
Um estudo liderado por pesquisadores suíços, e publicado recentemente na revista científica PLOS One, aponta que o ruído do trânsito exerce influência direta sobre a percepção de incômodo e irritação de pessoas durante exercícios físicos, tanto em áreas urbanas quanto em espaços verdes. O trabalho evidencia que, embora o contato com a natureza seja amplamente associado ao bem-estar, fatores ambientais como a poluição sonora podem comprometer parcialmente esses benefícios.
De acordo com os pesquisadores, participantes do estudo relataram níveis significativamente menores de perturbação ao caminhar em áreas de floresta, especialmente quando comparadas a ambientes urbanos muito povoados. A diferença foi mais evidente em locais com baixo fluxo de veículos, sugerindo que não apenas a presença de vegetação, mas também a redução do ruído, contribui para uma experiência mais agradável. Em termos quantitativos, a sensação de incômodo causada pelo som do trânsito foi, em média, cerca de 6,9 pontos menor — em uma escala de 0 a 10 — nas áreas florestais em comparação com os centros urbanos, variando conforme a intensidade sonora.
Impacto positivo
Outro aspecto relevante identificado pelo estudo foi a importância dos chamados "intervalos de silêncio relativo". Esses períodos, caracterizados por pausas mais longas sem a presença de ruído de veículos, demonstraram impacto positivo na redução da irritação dos participantes. Ambientes que oferecem essa tranquilidade acústica tendem a proporcionar uma experiência melhor, favorecendo o relaxamento psicológico durante a caminhada.
De acordo com a fisiologista especialista em medicina do esporte Fausto Cunha, o ruído não é apenas um incômodo auditivo, mas também um estressor psicofisiológico. "Quando estamos expostos ao barulho constante, nosso corpo ativa o sistema nervoso simpático, liberando hormônios como o cortisol e a adrenalina. No esporte, isso é um problema, esse estado de alerta constante pode gerar tensão muscular desnecessária e desviar o foco cognitivo."
Segundo o especialista, quando o corpo é exposto ao barulho durante a atividade física, "em vez de canalizar energia para a contração muscular e oxigenação, ele gasta 'fichas' tentando processar o estresse ambiental. Isso reduz a resistência e a potência, seja você um atleta de elite ou alguém treinando no parque", completa.
Apesar da influência do ruído na percepção de irritação, os resultados indicam que caminhadas de curta duração — cerca de 30 minutos — trazem benefícios consistentes para a saúde mental, independentemente do ambiente. Os pesquisadores observaram uma redução significativa no chamado pensamento negativo repetitivo (RNT, na sigla em inglês), com queda média entre 30% e 38% entre os participantes.
Diante dos resultados, os autores do estudo reforçam a necessidade de políticas públicas e estratégias urbanas voltadas à mitigação do ruído, especialmente em áreas verdes dentro das cidades. Entre as recomendações estão a preservação de zonas mais silenciosas e a adoção de medidas como barreiras acústicas naturais ou artificiais ao redor de parques e florestas urbanas, com o objetivo de potencializar seus efeitos positivos sobre a saúde mental da população. (Isabella Almeida)
