
Pessoas diagnosticadas com demência de início precoce podem apresentar redução da produtividade no trabalho por até 15 anos antes do diagnóstico. A descoberta é de um estudo publicado nesta quarta-feira (08/7), na Neurology, revista de saúde da Academia Americana de Neurologia. Os pesquisadores também notaram que o número de anos de menor produtividade variava dependendo do tipo de degeneração cognitiva.
“A demência de início precoce afeta as pessoas durante seus anos mais produtivos e está associada a uma menor capacidade de trabalho, aumento do desemprego e abandono da atividade laboral antes do planejado”, disse o autor líder do estudo, Eino Solje, cientista Universidade da Finlândia Oriental. “Essas mudanças podem reduzir a renda familiar e contribuir para um impacto econômico mais amplo. Nosso estudo encontrou uma associação entre a redução da produtividade no trabalho e a demência de início precoce até 15 anos antes do diagnóstico.”
O estudo incluiu 793 pessoas diagnosticadas com demência de início precoce em dois hospitais finlandeses durante um período de 12 anos. Elas foram pareadas por idade e sexo com 7.926 pessoas sem a condição.
Para determinar a perda de produtividade, os pesquisadores calcularam a diferença média anual de renda entre pessoas com demência de início precoce e participantes saudáveis. Eles também levaram em consideração outros fatores que poderiam afetar a diferença, como nível de escolaridade e outras condições médicas.
A equipe descobriu que pessoas com demência de início precoce apresentaram perdas de produtividade progressivamente maiores, até 15 anos antes do diagnóstico. Ao longo do estudo, elas tiveram perdas médias totais de produtividade de 74.577 euros, ou aproximadamente 439 mil reais.
A geriatra Beatriz Domingos Machado de Souza Lima, da plataforma Inki de consultas, diz que há muito se associa a demência ao esquecimento dos momentos mais avançados da vida. “No entanto, este estudo nos convida a olhar para um cenário muito anterior e, de certa forma, mais silencioso. Os dados mostram que pessoas que recebem o diagnóstico de demência antes dos 65 anos já apresentavam sinais de queda na produtividade no trabalho até 15 anos antes. Isso não significa, como os próprios autores ressaltam, que a demência seja a causa direta dessa redução; mas a associação é forte o bastante para acender um alerta importante.”
Difícil prognóstico
Ao analisar diferentes tipos de demência, os pesquisadores descobriram que as perdas médias de produtividade em pessoas com doença de Alzheimer começavam seis anos antes do diagnóstico e no caso de demência frontotemporal, 11 anos. Para outros tipos de condições, as perdas médias de produtividade foram consistentemente altas ao longo dos anos.
“Nosso estudo constatou que a perda de produtividade foi surpreendentemente grande, com uma média de cerca de 12 mil euros, 70 mil reais, por ano por pessoa, com perdas que começaram até 15 anos antes do diagnóstico”, disse Solje.
Segundo Leandro Freitas Oliveira, professor da Universidade Católica de Brasília (UCB) e pós-doutor em neurologia e neurociências, o que precisa ficar claro é que a demência de início precoce não é sinônimo de demência leve. “Pelo contrário, quanto mais cedo essas manifestações aparecem, mais difícil tende a ser o prognóstico, porque o quadro costuma ser mais agressivo."
E conclui: Hoje, quando pensamos nessas condições, consideramos que, após os 65 anos, esses sintomas podem começar a surgir. Antes disso, já é um sinal de alerta. Digo isso porque existem pessoas que desenvolvem aos 38, 40 ou 45 anos de idade. Nesses casos, o prognóstico tende a ser mais desfavorável.”
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