
A cada Copa do Mundo, milhões de brasileiros transformam os dias de jogo da Seleção em verdadeiros eventos nacionais. A expectativa pelo hexacampeonato, a tensão dos confrontos decisivos e a carga emocional envolvida no futebol fazem parte da experiência do torcedor. Mas, segundo especialistas, quando a ansiedade extrema se soma a hábitos prejudiciais, o coração pode sentir os efeitos de forma perigosa.
De acordo com cardiologistas, momentos de forte tensão emocional provocam reações fisiológicas capazes de impactar diretamente o sistema cardiovascular. O cardiologista Ricardo Cals, do Hospital Santa Lúcia Norte, explica que o organismo responde ao estresse liberando hormônios como adrenalina e noradrenalina.
“Durante os jogos, principalmente os decisivos, pode haver estresse emocional, que faz com que haja ativação do sistema nervoso simpático, liberando hormônios como a adrenalina e a noradrenalina. Eles aceleram os batimentos cardíacos e aumentam a pressão arterial”, afirma.
Segundo o especialista, sintomas como dor no peito, falta de ar, dor de cabeça intensa e palpitações persistentes devem ser encarados como sinais de alerta. Nesses casos, a recomendação é procurar atendimento médico imediatamente.
Os riscos não se restringem a pessoas que já convivem com doenças cardíacas. Embora pacientes com histórico de hipertensão, arritmias ou cardiopatias estejam mais vulneráveis, indivíduos sem diagnóstico prévio também podem sofrer complicações. “Dependendo do grau de estresse, de consumo de álcool, tabaco, drogas e de privação de sono, as pessoas sem doenças de base também podem ter complicações em momentos de forte tensão”, alerta Cals.
Excesso fora de campo amplia o perigo
Além da carga emocional das partidas, médicos chamam atenção para comportamentos frequentemente associados às comemorações. O consumo exagerado de bebidas alcoólicas, o tabagismo, o uso de substâncias estimulantes e a má qualidade do sono formam uma combinação que pode potencializar os riscos cardiovasculares.
O coordenador de cardiologia do Hospital Santa Lúcia, Renault Ribeiro Jr., destaca que o estresse provocado pelos jogos pode desencadear quadros graves. “Podem ocorrer episódios de arritmias cardíacas e infarto agudo do miocárdio. O estresse provoca a liberação de adrenalina, gerando esses episódios”, explica.
Segundo ele, o aumento da frequência cardíaca, dores no peito e na cabeça, suor excessivo nas mãos e tonturas estão entre os sintomas que indicam que a emoção do jogo pode ter ultrapassado um limite seguro. O médico também ressalta que é comum observar um crescimento de ocorrências cardiovasculares associado ao abuso de álcool e tabaco durante grandes eventos esportivos.
Quando a dor no peito exige atenção imediata
Um dos principais desafios em momentos de ansiedade intensa é diferenciar uma reação emocional de um possível problema cardíaco. Para Renault Ribeiro Jr., algumas características ajudam a identificar situações potencialmente graves. “Se for forte, em peso, com irradiação para as costas e pescoço, e duração maior de 20 minutos”, afirma o cardiologista ao descrever sinais compatíveis com uma dor de origem cardíaca.
Ricardo Cals acrescenta que a chamada dor torácica anginosa costuma provocar sensação de pressão, aperto, peso ou queimação no peito. O desconforto também pode irradiar para os braços — especialmente o esquerdo —, ombros, pescoço, mandíbula ou costas. “Podem haver sintomas adicionais, como falta de ar, sudorese, náuseas, tontura e fadiga inexplicável”, detalha.
A demora para buscar ajuda médica diante desses sinais pode comprometer o prognóstico do paciente e aumentar o risco de complicações graves.
Prevenção e acompanhamento
Os especialistas reforçam que a melhor forma de aproveitar a competição com segurança é manter os cuidados com a saúde durante todo o ano. Pacientes com hipertensão, diabetes, colesterol elevado, obesidade ou histórico de tabagismo não devem interromper o uso de medicamentos. “Não deixar de tomar a medicação. É a principal recomendação”, destaca Renault Ribeiro Jr.
A atenção também deve ser redobrada entre pessoas acima de 60 anos e indivíduos mais jovens que apresentem fatores de risco cardiovasculares.
Para identificar precocemente problemas silenciosos, os médicos recomendam avaliações periódicas. Entre os exames indicados estão eletrocardiograma, ecocardiograma, monitorização ambulatorial da pressão arterial (MAPA), Holter, teste ergométrico, escore de cálcio coronariano e exames laboratoriais.
Ricardo Cals lembra ainda que a forma como o torcedor encara o resultado das partidas também pode contribuir para reduzir os impactos da ansiedade. “No esporte, nem sempre os resultados saem como esperado e que terão outras Copas no futuro. Isso pode ajudar a diminuir a tensão”, afirma.
A orientação dos especialistas é simples: torcer, comemorar e se envolver com a competição, mas sem abrir mão do equilíbrio. Afinal, a Copa dura algumas semanas, enquanto os cuidados com a saúde precisam permanecer em campo o ano inteiro.

Ciência e Saúde
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