Ciência

Tecnologia brasileira de nanopartículas permite tratar doenças de pele

Laboratório da USP produz nanopartículas terapeuticas para reduzir inflamação de doenças como psioriase e vitiligo

Uma tecnologia desenvolvida por pesquisadores brasileiros pode revolucionar o tratamento de doenças de pele com a psoríase e vitiligo. O grupo, vinculado ao laboratório NanoGeneSkin, da Universidade de São Paulo (USP) em Ribeirão Preto, vem desenvolvendo nanopartículas capazes de levar moléculas de RNA terapêuticos diretamente até a células cutâneas, combatendo com precisão molecular os genes responsáveis pela inflamação crônica.  

A pesquisa ocorre no âmbito do Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia (INCT) de Nanotecnologia Farmacêutica, financiado pela Fapesp e pelo Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq). 

A psoríase afeta entre 2 e 3% da população mundial, cerca de 190 milhões de pessoas, das quais aproximadamente 5 milhões no Brasil. Trata-se de uma doença crônica, de base imunomediada e genética, ou seja, provocada por uma resposta exagerada do próprio sistema imunológico, sem componentes hereditários. 

A condição se manifesta por lesões inflamatórias na pele, causadas pela produção excessiva de citocinas pró-inflamatórias, que são proteínas que funcionam como sinais de alarme do sistema imunológico e que, com excesso, causam danos ao próprio organismo. 

O vitiligo, por sua vez, leva à destruição dos melanócitos, células responsáveis pela produção do pigmento (melanina) que dá cor à pele, resultando no branqueamento progressivo.  

Ambas as condições compartilham uma característica que as torna alvos promissores para a terapia com RNA, a presença de genes específicos superexpressos, isto é, anormalmente ativos, que dirigem o processo patológico. 

O RNA (Ácido Ribonucleico) é uma molécula fundamental encontrada em todas as células. Ele atua como um mensageiro e operário do DNA, sendo o principal responsável por traduzir as instruções genéticas em proteínas que nosso corpo precisa para crescer, funcionar e se defender. 

A abordagem principal do grupo de pesquisa se baseia no uso de RNA de interferência (siRNA), moléculas sintéticas que atuam diretamente sobre o RNA responsável pela produção das citocinas inflamatórias, o degradando antes que a proteína nociva seja sintetizada. O resultado é a redução de mediadores da inflamação de células sadias, sem a necessidade de medicamentos que atuam no corpo todo, e causam efeitos colaterais. 

Mas carregar essas moléculas até as células-alvos da pele não é fácil. O RNA é quimicamente frágil, sendo degradado rapidamente pelas enzimas do organismo. Além disso, a pele é uma barreira biológica bastante eficiente, projetada para impedir o tipo de penetração que os pesquisadores precisam provocar. 

A solução desenvolvida foram nanopartículas de cristais líquidos, estruturas feitas de gorduras (lipídios) com organização interna altamente ordenada, semelhante a dos cristais, mas com a fluidez característica dos líquidos. Essa dinâmica permite encapsular o material genético, protegê-lo da degradação e facilitar a penetração e a captação pelas células-alvo.  

O objetivo do grupo vai além da psoríase. Pesquisas em andamento aplicam a mesma plataforma ao vitiligo e à cicatrização de feridas crônicas, outro problema de saúde sem solução terapêutica totalmente satisfatória. 

Outra frente de pesquisa, é o desenvolvimento de nanoestruturas para entrega de mRNA, molécula mensageira que instrui as células a produzirem uma proteína específica, com o potencial de uso em vacinas, incluindo uma vacina experimental contra o câncer. Ou seja, em vez de introduzir o vírus no organismo, se introduz apenas a instrução genética para que o próprio corpo produza uma proteína característica do agente infeccioso, treinando o sistema imunológico para reconhecer e combater. 

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