo nesse tipo de caso."
Palavra de especialista // Oncologia de precisão
"A atualização de sete anos do Crown reforça o impacto transformador da terapia-alvo no câncer de pulmão ALK-positivo. Os dados mostram um resultado sem precedentes para esse tipo de tumor metastático. Os achados consolidam o lorlatinibe como um dos tratamentos mais eficazes já desenvolvidos na área e reforçam uma mensagem importante: quando conseguimos oferecer testagem molecular adequada e acesso precoce às abordagens mais eficazes, podemos modificar de forma profunda a história natural desses cânceres. De forma geral, o congresso da Asco 2026 deve consolidar uma mudança no cenário atual: o avanço acelerado da oncologia de precisão para doença inicial e a busca por tratamentos cada vez mais individualizados."
Samira Mascarenhas, médica da Oncologia D'Or, especialista em câncer de pulmão
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