Avanço promissor na detecção do câncer

Exame de sangue de alta sensibilidade pode ser o novo aliado do tratamento da neoplasia no pâncreas ao identificar vestígios que escapam dos métodos usados hoje. A combinação pode mudar a forma de identificar e monitorar a doença

"A combinação pode mudar a forma como identificamos pacientes de alto risco", explica o professor Akhil Chawla, autor senior do trabalho  - (crédito: Ben Schamisso/Universidade Northwestern)

Um exame de sangue de alta sensibilidade pode ser o novo aliado do tratamento do câncer de pâncreas ao identificar vestígios que escapam dos métodos usados atualmente. A tecnologia foi capaz de detectar DNA tumoral circulante em um número muito maior de pacientes do que o sequenciamento de nova geração (NGS), técnica amplamente utilizada para monitorar esse tipo de neoplasia. Os resultados indicam que muitos doentes podem apresentar câncer residual mesmo quando os exames de imagem sugerem ausência de alterações, permitindo um acompanhamento mais preciso e intervenções mais precoces.

As conclusões são de um estudo realizado por pesquisadores da Northwestern Medicine, nos Estados Unidos e publicado nesta terça-feira (30/06), na revista Clinical Cancer Research. Para o trabalho a equipe acompanhou 106 pessoas com câncer pancreático localizado desde o diagnóstico até a conclusão do tratamento. Durante esse período, amostras de sangue foram coletadas para avaliar a presença de DNA liberado pelas células malignas, conhecido como ctDNA.

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Os cientistas compararam duas abordagens para identificar essas alterações genéticas. A primeira foi o sequenciamento de nova geração, método que analisa simultaneamente diversos genes relacionados ao desenvolvimento de tumores. A segunda utilizou a reação em cadeia da polimerase digital em gotas (ddPCR), técnica direcionada para mutações específicas e reconhecida por oferecer maior sensibilidade em situações nas quais a quantidade de material genético é extremamente baixa. O foco da análise foi o gene KRAS, responsável por mais de 90% dos casos de câncer de pâncreas.

Nova abordagem

Os resultados mostraram grandes diferenças entre os dois testes. No momento do diagnóstico, a ddPCR identificou DNA tumoral em 65% dos participantes, enquanto o NGS encontrou o mesmo marcador em apenas 17% dos voluntários. Após a quimioterapia, a superioridade da técnica permaneceu evidente: o exame mais sensível detectou sinais da doença em 60% dos pacientes, contra apenas 5% do método convencional. Depois da cirurgia, os índices foram de 56% e 9%, respectivamente.

Para o cirurgião oncológico Akhil Chawla, autor sênior do trabalho e professor associado da Universidade Northwestern, "a combinação pode mudar fundamentalmente a forma como identificamos pacientes de alto risco, monitoramos a doença microscópica e, potencialmente, intervirmos mais cedo, antes que a recorrência se torne clinicamente visível, resultando, em última análise, na cura de mais pacientes".

De acordo com os autores, essas informações sugerem que uma parcela significativa dos pacientes continua apresentando a doença mesmo após completar o tratamento. Em muitos casos, esse quadro não é percebido pelos exames de imagem nem pelos testes moleculares, o que pode atrasar terapias adicionais.

Além da maior capacidade para detectar o ctDNA, o estudo demonstrou que os resultados do exame também foram associados ao prognóstico. Os pacientes com testes positivos, tanto na ddPCR quanto no NGS, apresentaram sobrevida média de 11 meses após o diagnóstico. Em contrapartida, aqueles com exames negativos viveram, em média, 41 meses.

Outro achado chamou a atenção dos pesquisadores. Um grupo de participantes teve resultado negativo pelo NGS, mas positivo pela ddPCR. Essas pessoas apresentaram sobrevida média de 27 meses, desempenho inferior ao observado entre os pacientes sem nenhuma detecção de DNA tumoral. Segundo os autores, esse conjunto representa indivíduos de maior risco que poderiam permanecer sem identificação caso apenas o teste convencional fosse utilizado.

Para Caio Neves, coordenador da oncologia do Hospital Anchieta Taguatinga, a ddPCR representa um avanço muito promissor porque aumenta significativamente a sensibilidade na detecção de doença residual mínima. "O grande desafio no câncer de pâncreas é que muitos pacientes apresentam exames de imagem aparentemente normais após a quimioterapia e a cirurgia, mas ainda possuem doença microscópica que acaba levando à recidiva. Este estudo mostrou que a ddPCR foi capaz de identificar DNA tumoral circulante em um número muito maior de pacientes do que o NGS convencional, inclusive após o tratamento, sugerindo que podemos identificar precocemente aqueles com maior risco de recorrência."

Identificação precoce

"Sem dúvida, essa tecnologia tem potencial para ser utilizada em diversos outros tumores. Já existem estudos bastante avançados em câncer colorretal, mama, pulmão e melanoma, entre outros. Sempre que houver uma mutação bem definida e passível de monitoramento, a ddPCR pode desempenhar um papel importante na detecção de doença residual mínima, monitoramento da resposta ao tratamento e identificação precoce de recaídas", finalizou o especialista.

A principal vantagem da biópsia líquida é permitir o monitoramento da doença por meio de uma simples coleta de sangue, dispensando procedimentos invasivos. Como o exame pode ser repetido em diferentes fases do tratamento, é possível acompanhar a resposta à quimioterapia, avaliar a eficácia da cirurgia e identificar precocemente sinais de recorrência antes mesmo que apareçam alterações detectáveis em exames radiológicos.

Apesar dos resultados promissores, os pesquisadores ressaltam que a ddPCR ainda precisa ser validada em estudos com um número maior de participantes antes de ser incorporada à prática clínica. A expectativa é de que novos trabalhos confirmem o benefício da estratégia.

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postado em 01/07/2026 05:30
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