Astrônomos da NASA anunciaram a descoberta de fortes evidências de um fenômeno que pode ser único na Via Láctea: dois remanescentes de supernova que teriam sido produzidos por estrelas irmãs de um mesmo sistema binário.
Caso a hipótese seja confirmada, será a primeira vez que cientistas identificam vestígios de duas estrelas companheiras que explodiram como supernovas em momentos diferentes da história cósmica. O estudo foi apresentado durante a 248ª reunião da Sociedade Astronômica Americana que aconteceu em Pasadena, Califórnia entre os dias 14 e 18 de junho, e será publicado na revista científica Nature Communications.
A pesquisa utilizou dados coletados ao longo de 16 anos pelo telescópio espacial de raios gama da missão Fermi, da NASA. Os pesquisadores analisaram dois remanescentes de supernova localizados na constelação de Gêmeos, a cerca de 6 mil anos-luz da Terra. O primeiro é a famosa Nebulosa da Água-viva (IC 443) e o segundo é conhecido como G189.6+3.3.
Segundo os pesquisadores, a estrela que deu origem ao remanescente mais antigo teria explodido primeiro, lançando sua companheira pelo espaço. Milhares de anos depois, essa segunda estrela também chegou ao fim de sua vida e explodiu, criando a Nebulosa da Água-viva.
Como nasce uma supernova e oque é?
Supernovas são as maiores explosões do universo, que marcam o fim de estrelas supermassivas ou de sistemas binários. Acontecem quando os corpos celestes esgotam o combustível que alimenta suas reações nucleares, sem energia suficiente para sustentar seu próprio peso, o núcleo colapsa e desencadeia uma explosão colossal.
O resultado é uma onda de choque que se espalha pelo espaço, carregando enormes quantidades de gás, poeira e elementos químicos. Esses materiais formam estruturas conhecidas como remanescentes de supernova. Os astrônomos já catalogaram aproximadamente 300 remanescentes desse tipo na Via Láctea.
Ao analisar os dados do Fermi, os pesquisadores identificaram uma emissão de raios gama até então escondida pelo brilho intenso da Nebulosa da Água-viva. Essa emissão estava associada justamente ao remanescente mais fraco, G189.6+3.3.
Outro detalhe chamou a atenção dos cientistas, um longo filamento de gás entre os dois remanescentes. Para os pesquisadores, essa estrutura funciona como uma espécie de “ponte” física entre os dois remanescentes e representa uma das evidências mais fortes de que ambos estão inseridos no mesmo ambiente cósmico.
Separados por milhares de anos
As estimativas indicam que os centros das duas explosões estão separados por aproximadamente 40 anos-luz. Já as idades dos remanescentes sugerem uma diferença entre os eventos, a Nebulosa da Água-viva entre 8 mil e 9 mil anos e o G189.6+3.3, entre 20 mil e 110 mil anos. Isso significa que as duas explosões podem ter ocorrido com um intervalo de até 100 mil anos.
Simulações reforçam a hipótese
Para testar a teoria, os pesquisadores realizaram simulações de cerca de um milhão de sistemas binários compostos por estrelas massivas. Os resultados mostraram que sistemas onde as estrelas trocam matéria durante sua evolução conseguem produzir explosões duplas com características muito semelhantes às observadas.
Além disso, a equipe calculou que a chance de os dois remanescentes estarem alinhados apenas por coincidência é inferior a 1%, o que fortalece significativamente a hipótese de uma ligação física entre eles.
O que muda com essa descoberta?
Se confirmada, a identificação desse sistema representará o primeiro exemplo conhecido de duas estrelas companheiras que explodiram como supernovas e deixaram remanescentes detectáveis até hoje.
Para os astrônomos, o achado abre uma nova janela para compreender a evolução das estrelas mais massivas do Universo e os processos responsáveis pela produção dos raios cósmicos que atravessam a galáxia.
Como destacou a cientista da missão Fermi, Elizabeth Hays, a descoberta mostra que os raios gama continuam revelando histórias ocultas das estrelas, permitindo conectar os vestígios luminosos de duas gigantes que evoluíram juntas durante milhões de anos antes de desaparecerem em explosões colossais.
*Estagiária sob supervisão de Benjamin Figueredo
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